Avançar para o conteúdo principal

Quem se quer coçar?

 


“Quando um homem está cansado de Londres, está cansado da vida" é uma famosa do frase do escritor inglês Samuel Johnson (1709-1784). 
A frase expressa a ideia de que Londres é o centro do mundo, um lugar onde tudo se pode encontrar, desde a alta cultura até às experiências mais mundanas. Assim sendo, se alguém se sente cansado de Londres, desde já fica a saber que o problema não é da cidade, mas sim da sua própria falta de interesse pela vida.




Com efeito, Londres tem tudo, até o Culex pipiens molestus. Perguntará quem nos lê, o que será o Culex pipiens molestus. Na verdade é um mosquito, só que não um qualquer, mas sim um específico, ou seja, é o mosquito do metro de Londres.

Trata-se de uma subespécie de mosquitos geneticamente distinta das demais, que foi descoberta pela primeira vez durante o Blitz (os bombardeamentos de Londres) da Segunda Guerra Mundial, quando pela noite, os túneis do metro eram usados pelos londrinos como abrigos antiaéreos.

Ao longo da guerra, no decorrer do Blitz, quase 180 mil pessoas recorreram a esses improvisados refúgios subterrâneos, onde todos os dias eram mordidas por mosquitos.



Há uns anos foi realizado um estudo científico sobre o mosquito do metro de Londres, o dito Culex pipiens molestus. Foram recolhidas espécimes em sete diferentes locais ao longo da rede metroviária, que tem 180 quilómetros de extensão, tendo-se descoberto que estes mosquitos londrinos são muito diferentes dos seus restantes parentes que vivem à superfície.

O Culex pipiens molestus reproduz-se durante o ano inteiro, é intolerante ao frio e tem preferência por sangue humano, isto em contraste com as espécies que vivem acima do solo, que são tolerantes ao frio, hibernam no inverno e alimentam-se principalmente do sangue das aves hospedeiras.

Quando as duas variedades de mosquitos foram cruzadas, os ovos eram inférteis, o que demonstra claramente, que o mosquito de metro de Londres é uma subespécie muito específica.



Ora bem, de facto Londres tem tudo, até uma espécie específica de mosquitos, que por alguma misteriosa razão genética, se desenvolveu na sua rede de metro. Mas dito isto, há algo em que o Culex pipiens molestus não é diferente de um outro mosquito qualquer, a saber, quando nos pica, faz-nos comichão.

Em boa verdade, é a comichão o tema que hoje nos interessa, só fomos dar uma volta a Londres, para chegarmos a este ponto. No entanto, não foi um passeio despiciendo, pois tomámos contacto com uma célebre citação de um escritor inglês, falámos desse acontecimento histórico que foi o Blitz e ainda fizemos considerações científicas genéricas e genéticas acerca de uma espécie de mosquitos. Em síntese tivemos literatura, história e ciência. Nada mau!

Para fecharmos esta secção e nos dedicarmos à comichão, aqui fica uma bela ilustração do mosquito do metro de Londres, o Culex pipiens molestus.



Concentremo-nos então na comichão. Existem aquelas comichões simples, que se resolvem com uma ligeira coceira, porém, há comichões que são mais complicadas, pensemos nas das costas, quando se situam bem longe do alcance das nossas unhas.

Tais situações são um autêntico martírio, e se por perto não houver ninguém que nos coce as costas, teremos efectivamente de recorrer a qualquer meio para acabar com o tormento.

Tais casos são causa de situações embaraçosas. Acossados por uma comichão em lugar inalcançavel do corpo, uma pessoa coça-se como pode, como por exemplo esfregando-se numa parede ou, em casos mais extremos, rebolando-se pelo chão. O certo é que, quem for apanhado em flagrante em tais procedimentos, vai obviamente ser catalogado pelos outros como sendo demente.

Na realidade, a comichão é um castigo bem mais severo do que à primeira vista se possa pensar. No canto XXIX do Inferno de Dante, os alquimistas, impostores, falsificadores e mentirosos estão na décima vala do oitavo círculo do inferno, a pena que lhes foi aplicada é uma insuportável comichão. Arranham-se até ficarem em carne viva e imploram por um alívio que os livre da terrível comichão a que foram condenados.

Dante e Virgílio, o grande poeta latino, passeiam-se pelo inferno, a dado momento da narrativa, quando se encontram na décima vala do oitavo círculo do reino das trevas, observam os que a esse lugar foram condenados, e que cada um investe contra si próprio as respectivas unhas, tentando assim acalmar a enorme comichão que sentem.

