Há sítios cuja fama é pouca ou quase
nenhuma, é esse o caso de Turim, cidade do norte de Itália, situada mesmo junto
aos altos Alpes.
Uma vez em Itália, todos dizem adorar
Roma, de Veneza e Florença diz-se que são lindíssimas, é dito que Milão é
sofisticada e está sempre na moda, e que Nápoles é pitoresca e popular,
contudo, acerca de Turim, ninguém diz nada. Todavia, nós estamos aqui para
corrigir essa tremenda injustiça.
Foi na bela, complexa e aristocrática
cidade de Turim, que um dia Friedrich Nietzsche se agarrou ao pescoço de um
cavalo e se pôs a chorar.
Ao que se sabe, Nietzsche terá
assistido ao cavalo a ser espancado pelo seu cocheiro, e foi tal situação, que
provocou em si tão emotiva reacção.
O facto é que a partir desse instante,
Nietzsche nunca mais foi o mesmo, tendo levado o resto dos seus onze anos de
existência, completamente embrenhado em graves problemas do foro mental.
Milan Kundera, no seu famoso romance “A Insustentável Leveza do Ser”, numa
passagem desse seu livro, referiu o dito episódio de Turim: ”Tenho sempre diante dos olhos Tereza
sentada num tronco, acariciando a cabeça de Karienin e pensando na falência da
humanidade. Ao mesmo tempo, surge-me uma outra imagem: Nietzsche saindo de um
hotel em Turim. Vê diante de si um cavalo e um cocheiro dando-lhe chicotadas.
Nietzsche aproxima-se do cavalo, abraça-lhe o pescoço sob o olhar do cocheiro e
explode em soluços.
Isso aconteceu em 1889 e Nietzsche já estava, também ele, distanciado dos homens. Em outras palavras: foi precisamente nesse momento que se declarou a sua doença mental. Mas, para mim, é justamente isso que confere ao gesto o seu profundo sentido. Nietzsche veio pedir ao cavalo perdão por Descartes. Sua loucura (portanto, o seu divórcio com a humanidade) começa no instante em que chora pelo cavalo.
É esse Nietzsche que amo, da mesma maneira que amo Tereza, acariciando em
seus joelhos a cabeça de uma cadela mortalmente doente. Vejo-os lado a lado: os
dois afastam-se do caminho em que a humanidade, proprietária e senhora da
natureza, prossegue a sua marcha adiante.”
Quem também andou uns tempos por
Turim, foi o pintor Giorgio de Chirico (1888–1978) havendo inclusivamente uma
sua obra que se intitula “A Primavera de
Turim”.
Na pintura de Giorgio de Chirico é
frequente aparecerem arcadas, não sendo a isso certamente estranho, o facto de
Turim ser uma cidade com imensas arcadas.
O centro de Turim tem dezoito
quilómetros de arcadas, sendo essa a cidade com a maior área pedonal coberta da
Europa.
Terá sido o Rei Vittorio Emanuele I
de Sabóia, o primeiro a ordenar a construção de arcadas em Turim. Estas iam
desde o Palácio Real até à Piazza Vittorio Veneto, para que o rei se pudesse
deslocar pela cidade sem se molhar, mesmo em dias de chuva.
Hoje, as arcadas de Turim estão
pavimentadas com estilos diferentes, desde a pedra cinzenta da Via Po ao
mármore da Via Roma, sendo portanto este um projecto urbano, arquitectónico e
estético de beleza única.
Mark Twain (1835-1910), o autor dos
clássicos norte-americanos "As Aventuras de Tom Sayer" e "As
Aventuras de Huckleberry Finn", também andou por Turim e rapidamente se
deixou fascinar pelo encanto da cidade, especialmente pela então nova Galleria
Subalpina (imagem mais abaixo), cujo tecto de ferro e vidro o levou a dizer o
seguinte:
"Esta é uma cidade muito bonita, cuja amplitude transcende tudo o
que alguma vez foi sonhado antes. As ruas são extraordinariamente largas, as
praças pavimentadas são prodigiosas, com os passeios tão extensos quanto as ruas
europeias comuns. Caminha-se de uma ponta à outra sempre protegido, e todo o
percurso é ladeado pelas lojas mais bonitas, pelos restaurantes mais
convidativos e por lojas irresistivelmente tentadoras, um espectáculo digno de
ser visto."
O grande poeta italiano Cesare Pavese
(1908—1950) nasceu numa pequena localidade pertos dos Alpes, no entanto, viveu
toda a sua vida adulta, naquela que passou a ser a sua cidade, Turim.
Turim tornou-se a sua cidade, mas
isso não significa que ele não a tenha sempre sentido como uma estranha. Aos 21
anos de idade, Cesare Pavese agrupou num livro uma série de poemas a que deu o título
“Blues della grande città”, e logo aí
pressentimos como carregava o peso da cidade sobre os seus ombros de homem
inadaptado e solitário:
Esta cidade venceu-me, como um mar.
Não é mais o céu aquele
longínquo vazio
que aparece por entre as casas,
existe o peso da pedra que sobressai.
As ruas negras plenas de fragor,
nas quais a multidão é uma força que submerge,
que se abre como abismos.
Jamais compreenderei
Questa città mi ha vinto, come un mare.
Non è piú il cielo
quel vuoto lontano
che appare tra le case,
ma il peso della pietra che strapiomba.
Le strade nere o piene di fragore,
dove la folla è forza che sommerge,
si aprono come abissi.
Io mai comprenderò
Num outro poema de “Blues
della grande città” voltamos a sentir a fadiga emocional do poeta diante
de uma Turim imponente, fria e cinzenta:
Todo o céu é de fumo
grave como o fumo-névoa de novembro
sobre a grande cidade.
Mas não foi apenas novembro
que desceu sobre o mundo.
Nos rígidos vales das avenidas
as árvores negras e castanhas
arrumam-se por entre cabos e fumo.
Não têm a linfa das árvores,
o seu antigo viver
contraiu-se e desapareceu.
Na penumbra da grande tarde
erguem-se nas ruas
vivos de outra vida.
Iluminam entre os ramos endurecidos
flores enormes e espectrais,
as frias flores eléctricas
que florescem sobre o mundo.
As altas casas flanqueadas
encontram-se imóveis,
também elas com grandes olhos alucinados
Tutto il cielo è di
fumo
grave del fumo-nebbia
di novembre
sulla grande città.
Ma non solo novembre
è disceso sul mondo.
Nelle vallate rigide
dei viali
gli alberi neri e
bruni
s´arruginiscono tra i
fili e il fumo.
Non han piú linfe gli alberi,
il loro antico palpito
sʼè contratto e
scomparso.
Nella penombra della
grande sera
si ergono per le vie
vivi di unʼaltra vita.
E accendono tra i rami
irrigiditi
fiori enormi e
spettrali,
i freddi fiori
elettrici
che sbocciano sul
mondo.
Le alte case
affiancate
li riscontrano
immobili,
anchʼesse coi grandi
occhi allucinati.
E pronto, hoje ficamos por aqui, mas prometemos dedicar pelo menos mais um texto a Turim. Se Roma, Veneza, Nápoles, Florença e Milão são assunto para muitos poemas, romances e reflexões, por qual razão Turim não o há de ser…







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