Em cada início de ano há planos e projectos, e 2026 não é certamente diferente do que o foram os anos anteriores. À entrada para o primeiro dia de Janeiro, muitos são os que traçam virtuosas estratégias e esquemas para concretizarem os seus objectivos e desejos, depois, com o correr do tempo, e muito naturalmente, nunca mais se lembram das suas racionais e firmes decisões de réveillon e seguem com a vida por diante.
Tudo isso está muito bem, pois quem de entre nós, já não tomou racionalmente uma firme decisão, que logo em seguida abandonou? É natural que muitas vezes assim seja, e ninguém tem de se sentir menos virtuoso ou melindrado com isso. Ou melhor, ninguém tinha!
É com grande perplexidade, que tomámos conhecimento que existem actualmente App’s que nos ajudam a concretizar e cumprir o que antes planeámos. Lemos na imprensa, que um leitor decidiu adiar a leitura de um livro que desejava ler há tempos por ser "muito grosso". Não adiou a leitura por falta de interesse, o problema era outro, ele temia que uma leitura tão longa o impedisse de alcançar sua meta de ler 45 livros por ano, um objectivo que havia estabelecido para si mesmo na aplicação Goodreads.
A princípio pensámos que fosse um caso isolado, mas ao lermos a continuação da notícia descobrimos que não. Uma outra leitora diz-nos o seguinte: “Comecei a usar a plataforma para anotar que livros tinha lido e para descobrir novas recomendações. Um dia inscrevi-me na Reading Challenge anual e tudo mudou. Deixei de escolher os livros que realmente me interessavam e lia livros mais curtos para cumprir o objectivo. Só lia novelas breves, bandas-desenhadas e poesia”.
No campo audiovisual, plataformas como Letterboxd ou Filmaffinity permitem que os seus utilizadores contabilizem os filmes que assistiram, a plataforma Habitica monitoriza os nossos hábitos e produtividade, a Moodpress a saúde mental e o humor, a Monefy os gastos, a FatSecret as calorias consumidas, a Sleep Cycle o sono e a TV Time as séries de televisão assistidas.
Algures numa entrevista, a Professora Maria Filomena Molder, conta uma história que se terá passado quando frequentava a universidade como aluna de filosofia. Um professor chamou uma aluna sua colega, que era muito inteligente, e perguntou-lhe: “Porque é que veio para esta disciplina?”, ao que ela disse “Foi para ter uma ideia mais exacta sobre a medida do homem”. A isso o professor respondeu que “Mais lhe valia ter comprado uma fita métrica.”
A questão que se impõe, é o porquê desta actual obsessão de tudo medir e contabilizar. Na verdade a resposta é óbvia, medir e contabilizar são formas de racionalizarmos e de controlarmos a vida, quer a dos outros, quer a nossa.
Como é evidente, medir e contabilizar são tarefas indispensáveis, tal como é igualmente necessário racionalizarmos e controlarmos o que vai sucedendo. O ponto é que quando tudo isso é levado ao extremo, tal deve-se unicamente ao medo.
Tudo querer racionalizar através do medir e contabilizar, tem origem na vontade de controlar, que por sua vez nasce do medo. Em resumo, quem tem medo, tudo mede e contabiliza.
Mas medo de quê, perguntar-se-á? Mais uma vez a resposta é simples, medo de ter medo. Todos teremos medo disto ou daquilo em concreto, mas o mais primordial e maior dos nossos medos, é o medo do medo.
O medo é uma força animal, e por isso mesmo indomável. Quando somos assaltados pelo medo, medir, contabilizar e racionalizar de pouco nos servirá, pois que nessas ocasiões há algo de animal que se instala em nós, ou seja, qualquer coisa de incontrolável.
Ao levarmos ao extremo o medir, o contabilizar e o racionalizar, como que estamos a afastar o bicho-papão, é uma forma de prevenção, uma espécie de cantilena onde se entoa “Ó medo vai-te embora, de cima do telhado, deixa-me dormir, um soninho descansado.”