Virgílio dirige-se aos danados, questionando-os se alguém fala latim, a sua língua materna. E depois, de um modo sarcástico, diz a um deles se a sua unha é suficiente para se continuar a coçar pelo resto da eternidade.
A frase completa de Virgílio é a seguinte: “Ó tu que desdobras os teus dedos, / e que às vezes os transformas em pinças, / dize-me se há alguém que latim fale entre aqueles que aqui estão/ e se a tua unha é suficiente / para a tua eterna tarefa."

Em síntese, Virgílio não teve qualquer comiseração por aqueles que nas palavras de Dante foram condenados a sentir “A fúria ardente da feroz comichão que nada consegue aliviar".

Abaixo uma gravura na qual se vê Dante (de vermelho) e Virgílio (de azul), rodeados pelos sentenciados a uma perpétua comichão, a coçarem-se para todo o sempre.



É certo que Dante colocou no inferno a comichão, no entanto, nem todos têm uma visão tão negativa da coceira. O grande ensaísta francês Michel de Montaigne (1533-1592) afirmou o seguinte: "Coçar-se é uma das mais doces gratificações da natureza, e é tão acessível quanto qualquer outra".

Também o filósofo inglês Francis Bacon (1561-1626) nos diz que “O prazer no acto de Vénus é o maior dos prazeres dos sentidos; combiná-lo com a coceira parece impróprio, muito embora seja bastante agradável ao toque".

Apesar de Dante, nós tendemos mais a concordar com Michel de Montaigne e Francis Bacon, e a afirmar que é uma sensação boa, a de nos coçarmos ou ser coçados, sobretudo, quando se coça aquele pequeno ponto de irritação causado pela mordidela de um mosquito.

O momento em que as unhas tocam a pele e os dedos se movem sobre a picada é um instante de pura felicidade. O alívio! A alegria! A satisfação! O... oh…de prazer…

Por alguma razão, o poeta norte-americano Ogden Nash (1902-1971) disse um dia que “Happiness is a scratch for every itch."



Para finalizarmos esta nossa deambulação pela comichão, vamos ao filme “The Seven Years Itch”. A tradução literal do título da película seria “A Comichão dos Sete Anos”, todavia, os tradutores portugueses optaram antes por “O pecado mora ao lado”.

A expressão “comichão dos sete anos" sugere que casais com relacionamentos de longa duração, frequentemente experimentam um desejo de mudança por volta do sétimo ano. É isso mesmo o que sucede a Tom, que após mandar a mulher e o filho para o campo durante o quente verão nova-iorquino, conhece a sua nova vizinha do andar de cima, interpretada por Marilyn Monroe.

Vendo-a, imediatamente Tom sente uma intensa comichão e, por consequência disso, começa a ter ideias, mas não com a legítima esposa.

E para acabar, aqui fica uma fotografia de Marilyn em “The Seven Years Itch”, na qual segura um martelo, ferramenta pouco adequada para o alívio de comichões, mas que talvez sirva para matar mosquitos.


Comentários

Mensagens populares deste blogue

Os professores vão fazer greve em 2023? Mas porquê? Pois se levam uma vida de bilionários e gozam à grande

  Aproxima-se a Fim de Ano e o subsequente Ano Novo. A esse propósito, lembrámo-nos que serão pouquíssimos, os que, como os professores, gozam do privilégio de festejarem mais do que uma vez num mesmo ano civil, o Fim de Ano e o subsequente Ano Novo. Com efeito, a larguíssima maioria da população, comemora o Fim de Ano exclusivamente a 31 de dezembro e o Ano Novo unicamente a 1 de janeiro. Contudo, a classe docente, goza também de um fim de ano algures no final do mês de julho, e de um Ano Novo para aí nos princípios de setembro.   Para os nossos leitores cuja agilidade mental eventualmente esteja toldada pelos tantos comes e bebes ingeridos na época natalícia, explicitamos que o fim do ano letivo é em julho e o início em setembro. É disso que aqui falamos, esclarecemos nós, para o caso dessa subtil alusão ter escapado a alguém.   Para além da classe docente, são poucos os que têm esta oportunidade, ou seja, a de ter múltiplas passagens de ano num só e mesmo ano...

