Todos sabem que fumar mata e prejudica gravemente a saúde, mas não são tantos os que parecem saber, que uma certa concepção de escola mata a criatividade e prejudica gravemente o pensamento crítico.
Sir Ken Robinson (1950–2020), um escritor, conferencista e consultor internacional em educação, divulgou amplamente a teoria de que um currículo educativo focado fundamentalmente na matemática e na língua, desincentiva o pensamento crítico e a criatividade, transformando tais competências num processo cerebral meramente mecânico.
Não se trata de desmerecer ou desvalorizar a matemática e a língua, como é evidente, trata-se sim de dar a devida atenção a outras áreas do conhecimento.
No mundo há duas categorias de pessoas, aquelas que dividem o mundo em duas categorias, e aquelas que não. Nós pertencemos ao primeiro grupo, razão pela qual, vamos dividir a escola em duas categorias distintas.
Em boa verdade, pensamos o mesmo que Sir Ken Robison, ou seja, que há duas formas de conceber um currículo escolar, uma baseada no Pensamento Convergente, e a outra baseada no Pensamento Divergente.
Um modelo curricular que incentiva o Pensamento Convergente, tem sempre uma resposta "certa", sendo as erradas devidamente assinaladas ou mesmo punidas. Por outro lado, um currículo escolar baseado no Pensamento Divergente, estimula a exploração de múltiplas e variadas respostas e soluções, para uma mesma questão.
Numa sala de aula, um professor apresenta informações sobre os planetas do sistema solar. Os alunos são convidados pelo professor a escolher um planeta e a estudarem as suas características específicas, mais tarde, partilham oralmente com os seus colegas o resultado das suas pesquisas. Esta é uma actividade típica dos currículos tradicionais, ou seja, os que se focam no Pensamento Convergente.
Em tal situação, os alunos têm apenas de rever a matéria apresentada pelo professor, pesquisar em livros ou na internet informações já conhecidas, e juntar tudo isso numa apresentação oral. Eventualmente, esse pode até ser um momento interessante, mas crítico e criativo não o é certamente.
Numa outra sala de aula, um outro professor solicita aos alunos que pesquisem as características específicas de cada um dos planetas do sistema solar, e logo em seguida propõe-lhes uma situação baseada no modelo de Pensamento Divergente.
Na referida situação, os alunos terão de imaginar e desenhar um planeta, e atribuírem-lhe características específicas como a superfície, a gravidade, a atmosfera e outras mais. Depois, o professor convida os alunos a criarem seres vivos para esse planeta, ou seja, uma espécie de extra-terrestres. Convém que imaginem também qual a sua aparência.
Por fim, os alunos terão de pensar quais os tipos de protecção que seriam necessários, para que um astronauta humano pudesse sobreviver nos planetas que antes imaginaram.
Na primeira situação, a baseada no Pensamento Convergente, os alunos aprendem factos e certezas sobre os planetas do sistema solar. Na segunda situação, a baseada no Pensamento Divergente, os alunos aprendem os mesmos factos e certezas, no entanto, usam posteriormente o que aprenderam de um modo crítico e criativo. É essa a diferença entre os dois modelos curriculares.
No modelo escolar assente no Pensamento Convergente, e por nele haver tão-somente factos e respostas “certas”, cresce nos alunos o receio pelo erro. Por consequência disso, os alunos vão ao longo do tempo abdicando da sua capacidade de imaginar e improvisar, de modo a não arriscarem errar e desse modo poderem desapontarem o seu professor ou de terem más notas nos testes. Pelo medo do erro, vão assim a pouco e pouco, reprimindo em si mesmos o seu potencial crítico e criativo.
No jornal brasileiro “Gazeta do Povo”, saiu há tempos um artigo intitulado “Empresas estão atrás de profissionais com esta qualidade. Será que você tem?”
A qualidade em questão é a capacidade de se ter um Pensamento Divergente, e por conseguinte, de se ser criativo. Em determinada passagem do dito artigo, a professora Deise Hofmeister, coordenadora de Gestão de Recursos Humanos da Universidade Positivo (UP), diz-nos que algumas pessoas têm, desde a infância, uma maior tendência para ser criativas do que outras. “São aquelas que se destacam nas brincadeiras, criam soluções engraçadas, têm aptidão para jogos de estratégia ou se dão bem com arte, por exemplo”.
Um recente relatório da OCDE, concluiu que características como a curiosidade, a persistência, a cooperação, a tolerância, a sociabilidade, o autocontrole e a criatividade, eram muito menores em adolescentes do que em crianças de pouca idade.
A pesquisa foi realizada em dez cidades: Bogotá e Manizales (Colômbia), Daegu (Coreia do Sul), Helsínquia (Finlândia), Houston (EUA), Istambul (Turquia), Moscovo (Rússia), Otava (Canadá), Sintra (Portugal) e Suzhou (China).
Segundo afirmou o director de educação da OCDE, Andreas Schleicher, “Essa queda fica muito evidente quanto se trata da criatividade. Pode ser que os adolescentes estejam mais inseguros e constrangidos do que as crianças, mas pode ser também que nossos sistemas educacionais não estejam a incentivar a criatividade”.