O medo é uma força animal, e é precisamente da nossa animalidade que temos medo, do que nela há de indomável e incontrolável. Por medo de ter medo, por medo da nossa animalidade, vamos transformando o instinto em racionalidade, tudo querendo medir, contabilizar e controlar.
No entanto, quando a racionalidade se torna instinto, aí os homens serão levados à ruína. Quando a animalidade ficar oculta, irreconhecível e desfigurada pela absoluta racionalidade, a vida humana degenera e gangrena.
Tudo se vai passando, como se por atingirmos os objectivos mensuráveis e contabilizáveis a que nos propussémos, nos tornássemos por isso em seres mais virtuosos. Consegui ler 45 livros num ano, dei 3000 passos por dia, vi 35 filmes, gastei 1500 calorias…
Dito isto, o que há dizer, é que a fita métrica não é uma virtude, é só uma forma de abafarmos os nossos instintos, de fugirmos do nosso lado animal e de afastarmos o medo que dele temos.
Ao alto da Ajuda, em Lisboa, há um palácio real. No átrio exterior encontramos diversas esculturas, sendo que cada uma delas representa uma virtude. Aí vemos representações de virtudes como a Afabilidade, a Perseverança, a Clemência, a Intrepidez ou a Gratidão.
Abaixo a escultura que representa uma das virtudes, no caso, a Generosidade. Como se pode observar, a Generosidade não carrega consigo uma tabela em que estejam contabilizados o número de actos generosos praticados, tem sim ao seu lado um animal, ou seja, um leão.
O que isto nos diz, é que ser-se generoso não significa praticar um certo número de actos generosos, digamos vinte por ano, mas sim possuir-se em si esse instinto, que é uma força animal, no caso leonina. É esse instinto que nos leva a querer auxiliar outros, existam ou não existam quaisquer motivos racionais para o fazermos.
Nel mezzo del cammin di nostra vita
mi ritrovai per una selva oscura
ché la diritta via era smarrita.
Ahi quanto a dir qual era è cosa dura
esta selva selvaggia e aspra e forte
che nel pensier rinova la paura!
(No meio do caminho desta vida
vi-me numa selva escura,
onde me perdi da verdadeira via.
Ah, mas como é duro falar
desta selva selvagem, áspera e rude
que relembrá-la, traz-me de volta o pavor que lá senti)
É assim que se inicia a “Divina Comédia”, obra do poeta italiano Dante Alighieri.
O que o início desse livro nos diz, é que no meio do caminho da nossa vida, não raras vezes encontramos o medo de termos medo.
Em criança não temos medo, a não ser de coisas concretas reais ou irreais. A distinção entre o sonho e a realidade na infância não está dada. Para a criança é tudo real e simultaneamente irreal, e o medo tanto é concreto e verdadeiro, como uma fantasia ou um sonho, em síntese, existe mas não existe.
Em jovens não queremos ter medo. O jovem é destemido por natureza. O adulto está cheio de medo, pois no meio do caminho da vida vê-se numa selva escura e enche-se de pavor.
No meio do caminho desta vida, há animais ferozes que se movem dentro de nós. Numa escultura do átrio do Palácio da Ajuda, vemos uma outra virtude, o Decoro.
Como diz Santo Agostinho, o abismo existe em todos os corações. O abismo chama por muita coisa, mesmo nos corações bons. Em adultos tentamos manter o decoro, ser respeitáveis, trabalhadores e responsáveis, porém, sabemos que algo de animal se agita em nós.
Mesmo que tentemos sempre agir com decoro, ainda assim, quando em adultos, por entre os nossos ombros espreita sempre uma fera e pelo ventre crescem-nos garras.
Quando temos medo dessa fera que nos espreita pelos ombros e dessas garras que nos crescem no ventre, queremos fazer com que esse instinto animal se oculte e apague, por isso o transformamos em racionalidade e tudo queremos medir, contabilizar e controlar.