Que bela vida a de professor

  Quem sendo professor já não ouviu a frase “Os professores estão sempre de férias”. É uma expressão recorrente e todos a dizem, seja o marido, o filho, a vizinha, o merceeiro ou a modista. Um professor inexperiente e em início de carreira, dar-se-á ao trabalho de explicar pacientemente aos seus interlocutores a diferença conceptual entre “férias” e “interrupção letiva”. Explicará que nas interrupções letivas há todo um outro trabalho, para além de dar aulas, que tem de ser feito: exames para vigiar e corrigir, elaborar relatórios, planear o ano seguinte, reuniões, avaliações e por aí afora. Se o professor for mais experiente, já sabe que toda e qualquer argumentação sobre este tema é inútil, pois que inevitavelmente o seu interlocutor tirará a seguinte conclusão : “Interrupção letiva?! Chamem-lhe o quiserem, são férias”. Não nos vamos agora dedicar a essa infrutífera polémica, o que queremos afirmar é o seguinte: os professores não necessitam de mais tempo desocupado, necessitam s...

Se a escola não mostrar imagens reais aos alunos, quem lhas mostrará?

  Que imagem é esta? O que nos diz? Num mundo em que incessantemente nos deparamos com milhares de imagens desnecessárias e irrelevantes, sejam as selfies da vizinha do segundo direito, sejam as da promoção do Black Friday de um espetacular berbequim, sejam as do Ronaldo a tirar uma pastilha elástica dos calções, o que podem ainda imagens como esta dizer-nos de relevante? Segundo a Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência, no pré-escolar a idade média dos docentes é de 54 anos, no 1.º ciclo de 49 anos, no 2.º ciclo de 52 anos e no 3.º ciclo e secundário situa-se nos 51 anos. Feitas as contas, é quase tudo gente da mesma criação, vinda ao mundo ali entre os finais da década de 60 e os princípios da de 70. Por assim ser, é tudo gente que viveu a juventude entre os anos 80 e os 90 e assistiu a uma revolução no mundo da música. Foi precisamente nessa época que surgiu a MTV, acrónimo de Music Television. Com o aparecimento da MTV, a música deixou de ser apenas ouvida e pa...

Avaliação de Desempenho Docente: serão os professores uns eternos adolescentes?

  Há já algum tempo que os professores são uma das classes profissionais que mais recorre aos serviços de psicólogos e psiquiatras. Parece que agora, os adolescentes lhes fazem companhia. Aparentemente, uns por umas razões, outros por outras completamente diferentes, tanto os professores como os adolescentes, são atualmente dos melhores e mais assíduos clientes de psicólogos e psiquiatras.   Se quiserem saber o que pensam os técnicos e especialistas sobre o que se passa com os adolescentes, abaixo deixamos-vos dois links, um do jornal Público e outro do Expresso. Ambos nos parecem ser um bom ponto de partida para aprofundar o conhecimento sobre esse tema.   Quem porventura quiser antes saber o que pensamos nós, que não somos técnicos nem especialistas, nem nada que vagamente se assemelhe, pode ignorar os links e continuar a ler-nos. Não irão certamente aprender nada que se aproveite, mas pronto, a escolha é vossa. https://www.publico.pt/2022/09/29/p3/noticia/est...

A propósito de “rankings”, lembram-se dos ABBA? Estavam sempre no Top One.

Os ABBA eram suecos e hoje vamos falar-vos da Suécia. Apetecia-nos tanto falar de “rankings” e de como e para quê a comunicação social os inventou há uma boa dúzia de anos. Apetecia-nos tanto comentar comentadores cujos títulos dos seus comentários são “Ranking das escolas reflete o fracasso total no ensino público”. Apetecia-nos tanto, mas mesmo tanto, dizer o quão tendenciosos são e a quem servem tais comentários e o tão equivocados que estão quem os faz. Apetecia-nos tanto, tanto, mas no entanto, não. Os “rankings” são um jogo a que não queremos jogar. É um jogo cujo resultado já está decidido à partida, muito antes sequer da primeira jogada. Os dados estão viciados e sabemos bem o quanto não vale a pena dizer nada sobre esse assunto, uma vez que desde há muito, que está tudo dito: “Les jeux sont faits”.   Na época em que a Inglaterra era repetidamente derrotada pela Alemanha, numa entrevista, pediram ao antigo jogador inglês Gary Lineker que desse uma definição de futebol...

