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É Natal. Adília morreu, Marx e Frank também, e eu já não me estou a sentir nada bem!

 


É inverno em Lisboa. As luzes natalícias iluminam toda a Avenida. Pela principal artéria da cidade (como se diz nos telejornais), há lojas de luxo com montras a brilhar. Sapatos, roupas, relógios e demais produtos dão-se a ver em todo o seu esplendor, acendendo em quem passa ânsia de consumo e o desejo de comprar.

Seria um regalo para Karl Marx, se pudesse passear pela Avenida abaixo e ver o quanto estava certo, quando falava do fetichismo da mercadoria. Ocorre-nos até a ideia, de que Karl Marx, com as suas longas barbas brancas e o seu ar anafado, tem muitas parecenças com o Pai Natal.

Aparentemente, não fomos os primeiros a ter essa ideia, pois fomos pesquisar na internet, e muitos outros antes de nós já tinham pensado no mesmo. Mais a mais, que quer o Pai Natal, quer o Karl Marx, são grandes apreciadores do vermelho.


Observamos as lojas de luxo da Avenida, vemos quem nelas trabalha, o tipo de atendimento personalizado que ali se faz, a fina clientela, e percebemos o quão distantes estamos do típico comércio lisboeta, esse de que a poeta Adília Lopes um dia falou, referindo-se à Dona Nazaré, a padeira do seu bairro, Arroios:

“Quando aparecia alguma freguesa a lamentar-se dos manhosos e manhosas deste mundo, a Dona Nazaré dizia:
— Dar ao desprezo.
É o que há a dizer. Mais nada.”

Ali pelo meio da Avenida, numa esquina discreta, abrem-se as Portas do Parque Mayer. Outrora era um sucesso e por lá passaram artistas como Beatriz Costa, Vasco Santana ou Raul Solnado. Era uma outra Lisboa, essa de então.

Com o tempo veio a decadência e em inícios do século XXI, o Parque Mayer mais não era do que um amontoado de ruínas e de teatros semi-abandonados. Foi então que em 2003, o Presidente da Câmara de Lisboa teve uma ideia daquelas de encher o olho.

O dito presidente da edilidade dava pelo nome de Santana Lopes, e era um homem que gostava de esplendores, de luxos e de coisas que brilham. Vai daí, decidiu encomendar a um arquitecto-estrela, a total renovação do Parque Mayer.

O arquitecto-estrela contratado para esse efeito foi Frank Gehry, que faleceu neste mês de dezembro, há uns poucos dias, com 96 anos de idade. Frank Gehry fica para a história, entre outras razões, por ter sido o criador do chamado “Efeito-Bilbao”.

No final do século XX, Bilbao era uma cidade feia e decadente, durante décadas tinha vivido da indústria do ferro e do aço, todavia, com o encerramento de muitas fábricas, o que restava era um rio poluído, casas escuras e sujas pelos fumos negros que continuamente saíam das altas chaminés fabris, e uma população deprimida pela pobreza e pelo desemprego.

Só que então, as autoridades tiveram uma ideia, a de aí se construir um imenso museu dedicado à arte moderna e contemporânea. Aos habitantes locais, a ideia pareceu-lhes parva. Seria porventura um museu, e para mais de arte moderna e contemporânea, que os iria salvar e à cidade?

Porém, foi isso mesmo que sucedeu, Frank Gehry desenhou o Museu Guggenheim de Bilbao, e logo a seguir a cidade começou a receber imensos turistas culturais, apareceram galerias de arte, hotéis de charme, restaurantes alternativos e pequenos e originais negócios, de repente, a feia, desinteressante e suja Bilbao passou a estar na moda, enriqueceu, tornando-se “cool”, culta e próspera.

Essa súbita e muito bem sucedida metamorfose, resultante da construção de um museu, ficou para a história como o “Efeito Bilbao”. Abaixo uma imagem do local onde antes havia apenas ruínas de velhas fábricas, e onde agora se vê o flamejante Museu Guggenheim.


Voltemos a Lisboa. Santana Lopes, presidente da câmara em 2003, também queria ter um ”Efeito-Bilbao” na capital de Portugal, razão pela qual, contratou Frank Gehry para redesenhar o Parque Mayer.

