Por causa do José Cid,
nós por cá, pelo nosso Portugal, sabíamos que em Nova Iorque o Inverno era
frio, e mais o seria ainda, na decadente e cinzenta década de 70 dessa cidade.
Corria o ano de 1976,
quando os Blondie entraram num estúdio de Manhattan, no caso, o Plaza Sound, para
aí gravarem o seu primeiro álbum, isto após já terem gravado uns quantos
singles. Desde então, e até ao dia de hoje, passaram-se umas singelas cinco
décadas.
Em 76, os Blondie
ainda não se ouviam por cá, pelo nosso Portugal, mas dois anos depois, em 78,
sim. Nós sabíamos que no Inverno fazia frio em Nova Iorque, e foi por isso um
tanto ou quanto estranho, observarmos uma serigaita já crescidita, envergando
somente como vestimenta um curto maillot, e para mais, a cantar de forma quente
e sorridente: “Oh Denis, ooh-be-do, I'm
in love with you, Denis, ooh-be-do, I'm in love with you…”
É certo que a moça
trazia também vestido por cima de si um casaquito, mas ainda assim, era por
demais evidente, que não estava lá muito bem agasalhada.
A rapariga de quem vos
falamos, dava pelo nome de Debbie Harry. Era a vocalista dos Blondie, sendo que
logo nesse primeiro momento em que a vimos, ficámos definitivamente a saber,
que ela não era gaiata para se deixar ir abaixo quer por friagens, quer por
inclementes correntes de ar.
A primeira canção que
à época ouvimos dos Blondie, chamava-se “Denis”
e rezava assim:
Denis, Denis, oh with your
eyes so blue
Denis, Denis, I've got a crush
on you
Denis, Denis, I'm so in love
with you
Oh, when we walk, it always
feels so nice
And when we talk, it seems
like paradise
Denis, Denis, I'm so in love
with you
Nesse distante tempo,
em que nem tão-pouco adolescentes ainda seríamos, frases simples e cândidas
como “I've got a crush on you” e “when we talk, it seems like paradise”,
eram bem mais do que suficientes para nos acender no peito imensas chamas
líricas, pois éramos à época, seres angelicais, puros e inocentes.
Todavia, a maior
surpresa veio logo depois, ou seja, sensivelmente a meio dessa canção, que se
intitulava “Denis”.
Nós sabíamos, que por
Nova Iorque fazia frio, e o mais que por lá se falava era inglês, mas não é então
que a moça dos Blondie, ao fim de mais ou menos um minuto e meio a cantar, se
põe subitamente a fazê-lo em francês: “Denis,
Denis, Je suis folle de toi, Denis, Denis, Embrasse moi ce soir…”
Tal era coisa nunca
vista, nem por cá, pelo nosso Portugal, nem por lá, pela fria Nova Iorque.
Cantar em francês, era algo que se fazia na doce, quente e elegante Paris, mas
nunca nas sujas, selvagens e cruéis “mean streets” de Manhattan.
Em síntese, a partir
desse instante, ficámos a saber que os Blondie eram não tão só uma banda New
Wave do Punk-Rock norte-americano, mas que possuíam igualmente um certo “je ne sais quoi”, e que, lá no fundo,
eram assim mais do tipo “classy” e não
tanto do género punk.
Aqui fica o tema
completo, com a Debbie a cantar “Denis,
ooh-be-do”:
Passado um breve
período de tempo, já tudo tinha deixado de ser tão simples e inocente, como o
era antes em “Denis”. Com efeito,
irrompeu então pelas ondas hertzianas das rádios, o tema “Heart of Glass”.
Nessa canção, os
Blondie descrevem um amor, que de início era excelente (once I had a love and it was a gas), mas que rapidamente se veio a
revelar imensamente frágil e inconsistente (soon
turned out had heart of glass).
