Há quem tenha dificuldades imensas, em escrever ou falar sobre os mais
variados e diversos assuntos, assim de improviso. Não é esse o nosso caso, pois
aparentemente, conseguimos dissertar facilmente sobre tudo e mais alguma coisa,
e até mesmo sobre nada.
Tal não quer dizer, que digamos alguma coisa de jeito, pois isto significa
tão simplesmente, que não temos dificuldades em abrirmos a boca, ou começarmos
a escrever, e, sem pensarmos muito nisso, lá vai disto, toca a dissertar.
Como neste blog já temos dissertado sobre muitos assuntos, hoje, para
equilibrar as coisas, e ninguém ficar prejudicado, vamos falar-vos sobre nada, que
é assunto acerca do qual, pouco ou nada temos escrito.
Dito isto, escrevamos hoje então, um texto acerca de nada. Não um texto
acerca do Nada, com letra maiúscula e tudo, mas sim e simplesmente, um escrito
sobre nada.
Não é fácil escrever sobre nada, uma vez que
habitualmente, ao escrevermos, o fazemos sempre, sobre alguma coisa. Temos
portanto falta de hábito. No entanto, e mesmo assim, vamos tentar ser rigorosos
e disciplinados, para que consigamos continuar a escrever este texto, sem termos
um tema ou assunto definido.
Quem nos lê, pode estar neste momento a cogitar de si
para consigo, que afinal estamos já a escrever um texto sobre algo,
nomeadamente, em como se escrever um texto acerca de nada. Mas quem assim pensa,
equivoca-se grandemente, pois na verdade, nós não estamos a escrever sobre
isso. Nem sobre isso, nem sobre outra coisa qualquer.
Poderíamos muito bem
escrever, um texto sobre um assunto banal e comum, como por exemplo, sobre o
tempo que faz, o campeonato nacional de futebol, o trânsito intenso, as compras
de Natal ou as últimas novidades políticas, mas não, escolhemos não escrever
sobre nada disso.
Repare-se que já vamos nuns quantos parágrafos, e
ainda não escrevemos uma única frase, que se refira a coisa alguma. Ou não?
Será que porventura inadvertidamente, já nos referimos
a algo? Relemos este nosso presente texto, desde o seu início, e concluímos que
até este momento, não dissemos mesmo nada, sobre coisa alguma.
Ocorre-nos agora a ideia de dizer alguma coisa, só
para desanuviar, para vermos o que acontece.
Porém, resistimos a tal ideia, pois percebemos que estávamos quase a cair
na tentação de escrever sobre alguma coisa, no entanto, mesmo no derradeiro
momento, recuámos e voltámos a nada dizer.
Abaixo a imagem de uma obra de 2007, de Martin Creed. A obra estava num
local, no qual ao se entrar no espaço expositivo, constatava-se que afinal,
nada lá estava exposto. Enfim, era uma obra conceptual.
A propósito de tudo isto, ou seja, de nada, levanta-se-nos agora uma
curiosa questão, será que é possível, dizermos literalmente nada múltiplas
vezes?
Aparentemente sim. Façamos essa experiência: nada,
nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada,
nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada, nada,
nada, nada, nada…
Pelos vistos é fácil dizermos literalmente nada
inúmeras vezes. Às tantas, é até mais fácil dizermos nada continuamente, do que
dizermos alguma coisa.
Por acaso, é capaz de
não ser bem assim, pois quando queremos dizer alguma coisa, não nos custa nada,
e o estarmos para aqui há já um bom bocado, a tentarmos não dizer nada, não é
coisa que seja tão fácil, quanto à primeira vista possa parecer.
Pensemos assim, e se dissermos alguma coisa só para
experimentar, uma dessas que nada nos custam dizer. Em resumo, e se fizéssemos
conversa fiada?
Cá está, lá estamos nós novamente, diante da tentação
de dizermos algo, nem que seja no contexto de conversa fiada. Mas, e mais uma
vez, vamos resistir com força, coragem e determinação, a dizer seja lá o que
for. Consequentemente, continuemos a nada dizer.
A propósito de inadvertidamente quase termos dito
qualquer coisa, veio-nos agora à memória um poema de Mário de Sá Carneiro.
Nele, no poema, o poeta fala-nos da sensação de quase
se ser qualquer coisa, mas ficarmo-nos sempre pelo quase, e nunca na realidade,
se chegar verdadeiramente a ser nada.
Como é evidente, não vos vamos falar sobre o dito
poema, pois o nosso objectivo é falar sobre nada, ainda assim, ele aqui
fica:
Um pouco
mais de sol – eu era brasa,
Um pouco
mais de azul – eu era além.
