Vamos hoje ao terceiro texto dedicado a diversos heróis do Brasil, uma série ao longo da qual falaremos de poetas, romancistas, artistas, cineastas, músicos, escultores e arquitectos. Fazemo-lo a propósito da imensa exposição que a Fundação Gulbenkian inaugurou por estes dias e cujo título é Complexo Brasil.
O semanário Expresso, ao noticiar a dita exposição, afirmou que “Portugal olha-se ao espelho e vê um Complexo Brasil: esta exposição não é para principiantes”. Já o jornal Publico interrogou-se do seguinte modo: “Na Gulbenkian, Complexo Brasil: conseguiremos olhá-lo nos olhos?”
Abaixo um mapa da Europa, no qual em cada país está representada a bandeira nacional da maior comunidade de emigrantes aí existente. Como se pode verificar, os portugueses são a maior comunidade emigrante em certas partes do centro de França, no Luxemburgo, em pequenos pedaços do sul da Alemanha e na Galiza, isto enquanto os brasileiros o são em Portugal.
O nosso herói de hoje é a escritora Clarice Lispector (1925-1977), um dos maiores nomes da literatura brasileira. A autora nasceu em Tchetchelnik, na Ucrânia. A sua família era judia e decidiu deixar o país de origem por causa do antissemitismo e, por consequência disso, emigrou para o Brasil.
Clarice Lispector não é uma escritora para principiantes, sendo que é difícil conseguir lê-la olhando-a olhos nos olhos. Em boa verdade, quem a deseja ler tem de renunciar à ambição de querer entender.
Vendem-se por aí muitos livros policiais, e são muitos os leitores que ao lê-los se sentem satisfeitos consigo mesmos, por terem resolvido o mistério ou solucionado o crime ainda antes de na narrativa do livro o enigma ter sido revelado.
Os leitores desse tipo são muito inteligentes, são gente capaz de resolver uma charada num instante e descobrir logo onde é que está a marosca, não são porém leitores prontos para Clarice Lispector.
Com efeito, para se ler Clarice Lispector é preciso estar-se disponível para não se entender, como disse a própria autora, “Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.”
Não é despropositado afirmar, que Clarice Lispector viveu e escreveu sob o signo da do paradoxo.
Ser-se paradoxal não é uma escolha, diga-se antes que é como se fosse uma espécie de destino. As gentes decentes e inteligentes têm fortes certezas, os seres paradoxais nem por isso, o mais que possuem é incertezas e dúvidas. Há quem os diga doidos.
Por exemplo, quando as gentes decentes e inteligentes lêem um romance policial inglês, sabem de imediato que a culpa é do mordomo, por outro lado, se o romance policial for francês, dúvidas também não existem, a solução é óbvia, ou seja, ‘“cherchez la femme”.
Com Clarice Lispector nada se sabe de imediato e não há soluções e muito menos óbvias. A escritora é uma daquele género de pessoas, que nem sequer sabe onde arruma os papéis, e que quando se põe a pensar nisso, acaba até a duvidar sobre quem é, e qual é a sua identidade.
“Quando não sei onde guardei um papel importante e a procura revela-se inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase se eu fosse eu, que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar. Diria melhor, sentir.”
O mais complexo livro de Clarice Lispector é “A Paixão segundo G.H.” Há ecos de “A Metamorfose” de Franz Kafka nessa narrativa que nos conta a história de G.H., uma escultora bem relacionada nos círculos intelectuais do Rio de Janeiro, que numa manhã igual a tantas outras, vê o seu mundo expandir-se e simultaneamente pulverizar-se.
G.H. decidiu arrumar a casa, um espaço seguro, limpo e imaculado, onde tudo está ordenado na perfeição e colocado nas gavetas certas. Contudo, em dado momento tem um encontro epifânico com uma barata, que rasteja no interior de um armário. Perante a visão do insecto, G.H. submerge-se em agudas questões existenciais, rasga fronteiras mentais e coloca em causa o seu lugar no universo e até a sua própria humanidade.
Através da sua escrita, Clarice Lispector tenta expressar a paradoxal experiência de transformação e de perda de individualidade que G.H. experimentou logo após ter esmagado uma barata. Ela descreve a sua própria impotência para escrever sobre esse episódio e a consequente luta para encontrar as palavras exactas que relatem a experiência vivida pela personagem que criou.
Em “A Paixão segundo G.H.”, Clarice Lispector disseca as mais irracionais e primordiais pulsões humanas, como por exemplo o desejo, o medo e a vontade de ultrapassar limites e transgredir. O leitor faz a travessia por um mundo obscuro, uma espécie de descida aos infernos, em que caminha com o personagem por entre as ruínas e destroços de tudo aquilo em que ela antes acreditava e tinha por seguro e certo.
Há vários excertos que fazem ver ao leitor a transformação por que G.H. passou, como por exemplo este: “Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então não me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: duas pernas. Sei que somente com as duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável em mim mesma, e sem sequer precisar me procurar.”
Numa outra passagem, G.H. como que resume a sua metamorfose: “O que eu era antes não me era bom. Mas era exatamente desse não-bom que eu havia organizado o melhor: a esperança. De meu próprio mal eu havia criado um bem futuro. Terei que correr o sagrado risco do acaso. E substituirei o destino pela probabilidade.”
Há actualmente portugueses (e não só) que olham para o mapa que acima publicámos e que se assustam. O que está presente nesse susto é o medo de perder certezas, é o horror às metamorfoses da identidade.