Em boa verdade, tal é
algo bastante vulgar, tanto à época como agora. Quando a realidade concreta de
um relacionamento se vai encaminhando numa direcção oposta à do entusiasmo
inicial, o mais natural é que o afectuoso gás amoroso se vá volatilizando, até
dele só restar um quase imperceptível aroma gasoso.
E assim, acompanhados por
de “Heart of Glass”, nós cá, pelo
nosso Portugal, entrávamos directamente na adolescência e na década de 80.
Íamos com a plena consciência,
ensinados por “Heart of Glass”, de que
nada jamais seria tão imediato, simples, espontâneo e puro, como antes o tinha
sido com “Denis, Denis, I've got a crush
on you”.
Agora já não importava
se em Nova Iorque faria ou não frio, o que nessa hora então sabíamos, era que tanto
por lá, como por cá, pelo nosso Portugal, haveria sempre a possibilidade de
existirem confusões, dúvidas e arrelias.
Era isso que nos transmitia a canção “Heart
of Glass”, a saber, “love is so confusing,
there's no peace of mind”.
Para além disso, sabíamos
também, que algo poderia começar muito bem, mas que tal não excluía a
possibilidade desse mesmo algo vir a acabar muito mal.
Em resumo, a conclusão
que na verdade retirámos de “Heart of
Glass”, foi a de que, seja lá como for, existe sempre a hipótese de uma benquerença
se metamorfosear numa enorme maçada (once
I had a love and it was a gas, soon turned out to be a pain in the ass).
De Nova Iorque, o que
nos vinha portanto, era a mensagem dessa melodia, “Heart of Glass”, toda ela envolta numa vaga melancolia, na qual
havia palavras que nos alertavam para os estragos que o tempo faz, e para os
estilhaços de vidro que a sua passagem causa e traz.
A título didáctico,
informamos-vos que o tema “Heart of
Glass”, esteve nesses tempos envolvido numa daquelas grandes polémicas, que
o decorrer dos anos tende a apagar.
Com efeito, “Heart of Glass” tinha um certo tom Disco-Sound,
coisa que, para a comunidade Punk-Rock nova-iorquina, à qual os Blondie
pertenciam, era uma espécie de autêntica heresia.
O tempo passou e nunca mais ninguém quis saber de tais questiúnculas, no entanto, quem nos lê, nada perde em saber, que dessa, como de muitas outras grandes polémicas de outrora, o que delas resta agora é tão-somente ruínas e pó.
Aqui fica, “Heart of Glass”:
Quando mais tarde nos
chegou aos ouvidos “The Tide is High”,
percebemos logo que o assunto de que se falava já não era de vagas ondas de melancolia.
O tópico nesse momento
era de distinto cariz. Agora falava-se unicamente em esperar e aguentar, a
imprevisível e inconstante força do ir e vir da maresia: “The tide is high but I'm holdin' on”.
Apesar de poucos anos
terem passado, é um extenso caminho, o que vai do amor puro, inocente e simples
de “Denis”, ou seja, do tema em que
palavras como “I've got a crush on you”
e “when we talk, it seems like paradise”,
eram mais do que suficientes para acenderem lareiras nos peitos, para tudo o
que de apreensivo, imprevisível e triste se pressente na frase “The tide is high but I'm holdin' on”
A verdade é que quando
as marés vão altas e os ventos não estão de feição, sente-se sempre no ar uma forte
brisa de aflição e tristeza.
Em tais ocasiões, o
mais que há a fazer, é esperar e aguentar, isto na apreensiva expectativa, de
que melhores horas hão-de vir.
“The Tide is High” usa a maré alta como uma
metáfora para obstáculos ou avassaladoras disputas de amor, sendo que, a
protagonista da narrativa melódica, se mantém ao longo do caminho e da canção,
firme, hirta e determinada na sua espera, aguardando pacientemente o dia
longínquo em que por fim, se torne a número um do seu amado (I'm gonna be your number one).
