Como na canção de Ella Fitzgerald, nos Guiões de Aprendizagem que por aqui vamos publicando, queremos ser multidisciplinares, interdisciplinares e transdisciplinares.
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Neste verão, querem lá ver que há fitas! (Hiroshima, Meu Amor)
Catástrofe no tempo dos gregos antigos era um termo que significava simplesmente um fim surpreendente ou inesperado, ou então uma súbita reviravolta na história, que muito espanto causava. Catástrofe significava outrora, aquilo que hoje em dia na ficção cinematográfica e televisiva se designa como um ”final twist”.
A palavra catástrofe teve origem no teatro trágico grego, mas com a passagem dos séculos adquiriu um novo sentido, esse que ainda hoje tem, ou seja, refere-se a um desastre, a uma calamidade ou a um cataclismo. Em síntese, se exceptuarmos os filólogos, o significado original de catástrofe há muito que foi esquecido.
O poeta Rainer Maria Rilke (1875-1926), jogando com a etimologia grega da palavra, declarou um dia que “uma catástrofe é a primeira estrofe de um poema de amor”.
É certamente inesperado e causa espanto, que uma catástrofe possa ser a primeira estrofe de um poema de amor, tal e qual como é surpreendente, que um filme tenha por título “Hiroshima Mon Amour”.
Foi num dia de Verão, mais concretamente a 6 de Agosto de 1945, que uma bomba caiu sobre Hiroshima. O avião que a transportava chamava-se Enola Gay, nome da mãe do piloto. Little Boy, era o “nickname” pelo qual a bomba era conhecida entre os militares.
Décadas mais tarde, nos anos 80, Enola Gay viria também a ser o título de uma canção de grande sucesso. Num dos versos dizia-se assim: “Enola Gay
Is mother proud of little boy today?”
Quantos nos Anos 80 e seguintes, terão dançado e se divertido ao som de Enola Gay? Muitos certamente. Quantos desses se lembrariam que Enola Gay, era o nome do avião que transportou num dia se Verão a bomba que caiu sobre Hiroshima? Provavelmente muito poucos.
Em 1959, Alain Resnais realizou um filme cujo título original é “Hiroshima Mon Amour”. A narrativa é a seguinte: uma actriz francesa apaixona-se por um arquitecto japonês enquanto participa na rodagem de um filme em Hiroshima.
Ambos são casados e assim pretendem continuar. O nome desses dois personagens nunca é referido em toda a película, são simplesmente Ele e Ela.
Para Ela, esse amor impossível evoca o seu primeiro amor, em 1944, quando tinha somente 18 anos e vivia na sua cidade natal, Nevers. Nesse época, França estava ocupada pela Alemanha nazi, mas isso não impediu que Ela se apaixonasse por um jovem soldado alemão e fosse correspondida.
Vejamos uma cena em que os dois se encontram longe da cidade, escondem-se nos bosques, junto à margem de um rio.
Apesar de pertencerem a nações em guerra, Ela e o jovem alemão amaram-se. No entanto, ele acabaria por ser morto pelos combatentes da Resistência francesa. Com o final da guerra e a consequente derrota dos germânicos, Ela foi acusada pelos seus conterrâneos de ser uma amiga dos nazis, humilharam-na publicamente e como castigo raparam-lhe totalmente o cabelo.
Aqui a vemos na imagem abaixo, em Nevers, no pós-guerra. O seu cabelo ainda está bastante curto e Ela espreita para a rua com receio de sair, pois sabe que todos os que antes eram seus vizinhos, conhecidos e amigos, não perdem agora uma oportunidade para a tratar como um ser desprezível, como uma traidora e uma proscrita.
A Ela raparam-lhe o cabelo e partilhar essa atroz recordação com o amante japonês, é uma forma de ambos se aproximarem.
O tempo, como o vivemos, é composto de camadas nas quais o passado se acumula a cada minuto que passa, condicionando assim quem e o que somos no presente.
É certo que Ela viveu tristes acontecimentos, é certo que cometeu erros, mas tudo isso é iniludível e faz parte da sua história, de quem é agora. É isso que o seu amante japonês lhe tenta dizer na cena que mais abaixo se segue, ou seja, que o que Ela é nesse momento, resulta do que Ela outrora foi.
Se Nevers, a guerra e o jovem soldado alemão nunca tivessem acontecido, Ele e Ela jamais se teriam encontrado, conhecido e amado.
Time present and time past
Are both perhaps present in time future,
And time future contained in time past.
If all time is eternally present
All time is unredeemable.
