Este será o quinto texto que dedicamos a diversos heróis do Brasil, uma série ao longo da qual falaremos de poetas, romancistas, artistas, cineastas, músicos, escultores e arquitectos.
Fazemo-lo a propósito da imensa exposição que a Fundação Gulbenkian inaugurou por estes dias e cujo título é Complexo Brasil.
O semanário Expresso ao noticiar a dita exposição, afirmou que “Portugal olha-se ao espelho e vê um Complexo Brasil: esta exposição não é para principiantes”. Já o jornal Público interrogou-se do seguinte modo: “Na Gulbenkian, Complexo Brasil: conseguiremos olhá-lo nos olhos?”
Dito isto, o nosso herói de hoje é Glauber Rocha, cineasta nascido em 1939 no Rio de Janeiro e que faleceu nessa mesma cidade em 1981.
Glauber Rocha teve uma forte ligação a Portugal, onde viveu durante grande parte do seu exílio. Participou activamente na revolução portuguesa de 1974, contribuindo para o documentário colectivo "As Armas e o Povo".
Rocha entrou em coma em Lisboa em 1981 devido a graves problemas pulmonares, foi transferido para um hospital do Rio de Janeiro, onde morreria em consequência de uma septicemia.
No vídeo abaixo podemos ver Glauber Rocha fazendo entrevistas às gentes portuguesas nos fervorosos tempos que se seguiram à revolução de Abril, no filme "As Armas e o Povo".
Um dos momentos mais curiosos, é quando Glauber Rocha pergunta insistentemente a uma mulher “A senhora acredita na revolução? A senhora acha que vai ter uma revolução em Portugal?”, ao que esta muito tranquila e filosoficamente lhe responde com um simples “talvez”.
Muito justamente reverenciado como um autêntico génio, Glauber Rocha foi um dos fundadores do movimento de vanguarda brasileiro conhecido como Cinema Novo.
O Cinema Novo, através de Glauber Rocha trouxe uma original proposta ao mundo, “A Estética da Fome”, a qual consistia em retratar a pobreza e a escassez com uma inédita linguagem cinematográfica. Uma linguagem crítica em que a aspereza se transforma num estilo, e a fome é uma metáfora do subdesenvolvimento do Brasil.
Uma das mais célebres frases do manifesto-tese de Glauber Rocha “A Estética da Fome”, é aquela em que se diz, que a mais nobre manifestação da fome é a violência.
Bem sabemos que a violência não é suposto ser resposta para nada, todavia, para Glauber Rocha, era a resposta válida e digna à fome. Não que o homem em si mesmo fosse violento, antes pelo contrário, ao que se sabe era um paz de alma, contudo, nos seus filmes não se exímia de exaltar a violência como a única forma forte de reagir à fome.
Vejamos o caso de um dos seus mais belos e perturbantes filmes, uma obra de 1964 intitulada “Deus e o Diabo na Terra do Sol”.
A história de “Deus e o Diabo na Terra do Sol” é a que agora vamos resumir. No sertão, Manoel, um vaqueiro, e sua mulher Rosa, levam uma vida sofrida. Vivem numa terra desolada, marcada pela seca e que parece abandonada por Deus.
Nas terras do sertão havia uma população formada pela mistura de brancos, negros e índios, gente isolada do mundo e organizada em pequenas comunidades fechadas. Comunidades que, acossadas por grandes proprietários de terras, os chamados coronéis, viram-se cada vez mais por entre o fogo e a caldeira, entre Deus e o Diabo.
Quando Manoel leva o gado para a cidade mais próxima para o entregar a um coronel e receber o valor devido por esse serviço, uns quantos animais morrem pelo caminho. O Coronel Matias, o seu patrão, não cumpre o acordado com Manoel, pois diz-lhe que o gado que morreu era dele, ao passo que o que chegou vivo à cidade era o seu. Manoel injustiçado e humilhado, enfurece-se e num acesso de raiva e desespero mata o coronel e foge.
Manoel decide depois juntar-se a um bando de beatos revolucionários, cujo líder é um suposto santo de seu nome Sebastião, um homem fanático, alucinado e obstinado, que trava uma luta mística contra os grandes latifundiários, também conhecidos como coronéis. Manoel apega-se firmemente às palavras do falso profeta e dispõe-se aos mais delirantes sacrifícios.