Numa entrevista, o Santana disse o seguinte: “…sempre que Frank Gehry chegava ao Parque Mayer, em Lisboa, era como entrar no País das Maravilhas de Alice. Nunca me hei de esquecer. Sempre que ele andava por lá, era como estar no Wonderland.”

É inverno em Lisboa. As luzes natalícias iluminam toda a Avenida, pressente-se lá no alto, no Parque Eduardo VII, a imensa euforia da Wonderland: carrosséis, rodas gigantes, pais natais, belos castelos de plástico, neve artificial, casinhas a imitar as próprias das paisagens nórdicas, algodão doce até fartar e príncipes e princesas de encantar.

A Wonderland traz-nos outra vez à memória a poeta Adília Lopes, e mais concretamente a seguinte passagem: “O Príncipe dá um beijo tão forte na boca da Bela Adormecida que lhe arranca um bocado da boca. A Bela Adormecida fica tão contente por ser acordada pelo Príncipe que lhe dá um abraço tão apertado que o estrangula e se estrangula.”

O Parque Mayer de Frank Gehry nunca foi concretizado, sendo Portugal como é, há sempre chatices, burocracias, contrariedades, resistências, por consequência, os contos de fadas quase sempre acabam mal. Assim sendo, a autarquia pagou 2,9 milhões de euros ao arquitecto pela elaboração do projecto, este entregou-o no prazo estipulado, a tempo e horas, e de resto tudo ficou tal e qual como estava.

Apesar do Parque Mayer continuar com um ar semi-abandonado, ainda assim, no final de 2024 lá foi inaugurado o novo Teatro Variedades, segundo um projecto de restauro da dupla de arquitectos Manuel e Francisco Aires Mateus.

O objectivo era restaurar o glamour deste emblemático edifício da cidade de Lisboa, mantendo os principais elementos que o caracterizam: o pórtico, o foyer, o auditório e o palco.

Manuel e Francisco Aires Mateus disseram o seguinte: “O que pretendemos é conservar esses espaços, restaurá-los e, à volta, construirmos uma ‘caixa’. O que esta caixa faz é conservar todos os espaços interiores. A espacialidade mantém-se, a memória daquele teatro fica registada naqueles espaços.”



Curiosamente, está agora patente no Porto, em Serralves, uma exposição dedicada aos arquitectos Manuel e Francisco Aires Mateus, cujo título é “Beleza Apesar de Tudo”.

Bem se poderia dizer, que o renovado Teatro Variedades, é um momento belo apesar de praticamente tudo em seu redor no Parque estar com um ar semi-arruinado.
“Falar sobre a vida, a morte e a imaginação é a grande ambição partilhada por estes arquitectos”, é o que deles se diz, num escrito da dita exposição em Serralves.

No Teatro Variedades estreou agora a peça “Estar em Casa”, que se baseia em textos e poemas de Adília Lopes.

É inverno em Lisboa. As luzes natalícias iluminam toda a Avenida, nas lojas de luxo as montras brilham, sapatos, roupas, relógios e demais produtos dão-se a ver em todo o seu esplendor, lá no alto, no Parque Eduardo VII, pressente-se a imensa euforia da Wonderland. Neste entretanto, está praticamente a fazer um ano que Adília Lopes morreu.

Se Adília Lopes ainda fosse criança e não estivesse já morta, com certeza que não haveria de gostar de ir às lojas de luxo da Avenida, pois o que ela dizia adorar fazer quando menina, era passear pelos modestos negócios do seu bairro de sempre, Arroios.

São muitas as referências que faz a esses sítios, como por exemplo à padaria defronte da sua casa que exibia na montra uma boneca de faiança, da cintura para cima, a comer um pão-de-leite com fiambre, ou a uma loja dos anos 60 na Rua de Arroios onde só se vendia plásticos, e ainda ao local onde ia às explicações de inglês com Miss Helen, na Rua de Macau, no antigo Bairro das Colónias.