What might have been is an abstraction
Remaining a perpetual possibility
Only in a world of speculation.
What might have been and what has been
Point to one end, which is always present.
“Quisemos fazer um filme sobre o amor. Quisemos estabelecer um contexto com as piores condições possíveis para o amor, as condições mais comumente culpadas, as mais censuráveis, as mais inadmissíveis”.
Na década de 50, encontrar uma história aceitável para contar a catástrofe de Hiroshima, não se adivinhava ser uma tarefa fácil, e para mais, uma história de amor. A guerra ainda estava muito próxima e o tema era um assunto bastante sensível.
Alain Resnais, o realizador, não era um homem que gostasse de tarefas fáceis, isto a ponto de todos terem a impressão de que ele preferia sempre filmes infazíveis, para assim ter a possibilidade de procurar uma forma de os realizar.
Em “Hiroshima, Meu Amor”, os japoneses ficam sem cabelo por causa da bomba atómica, em paralelo, em Nevers, Ela é submetida a um brutal corte de cabelo levado a efeito por patriotas a fim de se vingarem do seu amor por um soldado inimigo.
O filme é centrado numa voz feminina que narra a história. Uma voz que constantemente se distancia das imagens e nos faz ver a realidade de um modo inabitual, como se dois acontecimentos diferentes e distantes no tempo e no espaço, se reflectissem um no outro.
Duas cidades, Hiroshima e Nevers, duas personagens, uma atriz francesa e um arquiteto japonês, dois traumas, a bomba atómica e o corte de cabelo das mulheres no pós-guerra, e uma história que transita constantemente entre o passado e o presente.
Aqui ficam algumas das mais belas imagens de “Hiroshima, Meu Amor”:
A dado momento do filme, Ela, a voz, recita a estrofe de um poema:
“…Eu bem suspeitava que um dia me havias de aparecer.
Esperava-te com uma paciência sem limites, calma.
Devora-me.
Deforma-me à tua imagem, a fim de que nenhum outro,
depois de ti, compreenda a razão de tanto desejo.
Vamos ficar sós, meu amor.”
A voz, Ela, parece no poema ter encontrado o seu sentido, aquele pelo qual sempre esperou, porém, descobrimos rapidamente que Hiroshima é o tempo de um amor que vive exclusivamente desse presente.
“Hiroshima, meu Amor” é uma profunda reflexão sobre a impossibilidade de determos o tempo e sobre as insuficiências da memória. Ela sabe disso, já o experimentou anteriormente.
Contra tudo e contra todos, viveu um primeiro grande amor na sua juventude, em Nevers, no entanto, os anos passaram e com eles a intensidade daquilo que outrora sentia. Recorda o jovem soldado alemão que amou, mas é muito o que dele já esqueceu.
Recorda o seu corpo mas já não consegue sentir a sua pele, lembra-se de palavras suas mas já não as ouve com o tom da sua voz, tem memória dos seus olhos mas já não vislumbra neles o seu brilho.
E é precisamente isso que Ela teme ir também suceder com Ele, o seu amante japonês, por isso lhe diz antes de partir: “Como com ele, o esquecimento começará pelos teus olhos, pela tua voz. E acabará por te submergir totalmente. Esquecerei-te, repara como te esqueço já.”
A voz, Ela, recita então um novo poema:
“O tempo passará. Apenas o tempo.
E mais tempo há-de vir.
O tempo virá em que não saberemos
que nome dar ao que nos unirá.
O nome apagar-se-á a pouco e pouco da nossa memória.
Depois desaparecerá por completo.”
Vendo o filme de Resnais, talvez se seja tentado a acreditar que o tempo tudo arrasta consigo e que a memória no fim retém apenas resquícios de um intenso amor ou de uma bomba, que num dia de Verão caiu sobre Hiroshima. Talvez.
Porém, “Hiroshima, Meu Amor” é igualmente fruto dessa eterna e trágica luta contra o esquecimento, contra o tempo. Paradoxalmente ao sentido da sua história, o filme como que detém o tempo e retém em si a memória de um grande amor, que se seguiu a uma enorme catástrofe.
O poeta Rainer Maria Rilke (1875-1926), jogando com a etimologia grega da palavra, declarou um dia que “uma catástrofe é a primeira estrofe de um poema de amor”.
A fita estreou em França a 10 de Junho de 1959 e só chegaria a Portugal dois dias após o 25 de Abril de 1974, estreando-se então no Cinema Londres, em Lisboa, sala da qual já só restam memórias e histórias.
E pronto, foi mais uma fita de Verão, em breve outra virá.
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