Andreas Schleicher salientou ainda o valor que as competências emocionais, críticas e criativas têm para o mercado profissional do futuro e para a plena cidadania: "Sabemos o quanto a curiosidade e a criatividade são importantes no mundo em que vivemos. A capacidade de criar é o que nos vai diferenciar da Inteligência Artificial e dos computadores."
Semir Zeki é um conceituado neurocientista britânico, que em 1999 fundou um novo campo científico interdisciplinar, no qual se combina neurociência, psicologia e estética. O objectivo é estudar e investigar como reage o cérebro humano à arte.
Semir Zeki estudou como diferentes áreas cerebrais se activam, diante de pinturas, esculturas, rostos, cores e formas, concluindo que a arte é o melhor método do cérebro se autocompreender.
A análise científica do cérebro revelou que quando contemplamos uma obra de arte, são imediatamente activados uma ampla gama de circuitos neuronais, que trabalham conjuntamente para produzir uma experiência cognitiva extraordinariamente rica, que se pode sintetizar nos quatro pontos seguintes:
- As experiências estéticas geram emoções intensas, que fortalecem a memória. Quando associamos um conteúdo de aprendizagem a uma experiência estética, o cérebro cria conexões fortes e duradouras, facilitando a consolidação das informações apreendidas.
- As experiências estéticas estimulam a criatividade e a imaginação. Ao expormos-nos a diferentes formas de arte, desenvolvemos novas e originais maneiras de pensar.
- A beleza e a emoção provocadas pelas experiências estéticas, aumentam a motivação e o envolvimento daqueles que participam num processo de aprendizagem. Quando algo é interessante e/ou atraente, é bastante mais provável que lhe dediquemos tempo e esforço.
- A observação de obras de arte exige pensamento crítico e profundas reflexões. Ao interpretar e avaliar obras de arte, desenvolvemos competências analíticas e de síntese. As experiências estéticas contribuem para ampliar os nossos horizontes, enriquecem a nossa vida interior e fomentam o desenvolvimento da empatia.
Em conclusão, o que a neuroestética nos oferece, é uma nova perspectiva sobre a aprendizagem, pois ao entendermos como o nosso cérebro processa a arte, podemos criar currículos e experiências de aprendizagem mais eficazes e enriquecedoras.
Quando contemplamos obras de arte, desenvolvemos a criatividade, o pensamento crítico e a capacidade de resolução de problemas, e, ainda mais importante, as nossas mentes permanecem abertas e adaptáveis a mudanças e às múltiplas e não raras vezes surpreendentes transformações, presentes na vida contemporânea.
Sir Ken Robison constatou que a maioria das escolas seguem a mesma hierarquia curricular, seja qual for o país ou a região do mundo. No topo, entre as principais disciplinas, a matemática e as línguas, logo seguidas pelas disciplinas de humanidades, e por fim, as artes.
No mundo inteiro, não existiram verdadeiramente sistemas de educação, antes do século XIX. Todos os sistemas de educação foram criados na época industrial, por consequência disso, o seu principal intuito era educar as populações conforme as necessidades das fábricas e do comércio.
A hierarquia escolar baseia-se na ideia de que as disciplinas mais úteis para se exercer uma profissão de topo no sistema industrial, estão no alto da hierarquia. Já as disciplinas que não tinham utilidade directa para as fábricas e para o comércio, foram relegadas para o fim da hierarquia curricular.
O modelo educativo dito tradicional, segundo Ken Robinson, é um sistema "fast-food", que prepara alunos para uma era industrial que já não existe, ao invés de os preparar para um mundo no qual a inovação e a criatividade são competências essenciais.
O mundo de hoje, e ainda menos o do futuro, não se rege pelas regras da época industrial, sendo que agora e no porvir, o pensamento crítico e a criatividade são competências tão importantes como saber ler, escrever e contar.
Quer a neuroestética, quer as investigações realizadas pela OCDE no âmbito da educação, demonstram que a arte não é apenas um passatempo, mas sim uma ferramenta essencial para a aprendizagem.
Se a escola quiser afastar-se do modelo em que domina o Pensamento Convergente, a resposta "certa", e a punição do erro, e em vez disso aproximar-se do modelo Pensamento Divergente, em que se estimula a exploração de múltiplas soluções, a capacidade crítica e a criatividade, o que tem a fazer é simples: deixar que a arte entre por ela adentro, que se espalhe pelos currículos.
A arte a entrar pela escola adentro é incorporar elementos estéticos no processo de aprendizagem para o tornar mais envolvente e motivador. A arte a entrar pela escola adentro é criar conteúdos de aprendizagem atraentes. A arte a entrar pela escola adentro é usar narrativas e metáforas visuais e poéticas para facilitar a compreensão e a memorização dos mais complexos conceitos. A arte a entrar pela escola adentro é explorar novas formas de expressão e permitir que os cérebros se enriqueçam e maravilhem com o que veem e aprendem.








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