Sebastião busca apaixonadamente o paraíso através da redenção divina do povo. As gentes simples que nada possuem seguem-no cegamente, aguardando sempre que um milagre os resgate da miséria e da fome. Os coronéis, contrariados pela força desse movimento, decidem então contratar António das Mortes, um famoso jagunço. O objectivo é que ele persiga e mate todo o bando de beatos revolucionários.
António das Mortes, que se autodenomina matador de cangaceiros, foi um personagem criado para o filme “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, mas reapareceu numa película posterior de Glauber Rocha, precisamente intitulada “António das Mortes”.
Nessa obra, a narrativa é a seguinte, António das Mortes é contratado por um coronel para matar um líder revolucionário cangaceiro chamado Coirana. António e Coirana defrontam-se num duelo mortal à catanada. António vence porque “ele é um cabra macho!”.
Todavia, mesmo sendo “um cabra macho!”, a vida dá muitas voltas e o coronel decreta que António das Mortes já não é seu empregado, agora é sim seu inimigo!
O momento culminanate do filme é o sangrento tiroteio final entre António das Mortes e os jagunços do novo capataz do coronel, o Mata-Vacas.
António das Mortes autodenomina-se matador de cangaceiros, mas a bem da verdade, ele é também um homem que duvida e se deixa interrogar sobre o seu destino, que no fundo se entrecruza com o do Brasil.
— É matando, António? É matando que você ajuda seus irmãos?
— Sebastião também me perguntou. Eu não queria, mas precisava. Eu não matei os beatos pelo dinheiro. Matei porque não posso viver descansado com essa miséria.
— A culpa não é do povo, António! Não é do povo!
— Um dia vai ter uma guerra maior nesse sertão. Uma guerra grande, sem a cegueira de Deus e o Diabo. E para que essa guerra comece logo, eu, que já matei Sebastião, vou matar Corisco. E depois morrer de vez, que nós somos tudo uma mesma coisa.
Toda a ação do filme é sublinhada pela música da banda sonora, que é inspirada nas cantorias nordestinas:
“Jurando nas igrejas,
Sem santo padroeiro,
António das Mortes,
Matador de cangaceiro!
Matador, matador
Matador de cangaceiro!"
Nos filmes “Deus e o Diabo na Terra do Sol” e “António das Mortes” é bem explícito aquilo que Glauber Rocha designava como a Estética da Fome, sendo também evidente a ideia de que a violência é a única forma digna de reagir à fome.
Mas dito isto, há igualmente algo de utópico e de sonhador nessas películas, o que se revela em certos versos da banda sonora, como aquele em que se canta esperançosamente que um dia “o sertão vire mar e o mar vire sertão.”
A imagem acima é do filme “Terra em Transe”, obra de 1967 de Glauber Rocha. Na fictícia República de Eldorado, Paulo é um utópico e sonhador poeta. Decide apoiar um político católico e conservador em ascensão, que é também apoiado pelos meios de comunicação e cujo nome é Porfírio Diaz.
No entanto, Paulo acaba por perceber que Porfírio Diaz não vai salvar o país. Apoia então um outro líder político, este supostamente progressista, mas que na realidade é tão-somente um populista que aparenta poder alterar a situação de miséria e injustiça em que vive o país.
Porém, após ganhar as eleições, esse líder supostamente progressista, mostra-se fraco e deixa-se controlar pelos interesses económicos que financiaram a sua campanha, nada fazendo para mudar a situação.
Com o desenrolar da narrativa, verificamos que ao poeta Paulo tudo corre mal, acabando ele profundamente desiludido com a política e com o país, e perdendo toda a esperança que algo possa verdadeiramente ser mudado.
O filme foi proibido por todo o Brasil, por ser considerado subversivo e irreverente. O filme esteve também proibido em Portugal até 1974.
Abaixo, um vídeo que nos fala de “Terra em Transe” e da actualidade desse filme de há décadas:
Glauber Rocha foi um homem ambíguo e controverso. Mandado para o exílio pelos militares de direita, foi considerado um traidor pela esquerda. Posteriormente, traiu os militares e ninguém mais o queria. Morreu jovem, com pouco mais de 40 anos, na condição de pária.
Terminamos por aqui, este nosso texto de hoje dedicado a Glauber Rocha, teremos em breve neste blog mais uns quantos heróis do Brasil…







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