Aos professores, exige-se o impossível: que tomem conta do elevador

Independentemente de todas as outras razões, estamos em crer que muito do mal-estar que presentemente assola a classe docente tem origem numa falácia. Uma falácia é como se designa um conjunto de argumentos e raciocínios que parecem válidos, mas que não o são.   De há uns anos para cá, instalou-se neste país uma falácia que tarda em desfazer-se. Esse nefasto equivoco nasceu quando alguém falaciosamente quis que se confundisse a escola pública com um elevador, mais concretamente, com um “elevador social”.   Aos professores da escola pública exige-se-lhes que sejam ascensoristas, quando não é essa a sua vocação, nem a sua missão. Eventualmente, os docentes podem até conseguir que alguns alunos levantem voo e se elevem até às altas esferas do conhecimento, mas fazê-los voar é uma coisa, fazê-los subir de elevador é outra.   É muito natural, que sinta um grande mal-estar, quem foi chamado a ensinar a voar e constate agora que se lhe pede outra coisa, ou seja, que faça...

Luzes, câmara, ação!

  Aqui vos deixamos algumas atividades desenvolvidas com alunos de 2° ano no sentido de promover uma educação cinematográfica. Queremos que aprendam a ver imagens e não tão-somente as consumam. https://padlet.com/asofiacvieira/q8unvcd74lsmbaag

Pode um saco de plástico ser belo?

  PVC (material plástico com utilizações muito diversificadas) é uma sigla bem gira, mas pouco usada em educação. A classe docente e o Ministério da Educação adoram siglas. Ele há os os QZP (Quadros de Zona Pedagógica), ele há os NEE (Necessidades Educativas Especiais), ele há o PAA (Plano Anual de Atividades), ele há as AEC (Atividades de Enriquecimento Curricular), ele há o PASEO (Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória), ele há a ADD (Avaliação do Desempenho Docente), ele há os colegas que se despedem com Bjs e Abc, ele há tantas e tantas siglas que podíamos estar o dia inteiro nisto.   Por norma, a linguagem ministerial é burocrática e esteticamente pouco interessante, as siglas são apenas um exemplo entre muitos outros possíveis. Foi por isso com surpresa e espanto, que num deste dias nos deparámos com um documento da DGE (Direção Geral de Educação) relativo ao PASEO, no qual se diz que os alunos devem “aprender a apreciar o que é belo” .  Assim, sem ...

Dar a matéria é fácil, o difícil é não a dar

  “We choose to go to the moon in this decade and do the other things, not because they are easy, but because they are hard."   Completaram-se, no passado dia 12 de setembro, seis décadas desde que o Presidente John F. Kennedy proferiu estas históricas palavras perante uma multidão em Houston.  À época, para o homem comum, ir à Lua parecia uma coisa fantasiosa e destinada a fracassar. Com tantas coisas úteis e prementes que havia para se fazer na Terra, a que propósito se iria gastar tempo e recursos para se ir à Lua? Ainda para mais, sem sequer se ter qualquer certeza que efetivamente se conseguiria lá chegar. Todavia, em 1969, a Apolo 11 aterrou na superfície lunar e toda a humanidade aclamou entusiasticamente esse enorme feito. O que antes parecia uma excentricidade, ou seja, ir à Lua, é o que hoje nos permite comunicar quase instantaneamente com alguém que está do outro lado do mundo. Como seriam as comunicações neste nosso século XXI, se há décadas atrás ninguém tive...

És docente? Queres excelente? Não há quota? Não leves a mal, é o estilo minimal.

  Todos sabemos que nem toda a gente é um excelente docente, mas também todos sabemos, que há quem o seja e não tenha quota para  como tal  ser avaliado. Da chamada Avaliação de Desempenho Docente resultam frequentemente coisas abstrusas e isso acontece independentemente da boa vontade e seriedade de todos os envolvidos no processo.  O processo é a palavra exata para descrever todo esse procedimento. Quem quiser ter uma noção aproximada de toda a situação deverá dedicar-se a ler Franz Kafka, e mais concretamente, uma das suas melhores e mais célebres obras: " Der Prozeß" (O Processo) Para quem for preguiçoso e não quiser ler, aqui fica o resumo animado da Ted Ed (Lessons Worth Sharing):   Tanto quanto sabemos, num agrupamento de escolas há quota apenas para dois a cinco docentes terem a menção de excelente, isto dependendo da dimensão do dito agrupamento. Aparentemente, quem concebeu e desenhou todo este sistema de avaliação optou por seguir uma de...