Vamos hoje ao quarto texto dedicado a diversos heróis do Brasil, uma série ao longo da qual falaremos de poetas, romancistas, artistas, cineastas, músicos, escultores e arquitectos. Fazemo-lo a propósito da imensa exposição que a Fundação Gulbenkian inaugurou por estes dias e cujo título é Complexo Brasil.
O semanário Expresso ao noticiar a dita exposição, afirmou que “Portugal olha-se ao espelho e vê um Complexo Brasil: esta exposição não é para principiantes”. Já o jornal Público interrogou-se do seguinte modo: “Na Gulbenkian, Complexo Brasil: conseguiremos olhá-lo nos olhos?”
Na freguesia de São Domingos de Benfica em Lisboa, há uma rua cujo nome é Cecília Meireles. Nos manuais escolares portugueses, quer nos do Primeiro Ciclo, quer nos dos ciclos subsequentes, frequentemente aparecem contos ou poemas de Cecília Meireles, mas dito isto, estamos em crer serem poucos os que pela lusitana pátria saberão quem era Cecília Meireles.
Quanto dista hoje Portugal do Brasil? Mais que um oceano? Houve um tempo em que sabíamos quem era quem na literatura brasileira e havia tantos livros deles como nossos nas nossas livrarias.
Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Vinicius de Moraes ou Cecília Meireles eram nomes familares e ensinavam-nos a ler e a escrever, tanto quanto o faziam Jorge de Sena, Sophia ou Mário Cesariny. Houve um tempo em que os poetas do Brasil eram também poetas nossos.
Abaixo um desenho no qual vemos Cecília Meireles desembarcando em Lisboa em Outubro de 1934. É um desenho de Fernando Correia Dias, homem nascido em Lamego, que foi o primeiro marido de Cecília.
Cecília Meireles veio do Rio até Lisboa e queria encontrar-se com Fernando Pessoa, contudo, o homem passava as horas de expediente no escritório e, fora isso, andava bebendo aguardente por tascas e cafés, não tendo tempo para encontros literários.
Portugal já não sabe quem foi Cecília Meireles. Portugal que ela tanto amou, Portugal onde viveu entre 1934 e 1936, quando leccionou literatura brasileira em Coimbra e em Lisboa. Portugal que tantas vezes visitou.
Como já se terá percebido, o nosso herói de hoje é Cecília Meireles, que queria ser chamada poeta e não poetisa. Sentia que poetisa a diminuía, pois transmitia-lhe a ideia de ela ser tão-somente uma mulher prendada, ou seja, uma espécie de dona de casa com tempo, vagar e jeito para escrever umas coisitas bonitinhas.
No seu poema “Motivo”, a poeta apresenta-nos a fonte, a profundidade e a finalidade de toda a sua poesia, do que nela canta:
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.
Cecília Meireles nasceu no Rio de Janeiro em 1901 e faleceu nessa mesma cidade em 1964. Para além de poeta, foi pintora, professora e jornalista. A sua obra poética centra-se em temas como a melancolia, o tempo, a solidão e a inevitabilidade da morte.
Seu pai morreu três meses antes do nascimento de Cecília. Aos três anos de idade, sua mãe também morreu. Cecília passou a morar no Rio de Janeiro na casa da sua avó materna, uma mulher portuguesa, viúva e a única sobrevivente da família. A avó criou a menina com a ajuda de uma babá, que todas as noites lhe contava histórias.
Cecília Meireles possuía olhos verdes e era muito curiosa. A sua avó não a deixava sair de casa para brincar com outras crianças. Numa entrevista, Cecília, que nunca teve oportunidade de participar em brincadeiras e jogos infantis em que há vencedores e vencidos, disse que “em toda a vida, nunca me esforcei por ganhar e nem me espantei por perder". Disse também que a infância solitária lhe rendeu algo que muito preza: "a solidão e o silêncio".
Podemos imaginar Cecília em criança, a olhar pela janela de casa e a ver lá fora a miudagem a brincar. Foram esses momentos solitários em que ficava somente a espreitar, que a inspiraram a escrever poemas como “Para ir à Lua”, que foi publicado pela primeira vez em 1962:
Enquanto não têm foguetes
para ir à Lua
os meninos deslizam de patinete
pelas calçadas da rua.
Vão cegos de velocidade:
mesmo que quebrem o nariz,
que grande felicidade!
Ser veloz é ser feliz.
Ah! se pudessem ser anjos
de longas asas!
Mas são apenas marmanjos.
Assim como Cecília, havia outras meninas que espreitavam pelas suas janelas a vida lá fora, entre elas estariam Arabela, Carolina e Maria, essas que são cantadas no poema abaixo:
Arabela
abria a janela.
Carolina
erguia a cortina.
E Maria
olhava e sorria:
“Bom dia!”
Arabela
foi sempre a mais bela.
Carolina,
a mais sábia menina.
E Maria
apenas sorria:
“Bom dia!”
Pensaremos em cada menina
que vivia naquela janela;
uma que se chamava Arabela,
uma que se chamou Carolina.
Mas a profunda saudade
é Maria, Maria, Maria,
que dizia com voz de amizade:
“Bom dia!”
Cecília Meireles continuou à janela pela vida afora, não apenas naquela da sua infância, mas em muitas outras. Por assim ter sido, escreveu “A arte de ser feliz”, onde nos diz que é preciso aprender a olhar, para da janela se conseguir ver o mundo de determinada forma:
Houve um tempo em que a minha janela se abria sobre uma cidade que parecia feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim seco. Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre homem com um balde e em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.”
Cecília Meireles gostava de ter extensas vistas por diante das suas janelas, por consequência disso, é muito normal que gostasse de habitar nos últimos andares:
No último andar é mais bonito:
do último andar se vê o mar.
É lá que eu quero morar.
O último andar é muito longe:
custa-se muito a chegar.
Mas é lá que eu quero morar.
Todo o céu fica a noite inteira
sobre o último andar
É lá que eu quero morar.
Quando faz lua no terraço
fica todo o luar.
É lá que eu quero morar.
Os passarinhos lá se escondem
para ninguém os maltratar:
no último andar.
De lá se avista o mundo inteiro:
tudo parece perto, no ar.
É lá que eu quero morar:
no último andar.
“Nasci aqui mesmo no Rio de Janeiro, três meses depois da morte de meu pai, e perdi minha mãe antes dos três anos. Essas e outras mortes ocorridas na família acarretaram muitos contratempos materiais, mas, ao mesmo tempo, me deram, desde pequenina, uma tal intimidade com a Morte que docemente aprendi essas relações entre o Efémero e o Eterno”.
É de relações entre o efémero e o eterno, aquilo de que Cecília Meireles nos fala no seu poema “Encomenda”:
Desejo uma fotografia
como esta - o senhor vê? - como esta:
em que para sempre me ria
como um vestido de eterna festa.
Como tenho a testa sombria,
derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.
Não meta fundos de floresta
nem de arbitrária fantasia...
Não... Neste espaço que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia.
Uma fotografia é sempre uma evocação, uma imagem do passado, que congela em si um certo tempo e espaço. No poema acima, “Encomenda”, a poeta pede uma fotografia “em que para sempre me ria”, já no poema abaixo, “Retrato”, constata algo espantada, quais os efeitos da passagem do tempo:
Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
— Em que espelho ficou perdida
a minha face?
É com esta questão, “Em que espelho ficou perdida a minha face?”, que terminamos o nosso texto de hoje dedicado a Cecília Meireles, teremos certamente tempo para em breve neste blog falarmos de mais uns quantos heróis do Brasil…
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