Não raras vezes, também escreve acerca dos cafés que existem pela zona de Arroios, os quais frequentava diariamente: “Durante anos comi nos cafés. Com a quarentena do coronavírus, os cafés fecharam, passei a cozinhar para mim. Adoro cozinhar. Achava que não sabia cozinhar. Ninguém me ensinou. Não vi cozinhar. Tenho 60 anos, nunca tinha feito esparguete. Não fazia a mínima ideia de quanto tempo levava a cozer. Consultei o livro de cozinha para crianças A colher de pau de Maria de Lourdes Modesto. O esparguete leva 15’ a cozer. Acho A colher de pau um livro genial. Cozinhar tem sido alucinante para mim, uma terapia. Vem aí a macacoa, a miséria? Sem esparguete, com coronavírus, a vida não é divertida. Por enquanto divirto-me.”

Os cafés do bairro de Arroios não são como os da Avenida, não são assim tão finos, por lá não há rooftops, nem sunset drinks, nem tão-pouco lounges ou brunches. As conversas nesses cafés não são particularmente sofisticadas, e as gentes que os frequentam diariamente também não são elegantes.

Quando por esses cafés aparece alguém com outras pretensões, as pessoas estranham. É disso que Adília Lopes nos deu conta num breve texto: “Um dia estava no café e ouvi dois rapazes a conversar, um deles, casado há pouco tempo, dizia que a lua de mel tinha de ser no Egipto ou no México. Deu-me vontade de rir porque acho possível passar uma lua de mel inesquecível na Praça da Figueira.”

Ali a meio da Avenida, a uns poucos passos do Parque Mayer, resiste aberta a antiga Cervejaria Ribadouro, que de há uns anos a esta parte, até tem esplanada e tudo. Foi em 1947 que abriu portas. Desde então serve refeições simples, saborosas e consistentes, a preços bastante razoáveis. É um daqueles sítios onde ainda se pode ir comer diariamente, mesmo sendo na Avenida.

Abaixo uma foto do prédio de esquina, onde está instalada a Cervejaria Ribadouro. É inverno em Lisboa e os eléctricos há muito que não sobem e descem a Avenida.


Não era só quando ia a cafés, que Adília Lopes estranhava as gentes mais finas. Mesmo no remanso do lar isso sucedia e, inclusivamente, com uma sua prima: “Em minha casa, detestávamos pessoas bem-falantes, palavras caras. De uma vez, apareceu a prima Maria Lucília a dizer já não sei porquê:
– Fiquei muito confrangida.
Passámos a chamar-lhe a confrangida.”

Adília Lopes descreveu como ninguém, em inúmeros textos e poemas, a sua cidade e em especial o modesto bairro de Arroios, onde viveu todos os 64 anos da sua vida, bairro que também a conhecia.

Por norma, Adília Lopes não gostava sequer de se afastar muito de casa, e certamente que não apreciaria muito lojas de luxo, e ainda menos o eufórico Wonderland ao cimo da Avenida.

Na verdade a poeta, não era uma particular admiradora dos personagens tipo dessas fantasiosas paragens, ou seja, de príncipes e princesas, facto que se comprova com esta sua história:

“Não quero trabalhar nem estudar, o que eu quero é namorar. –  disse a princesa e cruzou os braços. Dormia de braços cruzados e tinham de lhe dar de comer porque a princesa só podia abrir os braços para abraçar o namorado e não havia nenhum namorado para ela.
Quando se acabou o dinheiro, acabaram-se as criadas e acabou a comida. A princesa morreu de fome, muito suja, mas sempre de braços cruzados.
E nem os cangalheiros nem os médicos legistas lhe conseguiram descruzar os braços porque nem os cangalheiros nem os médicos legistas eram o namorado da princesa de braços cruzados porque não havia namorado para ela.
Foi conservada em formol dentro de um frasco de vidro transparente para ser mostrada aos visitantes do Museu de História Natural. Na placa que dá informações sobre o conteúdo do frasco está escrito em latim: só descruzará os braços quando lhe aparecer um namorado. Todos no museu têm a esperança de que um dia um visitante saiba latim e seja o namorado da princesa de braços cruzados.
Mas a empregada do balcão do bar do Museu, menos positiva do que o resto do pessoal, resolveu fazer o mesmo que a princesa de braços cruzados. Por isso não há bicas para ninguém.”

Para terminarmos, uma fotografia de Dina Goldstein, da sua série “Fallen Princess”, no caso a princesa caída, é a Branca de Neve.

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