Tais metamorfoses, sejam de nível pessoal, social ou nacional, deixam uns quantos em prantos. Sobressaltados e espaventados começam então aos berros, recusando tudo o que é diferente de forma a entrincheirarem-se no seu eu pessoal, social ou nacional. Em boa verdade, o que esses temem é confrontarem-se com o perigo de não saberem quem são.
Não é evidentemente esse o caso de Clarice Lispector, como se pode constatar neste trecho do seu livro “Um Sopro de Vida”: “Cadê eu? perguntava-me. E quem respondia era uma estranha que me dizia fria e categoricamente: tu és tu mesma. Aos poucos, à medida que deixei de me procurar fiquei distraída e sem intenção alguma. Eu sou hábil em formar teoria. Eu, que empiricamente vivo. Eu dialogo comigo mesma: exponho e me pergunto sobre o que foi exposto, eu exponho e contesto, faço perguntas a uma audiência invisível e esta me anima com as respostas a prosseguir. Quando eu me olho de fora para dentro eu sou uma casca de árvore e não a árvore. Eu não sentia prazer. Depois que eu recuperei meu contato comigo é que me fecundei e o resultado foi o nascimento alvoroçado de um prazer todo diferente do que chamam prazer.”
De facto, Lispector não só não tem receio de se confrontar com as metamorfoses das suas identidades, das suas Clarices, como inclusivamente descobre nisso “o nascimento alvoroçado de um prazer todo diferente do que chamam prazer.”
Numa crónica publicada no Jornal do Brasil em 1972, Lispector detalha em que consiste esse prazer. Diz-nos que consiste no risco de se possuir um coração livre e no perigo de se ser: “O prazer é abrir as mãos e deixar escorrer sem avareza o vazio-pleno que se estava encarniçadamente prendendo. E de súbito o sobressalto: ah, abri as mãos e o coração, e não estou perdendo nada! E o susto: acorde, pois há o perigo do coração estar livre! Até que se percebe que nesse espraiar-se está o prazer muito perigoso de ser.”
“O prazer muito perigoso de ser” não é uma coisa simples nem isenta de dores e sofrimentos. Acrescente-se também, que quando se quer sentir o prazer de ser, há um elevado risco de se ser incompreendido e de se perder a reputação: “O prazer nascendo dói tanto no peito que se prefere sentir a habituada dor ao insólito prazer. A alegria verdadeira não tem explicação possível, não tem a possibilidade de ser compreendida – e se parece com o início de uma perdição irrecuperável.”
Por não ser uma coisa simples nem isenta de dor e sofrimento, e por também causar incompreensão, não são todos os que têm força para o prazer de ser. Há muitos que se assustam e morrem de medo de perder as suas certezas, há muitos que se apavoram diante das metamorfoses das identidade e espavoridos se amuralham nos seus “eus”.
Esses que se amuralham gritam muito e, acobardados, juntam-se uns aos outros para se protegerem e assim se sentirem fortes e começarem a vociferar coisas como “nós primeiro”, “esta é a nossa terra”, “a nossa identidade está a ser ameaçada” e outras inanidades do género. Mais valia que assumissem a sua fraqueza e se protegessem dos perigos do prazer de ser sem aborrecer.
Citemos mais uma vez Clarice Lispector: “E quem não tiver força, que antes cubra cada nervo com uma película protetora, com uma película de morte para poder tolerar a vida. Essa película pode consistir em qualquer ato formal protetor, em qualquer silêncio ou em várias palavras sem sentido.”
Como se depreende do que foi escrito no seminário Expresso, “Portugal olha-se ao espelho e vê um Complexo Brasil: esta exposição não é para principiantes”, e no jornal Público, “Na Gulbenkian, Complexo Brasil: conseguiremos olhá-lo nos olhos?”, a mostra fala-nos do Brasil, mas também nos confronta com quem somos enquanto portugueses, ou seja, fala-nos da nossa identidade.
No livro “O Labirinto da Saudade”, o pensador Eduardo Lourenço escreve-nos sobre Portugal como sendo um paciente cheio de medo, perdido num enredo de mitos, traumas e sonhos.
Eduardo Lourenço realiza nessa sua obra uma psicanálise mítica do destino português, um país com uma identidade distorcida pelo jogo traumático de só saber ser tudo ou nada. O povo eleito dos Descobrimentos, que fantasiou um Quinto Império, mas que nunca deixou de ser remediado, humilde, adormecido, sem esperança e acinzentado.
O país que ia do Minho a Timor, que é afinal pequeno na ambição. Preso nos mitos e lendas do passado, Portugal afunda-se em berros, traumas e complexos, que o impedem de se lançar em novas aventuras e de sentir o prazer de ser de que nos fala Clarice Lispector.
G.H. decidiu arrumar a casa, um espaço seguro, limpo e imaculado, onde tudo está ordenado e colocado nas gavetas certas, todavia viu uma barata e essa visão rasgou-lhe fronteiras e abriu-lhe mundos.
Em Portugal há agora quem brade "vamos pôr este país na ordem". Na ordem, dizemos nós, está esta terra há muito tempo. Talvez a esses que clamam por ordem, não lhes fizesse mal lerem Clarice Lispector e irem até à Gulbenkian ver a exposição Complexo Brasil. Talvez desse modo aprendessem a esquecer onde guardaram um papel importante e percebessem que a vida e o mundo não se arrumam sempre em gavetas.
Por hoje terminamos, mas em breve neste blog, falaremos de mais uns quantos heróis do Brasil…







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