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Meu Brasil brasileiro…(Carlos Drummond de Andrade)



Iniciamos hoje uma dúzia de textos dedicados a diversos heróis do Brasil, ou seja, falaremos de poetas, romancistas, artistas, cineastas, músicos, escultores e arquitectos. Fazemo-lo a propósito da imensa exposição que a Fundação Gulbenkian em breve inaugurará, cujo título é complexo brasil, e que nos propõe realizarmos uma extensa viagem pela cultura brasileira.

São alguns os portugueses, que nos dias de hoje, olham com desdém para o Brasil, coisa que só lhes fica mal, e demonstra o quão bacocos e provincianos certos lusitanos são.

É altamente provável, que o maior feito lusitano tenha sido a invenção do Brasil, todavia, há por aí gente crente, que a suprema glória da nação é o Cristiano Ronaldo.

Para esses, aqui fica a canção de Chico Buarque de Hollanda, na qual consta o verso “Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal. Ainda vai tornar-se um imenso Portugal”. No video, Chico passeia-se por uma Lisboa ainda não completamente desaparecida:



Na imagem abaixo vemos uma qualquer localidade, apesar de ser extremamente parecida com Lisboa, sabemos que não é a capital de Portugal. Situar-se-á no Alentejo, nas Beiras ou no Ribatejo? Em nenhum desses sítios, é sim na Bahia, lá no Brasil.


Dito isto, o nosso herói de hoje é o poeta Carlos Drummond de Andrade, homem nascido em Minas Gerais em 1902 e que faleceu no Rio de Janeiro em 1987. A relação de Drummond de Andrade com Portugal é extensa e vasta, por um lado, tinha uma ligação familiar com esta nossa nação, por outro, teve uma grande influência na moderna poesia portuguesa.

Seja como for, o certo é que a sua língua, era a nossa. A esse propósito, aqui fica uns seus versos:

Já esqueci a língua em que comia,
em que pedia para ir lá fora,
em que levava e dava pontapé,
a língua, breve língua entrecortada
do namoro com a prima.
O português são dois; o outro, mistério.

O adjectivo mais usado para definir Carlos Drummond de Andrade, é modernista. Tal sucede, porque o poeta usou a língua portuguesa de um modo inusual. 
Por exemplo, a redundância é uma coisa mal-vista pelos pretensos bens falantes cá da terra. Com efeito, se numa qualquer conversa de circunstância, dissermos “subir para cima” ou “ambos os dois”, provavelmente há de haver logo alguém, que nos corrige, para nos informar, que estamos a ser redundantes.

Em tais casos, estaremos efectivamente a ser redundantes, mas, e depois? E se quiçá gostarmos de redundâncias? Será que não as podemos usar? É por acaso proibido? Viveremos porventura numa escola primária doutros tempos e vamos levar umas boas reguadas por dizermos “descermos para baixo”?

Carlos Drummond de Andrade, sendo modernista, não se importou com tais problemas, tendo decidido ser redundante e repetitivo, sendo assim que compôs um dos mais profundos poemas em português, este a seguir:

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

Uma vez que acima já transcrevemos o poema, e para sermos redundantes, deixamos-vos agora o mesmo, mas na voz do próprio poeta:


Talvez não fosse preciso dizê-lo, mas a pedra no meio do caminho, simboliza poeticamente tudo aquilo com que nos cruzamos e acaba por marcar definitivamente as nossas vidas.

Carlos Drummond de Andrade escreveu um outro poema célebre, “Quadrilha”.

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili,
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

Mais uma vez, seremos outra vez redundantes. Assim sendo, aqui fica “Quadrilha”, na voz do poeta:



Os dois poemas já transcritos, serão talvez os mais conhecidos de Carlos Drummond de Andrade, porém, há outros, como por exemplo, este abaixo que nos fala do tempo que passa e da velhice.

Sendo um poema num tom aparentemente pessimista, ainda assim, nele surge um laivo de esperança. Nos versos finais, como se nos transmitisse uma lição ou conclusão, o poeta afirma que "a vida é uma ordem" e deve ser vivida de forma simples, “sem mistificação”, simplesmente centrada no momento presente.

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Simplesmente centrada no momento presente, dissemos nós, acerca do que o poema anterior de Carlos Drummond de Andrade, pretende dizer. No entanto, no poema que se segue, isso fica ainda mais evidente:
Não serei o poeta de um mundo caduco
Também não cantarei o mundo futuro
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos, mas nutrem grandes esperanças
Entre eles, considero a enorme realidade
O presente é tão grande, não nos afastemos
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história
Não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela
Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida
Não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins
O tempo é a minha matéria, do tempo presente, os homens presentes
A vida presente.
Abaixo uma foto de Carlos Drummond de Andrade sentado num banco em Copacabana. Actualmente, no momento presente (mais um instante redundante), Drummond já não se senta nesse banco, no entanto, fizeram-lhe uma estátua em que está lá sentado, ou seja, de certo modo, ali ficou para sempre.


E com tudo isto, caminhamos para o fim deste texto, o primeiro de uma série que dedicaremos a diversos heróis da cultura brasileira. Aqui fica então um último poema de Carlos Drummond de Andrade, um que nos fala, entre outras coisas, do fim do mundo:

É preciso casar João, é preciso suportar Antônio, é preciso odiar Melquíades é preciso substituir nós todos. É preciso salvar o país, é preciso crer em Deus, é preciso pagar as dívidas, é preciso comprar um rádio, é preciso esquecer fulana. É preciso estudar volapuque, é preciso estar sempre bêbado, é preciso ler Baudelaire, é preciso colher as flores de que rezam velhos autores. É preciso viver com os homens é preciso não assassiná-los, é preciso ter mãos pálidas e anunciar O FIM DO MUNDO.

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