Para
atingir, faltou-me um golpe d’asa…
Se ao menos
eu permanecesse aquém…
Assombro ou
paz? Em vão… Tudo esvaído
Num baixo
mar enganador de espuma;
E o grande
sonho despertado em bruma,
O grande
sonho – ó dor! – quási vivido…
Quási o
amor, quási o triunfo e a chama,
Quási o
princípio e o fim – quási a expansão…
Mas na
minh’alma tudo se derrama…
Entanto nada
foi só ilusão!
De tudo
houve um começo… e tudo errou…
– Ai a dor
de ser-quási, dor sem fim… –
Eu falhei-me
entre os mais, falhei em mim,
Asa que se
elançou mas não voou…
Momentos
d’alma que desbaratei…
Templos
aonde nunca pus um altar…
Rios que
perdi sem os levar ao mar…
Ânsias que
foram mas que não fixei…
Se me
vagueio, encontro só indícios…
Ogivas para
o sol – vejo-as cerradas;
E mãos de
herói, sem fé, acobardadas,
Puseram
grades sobre os precipícios…
Num ímpeto
difuso de quebranto,
Tudo encetei
e nada possuí…
Hoje, de
mim, só resta o desencanto
Das coisas
que beijei mas não vivi…
Um pouco
mais de sol – e fôra brasa,
Um pouco
mais de azul – e fôra além.
Para atingir,
faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos
eu permanecesse aquém…
Reparem bem, que há muito quem fale sobre
nada, mas falando sempre sobre alguma coisa. É esse o caso, de quando nos falam
se faz chuva ou faz sol, da carestia de vida, ou de mexericos e demais coisas
banais.
Tudo coisas que só servem para fazer conversa
e que, por consequência disso, não nos servem para nada. Não nos servem a nós,
uma vez que hoje estamos aqui para falarmos sobre nada, e, por tal razão, não queremos
mesmo falar sobre coisa alguma.
Posto isto, e se agora fossemos a Zurique? Calma
que não vos vamos falar sobre essa cidade suíça, pois caso o fizéssemos, já
estaríamos a falar sobre alguma coisa, o que não pode ser.
Zurique só vem a esta conversa, porque nessa localidade existe uma instituição cultural que se chama No Show Museum.
O No Show Museum é uma instituição muito
original, pois todas as suas exposições são acerca de nada.
Se porventura fossemos Zurique ao No Show
Museum, iríamos descobrir que cada uma das suas muitas salas, é dedicada às
múltiplas dimensões do nada.
Vejamos quais elas são:
- O nada
como Recusa: A Arte de Não Fazer Nada
- O nada
como Aniquilação: A Arte da Destruição
- O nada
como Vazio: A Arte da Ausência
- O nada
como Invisibilidade: A Arte do Imperceptível, do Invisível e do Oculto
- O nada
como a Redução: A Arte do Minimalismo
- O nada
como Lacuna: A Arte da Omissão
- O nada
como Declaração: A Arte de Não Dizer Nada
- O nada
como Noção: A Arte da Pura Imaginação
Bom, nós não estamos aqui, ao dia de hoje, para
vos falarmos do No Show Museum, uma vez que, e como já amplamente anunciámos,
estamos absolutamente determinados, a sobre nada falar.
Sendo esse o contexto, quem quiser ver que
coisas há ou não há, no No Show Museum, o que tem a fazer é visitar o seu site
ou então ir até à Suíça, e mais concretamente, a Zurique:
https://www.noshowmuseum.com/en
Talvez fosse mais simples continuarmos a falar
sobre nada, se tivéssemos uma qualquer musiquinha a acompanhar-nos.
Já temos verificado que em cafés, bares ou
restaurantes, muitas vezes as pessoas estão juntas à mesma mesa, mas nada têm
que dizer uns aos outros. Em tais circunstâncias, quando nada há para se dizer,
não raras vezes, cria-se um silêncio desconfortável, todavia, se porventura houver
música ambiente, esse silêncio torna-se imediatamente mais cómodo e suportável.
Assim sendo, a música que escolhemos para nos
acompanhar e criar ambiente para toda esta conversa, é 4′33, uma obra-prima composta pelo músico norte-americano, de seu
nome John Gage (1912–1992).
A dita peça musical, que levou cinco anos a compor,
dura quatro minutos e trinta três segundos, ao longo dos quais, não se ouve
absolutamente nada. Em síntese, é uma obra musical composta só pelo silêncio.
Aqui vos deixamos uma interpretação de 4′33, pela magnífica e imensa orquestra filarmónica de Berlim, neste caso em específico, dirigida pelo prestigiado maestro Kirill Petrenko:
Aqui chegados, cremos que já falámos muito
acerca de nada, e por assim ser, mais vale ficarmos por aqui, pois acerca deste
assunto, nada mais temos a dizer.






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