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Gino, comunistas românticos, Mina, tiros no coração e um sabor a sal


“Il cielo in una stanza” é uma canção que foi composta pelo outrora jovem Gino Paoli em 1955, que obteve um imenso sucesso na voz de Mina. Nesse tempo ainda não havia videoclipes, todavia, o grande realizador italiano Valerio Zurlini dirigiu a cantora num programa de variedades para a Rai Uno, no qual ela interpreta precisamente esse tema.

“Quando sei qui con me, questa stanza non ha più pareti, ma alberi, alberi infiniti…” (Quando aqui estás comigo, esta sala não tem paredes, mas árvores, árvores infinitas…), é assim que começa “Il cielo in una stanza”

No programa da Rai Uno, reuniram-se três enormes talentos, a saber, o compositor musical Gino Paoli, a cantora Mina e o realizador cinematográfico Valerio Zurlini. Sendo tanto o talento, para nada seria necessário espampanantes cenários ou espectaculares jogos de luzes e efeitos especiais, bastava que à vista ficassem esses incontáveis “alberi, alberi infiniti…”

Aos dias de hoje, não há videoclipe que não tenha sensacionais adereços e incríveis danças acompanhadas por fabulosos movimentos de câmara, aqui tudo é muito mais simples, umas árvores despidas, lentos movimentos, uma luz ténue e as expressivas mãos da intérprete, que como replicam os despidos ramos das árvores. É o que chega para destacar a melodia e as palavras de Gino Paoli, a voz de Mina e a mestria visual de Valerio Zurlini. É ver:



Valerio Zurlini haveria de realizar um dos mais belos filmes de sempre, “A Rapariga da mala” com Claudia Cardinale. Na cena final dessa película, ouvimos “Il cielo in una stanza”, num momento todo ele pleno de melancolia.


 

Um outro cineasta que usou num seu filme o tema “Il cielo in una stanza” foi Martin Scorsese. Foi na película “Goodfellas” que o fez. Contudo, foi num anúncio publicitário por si realizado, que Martin Scorsese tirou o melhor partido dessa célebre canção.

Nesse anúncio, Nova Iorque está deserta. Talvez estejamos numa daquelas manhãs de domingo de Verão, em que a luz chega cedo, e a cidade que nunca dorme ainda esteja adormecida. Mas não, pois que logo de início vemos um relógio que nos diz que não estamos em pleno amanhecer, e depois vemos as ruas molhadas, o que nos faz desconfiar que não é Verão. Na verdade, o anúncio foi filmado durante a pandemia da corona vírus.

O que temos é Scarlett Johansson e Matthew McCanaughey a passear por Nova Iorque. Marcaram um encontro e ele chega atrasado, ela não se rala. Partem em direcção a um destino incerto. Irão visitar o Empire State Building, a Estátua da Liberdade ou um outro qualquer sítio famoso? Nada disso, vão simplesmente até às traseiras de um prédio, sobem as escadas de serviço, e lá do alto avistam a cidade.

“Io vedo il cielo sopra noi, che restiamo qui, abbandonati, come se non ci fosse più, niente, più niente al mondo” (Vejo o céu sobre nós, que aqui estamos abandonados, como se nada mais existisse no mundo), diz a letra da canção, mas o mesmo poderia dizer Scarlett Johansson, que durante a viagem de automóvel pelas ruas de Nova Iorque olha frequentemente para o alto. Pelos passeios, ninguém.



Um piso de parquet de uma longa galeria vazia, um músico solitário senta-se ao órgão e toca uma única música repetidamente, hora após hora, dia após dia.

Um grupo de nove músicos, homens e mulheres vestidos formalmente, revezam-se para tocar e cantar, durante uma hora cada, de modo a preencherem todo o espaço com a canção do compositor italiano Gino Paoli, “Il Cielo in Una Stanza”.

O sítio é o Museu Nacional do País de Gales, em Cardiff, e a obra é do artista islandês Ragnar Kjartansson. Quando viu no dito museu um órgão rococó de 1774, praticamente sem uso, Ragnar Kjartansson lembrou-se de uns versos de uma canção, estes: “Suona un'armonica, Mi sembra un organo, Che vibra per te e per me, Su nell'immensità del cielo., per te, per me, nel cielo” (Soa uma armónica, parece-me um órgão, que vibra para ti, para mim, lá na imensidão do céu).

Quando entramos no museu, ouvimos a música que enche a sala e se expande pela galeria ao lado, toda ela repleta de pinturas italianas dos séculos XVI a XVIII. Não há nada na sala além da luz, do organista e da música. Aqui fica um vídeo de meia hora em que podemos vislumbrar a obra de Ragnar Kjartansson, “Il Cielo in Una Stanza”:



Para além de “Il Cielo in Una Stanza”, houve muitas outras canções de Gino Paoli que serviram de banda-sonora para filmes, nesse contexto, cabe destacar “Ricordati”, que Bernardo Bertolucci usou no seu filme “Antes da revolução”.

A narrativa conta-nos a história de Fabrizio, um jovem estudante de Parma que pertence a uma família burguesa, mas que é profundo crente no marxismo. Para além disso, Fabrizio está apaixonadíssimo por Gina, que é ligeiramente mais velha. No fundo, o que temos é um comunista romântico. Eram outros os tempos, havia sentimentos mais intensos.

Na cena abaixo podemos ver o encontro de Fabrizio e Gina numa praça de Parma. Deambulam pelas ruas e por entre as gentes, ao som da melodia composta por Gino Paoli, “Ricordati”:



Se o personagem Fabrizio era um comunista romântico, Gino Paoli era um músico e letrista dado a gestos ardentes, impulsivos e arrebatados.

 

A história de amor entre Gino Paoli e Ornella Vanoni é uma das mais emblemáticas e complexas da canção italiana. Uma ligação tão conturbada quanto fértil, capaz de transformar a paixão privada em música eterna.

O seu encontro remonta a 1960, a partir desse momento surge não só uma colaboração profissional, mas também uma relação sentimental. Paoli, já casado nessa altura, escreveu para Ornella alguns dos seus temas mais importantes, como por exemplo, "Senza fine".

Segundo Vanoni, a relação foi dolorosa e controversa: "Quando começou o amor com Gino Paoli, ele era casado e eu casei-me pouco depois”, no entanto, tudo se passou sem grandes escândalos.”

No entanto, meses depois de toda aquela intensidade parecer ter terminado, o músico disparou uma arma sobre si próprio, acertando em cheio no coração. Sobreviveu a esse disparo e nunca quis aclarar o motivo da sua tentativa de suicídio, ainda que tenha reconhecido que foi por amor.

Abaixo podemos ver Ornella Vanoni a interpretar "Senza fine", que tinha sido escrita para si:



Para terminarmos num tom mais festivo, aqui fica uma última canção de Gino Paoli, “Sapore di sale”, interpretada pelo próprio:


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