É ler os jornais, as revistas e as redes sociais, e consultar as App’s, por todo lado não só há abundantes fitas métricas, como há também virtuosos conselhos, dicas, sugestões e receitas para que consigamos atingir os nossos racionais objectivos.
Quando temos receitas e métodos para atingir as nossas metas, até parece que o medo se dissipa e que cessamos de sentir animais ferozes em nós. Só que não, a animalidade está sempre presente e manifesta-se porque algo nos dói, porque temos fome, porque matamos, porque temos sono, mastigamos, estremeçemos, engolimos, caímos, agarramos e gritamos.
Numa das salas do Palácio da Ajuda, podemos encontrar uma escultura onde se representa o mito de Leda e o cisne. Zeus, o olímpico deus dos deuses, é acometido por um incontrolável desejo animalesco de possuir Leda.
Sabendo-a recém-casada e fiel ao esposo, Zeus transformou-se num sedutor cisne. O longo pescoço e o bico movem-se com determinação e audácia, e Zeus avança veloz em direcção a Leda.
Quando Leda se apercebe do que se passa, já Zeus a ela está encostado, peito contra peito. De súbito, num rompente, ele penetra-a. Ela oferece-se, tomada de susto e emoção. Saciado, Zeus parte, deixando a lânguida Leda por terra abandonada.
O que este mito nos diz, é que até o olímpico Zeus e a casta Leda, podem ser assaltados pelos seus mais primordiais, indomados e ferozes instintos, o mesmo é dizer, a animalidade não anda longe até dos mais divinos, virtuosos e racionais seres.
Como é evidente, nós não estamos aqui a fazer uma apologia da violência e dos comportamentos animalescos, o que estamos sim a dizer, é que no interior de nós, seres humanos, há uma selva obscura na qual se agitam animais ferozes.
Estamos também a dizer que, quando por medo, tentamos eludir esse nosso instinto animal com uma extrema racionalidade que tudo mede e contabiliza, há uma dimensão essencial da experiência humana que é sufocada.
Posto isto, como lidarmos com o medo que nos causa o nosso lado animal, sem recorrermos a uma fita métrica? O filósofo Giorgio Colli diz que pomos uma máscara na violência e que o artista é aquele que tira a máscara. Diz ainda que mais vale um espelho que nos mostre a violência nua do que a máscara que converta a violência em objectivos mensuráveis.
Os artistas sabem ver na selva escura, sabem como tornar maravilhoso o que não se compreende. A inspiração artística não é nunca senão uma confiança heróica na nossa natureza animal. Na arte irrompe o inexpressivo, ou seja, aquilo que não sabemos dizer de forma racional, o que não se mede nem contabiliza, mas que é parte essencial de se ser humano.
“Berlin Zoo” é um vídeo cuja acção se passa na estação ferroviária com o mesmo nome, que fica mesmo junto ao zoológico da capital alemã. Diversos passageiros foram filmados pela câmera da artista Filipa César, enquanto entram gradualmente num estado de descrença e até mesmo de choque, ao olharem fixamente para os horários de chegadas e partidas e verificarem que os comboios estão muito atrasados ou foram mesmo suprimidos.
O vídeo desses rostos acompanhados por uma banda sonora em que escutamos o vento que passa e grasnidos de pássaros, é uma espécie de exercício de zoologia moderna.
O que “Berlin Zoo” nos dá a ver, é como a nossa animalidade está presente até nas mais vulgares situações quotidianas. Sim, há uma tabela de horários que nos indicam as horas de partida e chegada, o tempo de viagem está medido e contabilizado, só que depois, subitamente, irrompe por essa tabela adentro tudo aquilo que é incontrolável e indomável. Irrompe não só pela tabela, mas também pelos rostos dos que a observam, que fazem esgares e têm trejeitos quase animalescos.
Terminamos com um excerto de vídeo de Filipa César, “Berlin Zoo”, podem vê-lo no seguinte site:






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