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Haverá em nós rios e marés que nos atravessam?


Talvez haja ainda em nós rios submersos escondidos algures cá dentro, mas dos quais já só temos conhecimento pelas suas correntes, que continuamente pressentimos e que nos vão atravessando o nosso íntimo.

São prováveis rios esquecidos, sabíamos deles nas nossas infâncias e adolescências, mas com a passagem do tempo fomos construindo uma vida adulta por cima deles, tendo eles acabado por ficar quase invisíveis, encobertos pela azáfama quotidiana, pelas ocupações profissionais, familiares e outras mais.

Em tempos distantes, passados, quando a vida ainda estava no seu início, fluíam em nós rios que conhecíamos de cor, mas depois erguemos sobre eles obrigações, compromissos, deveres e afazeres. Nesse entretanto, os anos foram passando e em determinado momento esquecemos que tais rios sequer existiam, e se porventura não os esquecemos, então acreditámos que presentemente para sempre estariam secos.

Assim como um rio vem de uma nascente longínqua, assim o tempo presente vem de um passado remoto. Rio e tempo têm uma contínua corrente. Mesmo quem crê que o tempo se detém, que o passado ficou sossegado lá atrás e que os rios secaram, não raras vezes é surpreendido por fortes e súbitas correntezas, que arrastam consigo tais certezas e os que as têm.

Mas não é tão-somente com as gentes que esses acontecimentos se dão. Pensemos numa grande cidade, Londres por exemplo. Londres está repleta de edifícios, na sua superfície ergueram-se por todos os lados construções ao longo de múltiplos séculos de história.
Durante a época vitoriana, os londrinos construíram sobre o leito de um rio, tendo este ficado totalmente escondido. Chamam-lhe desde então o rio perdido, The Lost River, mas o seu nome primeiro era Walbrook.

Em 2017, a artista espanhola Cristina Iglesias criou uma obra de arte para o centro de Londres, deu-lhe como título “Forgotten Streams". O que Cristina Iglesias fez foi criar uma escultura que permite às correntes submersas do rio perdido voltar a fluir à superfície e atravessar à vista de todos o coração da cidade.


Londres é uma cidade muito antiga, existe desde os tempos do Império Romano, Nova Iorque é uma metrópole bem mais recente, todavia, isso não significa que o local onde a enorme urbe americana foi erguida, não tenha um longuíssimo passado. Com efeito, muito antes de na ilha de Manhattan algo ter sido delineado e construído, já por lá havia desde sempre rios, riachos, ribeiras e outros cursos de água.

No Madison Square Garden Park, Cristina Iglesias desenterrou alguns desses rios, riachos e pequenos cursos de água há muito esquecidos. Talvez houvesse quem acreditasse que já estariam secos, mas não, mesmo que submergidos e olvidados, ainda assim, os rios continuavam a fluir.


A obra “Landscape and Memory” consiste em cinco espaços subterrâneos de bronze, onde a água fluí, remetendo-nos desse modo para época em que o Cedar River, agora enterrado no subsolo, corria livremente conjuntamente com os seus afluentes pelo terreno onde hoje se encontra o Madison Square Garden Park.

Cristina Iglesias desenterrou o esquecido rio e dessa forma fez ressurgir na imaginação dos nova-iorquinos actuais, a força e energia invisível desse antigo curso de água.


Os rios passados e esquecidos que Cristina Iglesias trouxe à lembrança e ao presente das cidades de Londres e de Nova Iorque, são de algum modo equivalentes àqueles rios abandonados que há em nós e que nos atravessam por dentro.

Rios esses que nos falam do que poderia ter sido e nunca foi, rios de ecos passados que ressoam no nosso presente, rios que nos recordam portas que jamais abrimos, rios que no seu fluir nos trazem desejos em nenhuma circunstância satisfeitos, rios que nos falam de anseios recalcados e rios cuja corrente nos arrasta para estados de loucura e amor. Enfim, rios que acreditámos já secos e soterrados, mas que na realidade fluem.

