Em Lisboa “todos sus moradores son agradables, son corteses, son liberales y son enamorados, porque son discretos. La ciudad es la mayor de Europa y la de mayores tratos; en ella se descargan las riquezas del Oriente, y desde ella se reparten por el universo…”
Quem assim escreveu acerca da capital de Portugal foi Miguel de Cervantes, o famoso autor de “D. Quixote de la Mancha”, que nessa cidade passou dois misteriosos e felizes anos.
Por lugares à beira Tejo, Cervantes conheceu amores e desamores. Entre a primavera de 1581 e a de 1583, com excepção de uma ou outra escapada a sítios próximos e nomeadamente a Tomar, a sua residência habitual foi em Lisboa.
Diz-se que viveu ali para os lados do Campo das Cebolas, bem perto da Casa dos Bicos. A Cervantes é também atribuído o dito, “Para galas Milán, para amores Lusitânia" (Para festas Milão, para amores Lusitânia).
Cinco séculos após o mais célebre e importante de todos os escritores espanhóis ter andado por Lisboa, nasce nessa mesma cidade o pintor Júlio Pomar. Aconteceu no dia 10 de Janeiro de 1926, fez há uns poucos dias precisamente cem anos.
Ao longo da sua longa carreira artística, Júlio Pomar pintou e desenhou inúmeras vezes a figura de D. Quixote, bem como a das restantes personagens que o acompanham nas suas venturas e desventuras de cavaleiro da triste figura, a saber: o rústico Sancho Pança, a bela Dulcineia e o garboso cavalo Rocinante.
Aqui vemos uma dessas obras de Júlio Pomar, com D. Quixote montado no seu cavalo e empunhando a sua lança, estará certamente a investir com fúria e ímpeto contra algum moinho de vento.
Transcrevamos agora um excerto de uma entrevista que Júlio de Pomar deu ao Jornal de Negócios no ido ano de 2013:
“Há várias figuras recorrentes na sua pintura. Uma delas é D. Quixote. Na exposição de abertura, vão ser mostradas gravuras com o personagem de Cervantes, e sente-se o ímpeto dos cavalos, o movimento, a fúria.
O D. Quixote foi um livro que li muito cedo. Tive a sorte de ter sido levado a trabalhá-lo várias vezes. A primeira vez que fiz ilustrações para ele foi para a versão portuguesa do Aquilino Ribeiro. As 20, 30 pequenas pinturas que ilustraram essa edição deram nascimento involuntário a pinturas de dimensões diferentes. A matéria era de tal maneira apaixonante que apetecia fazer mais coisas, não é? Independentemente da obrigação de fazer determinadas imagens. De Cervantes trabalharia também as Novelas Exemplares, anos mais tarde. É um autor de paixão. Como todos os grandes autores, não se esgota.
Nós, portugueses, globalmente, somos um pouco Sancho Pança? E estou a pensar na concretude, no prendimento à terra, sem grandes fantasias, que nos caracteriza.
Sim, sim. E com uma melancolia muito particular, que existe também no Sancho Pança. Toda a nossa História tem essa nota quase de acerto com a tragédia, de aceitação do fado.”
De facto, Júlio Pomar tem muita razão, pois nós os portugueses, somos pouco dados a fantasias ou a ideais quixotescos, somos mais assim a atirar para o resignado, tristonhos e acabrunhados, muito terra a terra, do tipo pão, pão, queijo, queijo, tal e qual como o é Sancho Pança.
Em 1946 Júlio Pomar pintou um quadro que ficaria para a história, “O Almoço do Trolha”. O quadro foi exibido pela primeira vez no ano seguinte na Sociedade Nacional de Belas Artes em Lisboa, precisamente numa altura em que o pintor tinha sido preso pela PIDE.
Segundo as autoridades de então, o artista com as suas pinturas dava uma muito ruim imagem das gentes de Portugal. Por alguma desconhecida razão, provavelmente por distração, a obra “O Almoço do Trolha” escapou à censura e foi mostrada ao público.
O quadro retrata a triste e rude vida da classe operária, e foca-se na pobreza e na miséria dos personagens. A luz é soturna, as cores escuras. Por tudo isto, num primeiro olhar a obra parece representar a resignação triste e acabrunhada de um certo modo de se ser português.
Num primeiro olhar vê-se o nosso triste fado, a aceitação acomodada da pobreza e da miséria, no entanto, num segundo olhar mais atento, vemos que a figura da criança se apresenta como um ponto de luz, que simboliza o futuro e a esperança.
Há também quem interprete a obra como uma recontextualização da Sagrada Família (José, Maria e Jesus), que sacraliza assim a figura do trabalhador fabril e da sua pobre família operária.
Seja como for, “O Almoço do Trolha” tem qualquer coisa de quixotesco, pois é uma ousada denúncia das terríveis condições de vida daquela época, e tem em si a firme crença que existirá um futuro melhor e mais feliz.
Como um dia escreveu Camões, figura também muito retratada por Júlio Pomar, a gente portuguesa é “surda e endurecida”, perde-se no “gosto da cobiça e na rudeza” e vive numa “austera, apagada e vil tristeza”. Recordemos os versos:
“Não mais, Musa, não mais, que a Lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
De uma austera, apagada e vil tristeza.”
Neste contexto, uma outra pintura icónica de Júlio Pomar é “O Gadanheiro”, obra de 1945, realizada pelo artista quando tinha apenas tenros 19 anos de idade.
Em “O Gadanheiro” não temos um operário mas sim um trabalhador rural, todavia, tal como em “O Almoço do Trolha”, num primeiro olhar o que vemos é a rudeza, a miséria, a resignação e a vil tristeza, contudo, num segundo olhar mais atento, percebemos que no personagem retratado há também ímpeto, movimento e fúria.