Pelos vistos, a moça é
daquelas que jamais desiste ou perde a esperança. E é precisamente isso, o que ela diz: “I'm not the kinda girl who gives up just
like that, oh no”:
“Denis” era uma canção
inocente, simples e pura, já “Heart of
Glass” estava envolta numa certa melancolia, e por fim, “The Tide is High”, falava-nos sim de
determinação, expectativa e esperança. Posto isto, a seguir veio “Call Me”, que não nos falava de nada
disso.
Num primeiro momento,
os mais incautos e ingénuos, talvez pensassem que “Call Me” era uma sincera manifestação de disponibilidade, e na
verdade era isso mesmo o que as palavras da canção diziam, só que, no caso, era
de uma disponibilidade paga.
O tema “Call Me" foi escrito para o filme “American Gigolo”, sendo a narração
realizada, a partir da perspectiva de um sofisticado acompanhante de senhoras.
“Call Me" é uma canção acerca
do ser-se uma ferramenta de prazer, e sobre o que significa oferecer-se sem
reservas, e sempre envolto numa elegante embalagem, e tudo isso, a troco de
umas quantas belas prendas, e de umas tantas generosas recompensas pecuniárias.
Em última análise, “Call Me” fala-nos de gente distante e
indiferente, que vive num mundo de glamour,
dinheiro e prazer, só que igualmente bastante gelado.
Nós por cá, pelo nosso
Portugal, sabíamos que em Nova Iorque fazia frio, talvez não soubéssemos, é que
na quente Califórnia, a “sunny” cidade
de Los Angeles também poderia ser gélida.
Aqui fica o início da
película “American Gigolo”,
protagonizada por o então jovem Richard Gere, e com “Call Me” como banda-sonora:
Em meados dos anos 80,
os Blondie desfazem-se, parecia o fim, todavia, a banda regressou em 1997, para
nos trazer um último tema de grande êxito, “Maria”.
À beira do ano 2000, o
ar do tempo nada tinha de inocente ou de melancólico, esses sentimentos eram
mais próprios dos anos 80, que neste entretanto, ficaram lá muito atrás.
A época agora era a do
advento da internet. Coisas simples e espontâneas pertenciam ao outrora, a hora
era a dos algoritmos, das complexas redes e do deslizar de imagens sem fim.
O século XXI
anunciou-se logo desde início como um tempo de insignificâncias, que causam
grande sensação e excitação por um instante, para nos dias seguintes serem
esquecidas e substituídas por outras frivolidades cujo destino é exactamente o
mesmo.
No fundo, o século XXI
é uma época em que nada importa grandemente, e em 1997, “Maria” antecipava o tempo que aí vinha: “She moves like she don't care, Smooth as silk, cool as air”.
Um tempo que quase se
diria ser feito de plástico, de tão artificial, postiço e comercial parece ser.
Também nesse contexto, “Maria” está
de acordo com a época actual: “She's like
a millionaire, Walkin' on imported air”.
"Maria" fala-nos de uma
mulher sedutora e inatingível que enlouquece os homens de desejo, e que
simboliza uma personagem idealizada, quase divina ("Regina, Ave Maria").
Maria inspira a luxúria,
comportamentos obsessivos e a loucura em quem a vê. Há quem anseie possuí-la,
mas ela permanece esquiva, alheia, uma figura de fantasia, tem nítidas
semelhanças com muitas das que se vêem na internet, e que são mais virtuais, do
que efectivamente reais.
No vídeo realizado
para "Maria" vemos uma
Debbie Harry rodeada por câmaras de vigilância e por aparatos tecnológicos, que
nos aparece por diante como uma mera imagem. Vemos também uma Nova Iorque
nocturna e fria.
E pronto, com tudo isto, e uma vez chegados a 2026, passaram-se cinco décadas desde que em 1976, os Blondie entraram num estúdio para gravarem o seu primeiro álbum.

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