É mais ou menos a esse propósito, que um dia Ezra Pound escreveu um poema:

Louco é aquele que queira pôr fim à loucura do amor,
Porque o sol correrá com cavalos negros,
a terra extrairá trigo da cevada,
A corrente fluirá ao encontro da fonte
E antes que o coração conheça moderação,
Os peixes nadarão em rios secos.

Abaixo a imagem de outra obra de Cristina Iglesias, “El fluir de la Tierra”, que em boa verdade, é igual ao contínuo fluir que há em nós.


Mas se metaforicamente temos rios em nós, de igual modo teremos mares. Talvez que cada ser humano contenha em si para além de rios, um profundo mar. É um mar que não se sabe o seu tamanho ou fundura, mas que pressentimos ser imenso, abissal, dada a força e intensidade das suas marés.

Por vezes chegam-nos à mente ideias, desejos e ímpetos vindos sabe-se lá donde, talvez de um qualquer abismo, porventura terá sido a maré alta do nosso mar de dentro que os trouxe lá do fundo de nós.
Noutras ocasiões são inexplicáveis vazios e estranhas ausências o que sentimos, nesses casos, é possível que a nossa maré interior esteja baixa e que, ao recolher-se para dentro, o nosso mar interior tudo tenha consigo levado para um sítio longínquo.

Que mar é esse que há em nós? É uma pergunta para a qual não há resposta, apenas sabemos e sentimos que efeitos produzem as suas ondas e as marés com que ele nos percorre e atravessa.

Perto da cidade basca de San Sebastián existe uma pequena ilha, onde se encontra o velho farol de Santa Clara. Foi aí, no interior desse antigo holofote marítimo, perto das bravas águas cantábricas, que Cristina Iglesias instalou um seu trabalho cujo título é “Hondalea".

Hondalea é uma palavra basca, que significa profundezas do mar. A obra de Cristina Iglesias consiste numa escultura em bronze, que recria a estratificação do leito marinho e o efeito do impacto das ondas do mar contra as rochas.


Não é difícil pensarmos no nosso interior como uma extensa rocha, que vai sendo moldada, erodida e esculpida pelos efeitos do mar, das marés e das ondas.

Aqui fica um pequeno filme, de apenas três minutos, no qual ouvimos a artista a falar-nos desde a ilha onde se encontra o farol de Santa Clara, ela fala-nos a propósito da sua obra, da profundidade dos mares e dos seus fundos abismos, provavelmente semelhantes aos que há em nós.



Não é em Londres, nem em Nova Iorque ou em San Sebastían, é sim em Lisboa, e não muito longe do lento fluir do Tejo para o mar, que encontramos um sítio recentemente inaugurado. Trata-se de um pavilhão onde está exposta a colecção de arte contemporânea do já falecido artista, Julião Sarmento.

O edifício era um mero armazém, mas foi alvo de uma reabilitação concebida pelo arquitecto Carrilho da Graça. É um espaço claro e com uma bela luz, onde há janelas que nos dirigem o olhar para o céu etéreo e para as nuvens que o atravessam. Contudo, há nele uma cave, uma sala mais funda e escura, que contrasta com tudo o resto.

É no centro dessa sala, que encontramos uma escultura de Cristina Iglesias. A princípio o que vemos é um sólido cubo, no entanto, quando nos aproximamos, reparamos que há nele uma abertura pela qual podemos espreitar para o seu interior.

Lá dentro vemos uma espécie de matéria fossilizada, que tanto nos faz lembrar orgânicas e viscosas entranhas, como grutas feitas de duras rochas. Enquanto o exterior da escultura é plano, o seu interior é rugoso, retorcido e irregular.

Olhando mais para dentro, verificamos que lá bem no fundo existe uma abertura cujo fim não vislumbramos, somente entrevemos um qualquer abismo. O que efectivamente se vê no interior da escultura, é a água que sobe e desce continuamente, tal e qual o fazem as marés.

O que também vem à superfície interior dessa escultura são pequenas bolhas, que aí chegadas se desfazem. Talvez essas bolhas sejam como uma mensagem dirigida a quem as olha. Uma missiva vindo lá do fundo, para nos dizer que há em nós rios e marés que nos atravessam.

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