Em “O Gadanheiro” o ponto de vista do olhar situa-se bem próximo da gadanha, que é o motivo central da pintura. O corpo do trabalhador rural distende-se expressivamente para os extremos da tela. A mão e a perna são desproporcionais, e o movimento da gadanha como que parece querer rebentar com os limites do quadro.
No fundo, e mais uma vez, há algo de quixotesco nesta pintura, não só porque o trabalhador rural como que revela uma profunda revolta e aspira a uma vida melhor e mais feliz, mas também porque as formas pictóricas parecem querer ser mais de que meras figuras, parecem querer saltar para fora do quadro que as limita, as enquadra e as prende, e atravessar a fronteira que as separa da realidade.
Ímpeto, movimento e fúria, tudo o que Sancho Pança não tinha, tudo o que D. Quixote tinha, quando montado no seu cavalo Rocinante, se lançava contra os moinhos de vento, ou quando galante, corria pelos campos indo ao encontro da bela Dulcineia.
Digamos que ao longo de longas décadas, Júlio Pomar foi um antídoto feito de ímpeto, movimento e fúria lançado contra a apagada e vil tristeza portuguesa. Um exemplo disso mesmo é o tríptico de 1986 intitulado “O Veado (de Tróia), D. Fuas e uma Fumadora de Ópio”.
No painel central temos a lenda popular, segundo a qual, no lugar da Nazaré, num dia de forte nevoeiro, D. Fuas é atraído por um demónio em forma de um veado. D. Fuas cavalgando impetuosamente persegue-o até à beira de um alto penhasco. Quando está prestes a despenhar-se do precipício caindo desamparado em direcção ao mar, é salvo no derradeiro instante pela intercessão da Virgem que trava milagrosamente o cavalo.
No painel à esquerda temos um veado quase demoníaco, que assente sobre rodas, como o cavalo de Tróia da Ilíada, se lança num voo sem destino evidente.
No painel à direita, a Virgem que, na lenda, miraculosamente comanda as rédeas do veloz cavalo de D. Fuas, foi transformada numa fumadora de ópio que mergulhou de cabeça numa qualquer espécie de transe, num abismo onírico.
No quadro “O Veado (de Tróia), D. Fuas e uma Fumadora de Ópio” subverte o sentido das vários lendas e mitos presentes na pintura, as figuras pairam, rodopiam e movimentam-se num espaço sem sujeição à gravidade, fundindo furiosamente manchas e formas e também confundindo a hierarquia entre temas e planos.
Num dia de nevoeiro D. Fuas persegue um veado e é detido por um milagre de Nossa Senhora da Nazaré junto ao extremo do precipício de onde o veado se lança. O veado, de frente para o espectador, estando já em queda, tem atrás de si um plano de fundo nebuloso. À direita, a Virgem lança-se num devaneio opiáceo, caindo assim nas enevoadas brumas da imaginação. Em síntese, tudo impetuosamente se mistura e movimenta, de uma forma transgressora e furiosa, e ao mesmo tempo absurda, divertida e trágica.
Por assim ser, repetimos a ideia de que Júlio Pomar foi um antídoto contra a apagada e vil tristeza portuguesa, ou seja, foi alguém que quis ser transgressivo ao invés de respeitar e de se resignar a constrangidos limites. Em resumo, não se prendeu à concretude e à rude terra portuguesa isenta de ideais e fantasias.
Em 1957 Júlio Pomar pintou uma tela que intitulou “Os cegos de Madrid”. Nela vários cegos amparam-se e caminham. Avançam apoiados em bengalas e com bilhetes de lotaria pregadas à roupa, um deles vai numa espécie de bicicleta. Os rostos parecem caveiras, o ambiente é nocturno, vago e impreciso.
Há quem diga que essa obra de Júlio Pomar é baseada no que Jesus disse aos Fariseus, que segundo São Lucas foi o seguinte: “Quando um cego guia outro, acabam por cair os dois no precipício”.
Há também quem diga algo diferente, ou seja, que essa obra de Júlio Pomar é baseada na parábola do Evangelho: “O que importa mesmo é que saibamos fechar os olhos para melhor ver.”
Nós, os que aqui escrevemos, gostamos mais da segunda hipótese, “O que importa mesmo é que saibamos fechar os olhos para melhor ver.” Fechar os olhos para ver, é o mesmo que dizer ver para dentro e, ver para dentro, é mirar para lá dos limites que nos impõem a concretude, a terra rude isenta de ideais e fantasias, e a apagada e vil tristeza.
Ver para dentro é libertarmo-nos da prisão da realidade e da gravidade, e por consequência disso, sabermos que tudo é possível, que não cairemos de precipício algum. Ver para dentro significa irmos por um mundo onde é exequível vivermos de ímpeto, movimento e fúria. Enfim, ver para dentro tem o seu quê de quixotesco.
Quixotesco foi também o primeiro Passaporte Electrónico Português, lançado em 2006, que contou com ilustrações do pintor Júlio Pomar, que nele incorporou os retratos dos poetas Luís de Camões e Fernando Pessoa. Quixotesco porque num qualquer mundo onírico, Portugal fantasia com a ideia de ser um país de poetas, em cuja vida das gentes é feita de ímpeto, movimento e fúria, e não de uma austera, apagada e vil tristeza.
Talvez esse sítio de sonho seja como aquela Lisboa descrita por Cervantes, onde “todos sus moradores son agradables, son corteses, son liberales y son enamorados, porque son discretos. La ciudad es la mayor de Europa y la de mayores tratos; en ella se descargan las riquezas del Oriente, y desde ella se reparten por el universo…”







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