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Um Vinícius com vista para o MAR


 
O que é o MAR e quem é Vinicius? O MAR é o Museu de Arte do Rio, e o Vinicius é o de Moraes. O poeta nasceu no Rio de Janeiro em 1913, sendo que para ele, a cidade carioca era mais do que mera paisagem, era ela a principal personagem da sua poesia, a sua musa e o seu espelho. Neste entretanto, o MAR tem patente a exposição “Vinicius de Moraes – Por toda a minha vida”.


É difícil de conceber, que uma vida intensa e toda feita de poesia, de boémia, de mulheres e amigos, e de canções e melodias, acabe exposta e fechada entre as paredes de um museu. No entanto, o tempo passa, o que era lume extingue-se e em cinzas fica, e foi isso mesmo o que sucedeu: Vinicius no museu.


Vinicius teve uma séria carreira de diplomata, tendo exercido esse ofício em Paris e em Roma , contudo, em 1968 foi afastado da carreira, tendo sido compulsivamente aposentado. O motivo apontado para o seu afastamento foi o seu comportamento boémio, que o impediria de cumprir com rigor as suas funções.


A verdade é que Vinicius era conhecido por ser um inveterado frequentador de bares, um fumador compulsivo e um fino apreciador de uísques. Era também um grande conquistador, tendo-se casado nove vezes. À data em que foi destituído, o poeta andava por Lisboa, acompanhado por Chico Buarque de Hollanda  e Nara Leão .


Há um poema de Vinicius que se inicia assim:

Lisboa tem terremoto
Porém, em compensação
Tem muitas cores no céu
Muitos amores no chão
Tem, numa casa pequena
O poeta Alexandre O´Neill 
E a bela Karla morena
Na embaixada do Brasil…



O mito de Vinicius e a lenda do Rio são inseparáveis. É impossível pensar-se nessa cidade sem imediatamente nos vir à mente, a melodia e a poesia de “Garota de Ipanema”.


Reza a história, que Tom Jobim , Vinicius de Moraes e João Gilberto passavam longas tardes na esplanada de um café-bar, localizado à beira-mar, não muito longe da famosa praia de Ipanema.


Diariamente, passava-lhes pela frente uma inspiradora garota a caminho do mar. Um dia deu-se entre os três o seguinte diálogo:

João: — “Tom, e se você fizesse agora uma canção que possa nos dizer, contar, o que é o amor?”
Tom: — “Olha, Joãozinho, eu não saberia sem o Vinicius escrever a poesia.”
Vinicius: — “Para esta canção se realizar, quem me dera o João para cantar!”
João: — “Ah, mas quem sou eu? Melhor se cantássemos os três.”

O resto é história, sendo que “Garota de Ipanema” se tornou umas das músicas mais populares de sempre, sendo interpretada em múltiplas línguas e por todos os lugares do mundo.



O que nos diz o MAR acerca da exposição sobre Vinicius que organiza? Vejamos as palavras do seu curador: “Não se trata de uma mostra didáctica. A ambição é bem maior, reconstituir a largueza do espírito de Vinícius de Moraes."


“…reconstituir a largueza do espírito de Vinícius de Moraes”, é coisa que de certeza não se faz com mostras didácticas, e isto porque, a alma do poeta continha em si um misto de amor, de melancolia, de paixão, de tristeza, de presente e de infinito.

O que sentia e trazia à sua poesia, é por si descrito como uma coisa desassombrada, doida e delirante. Por assim ser, compreende-se bem que tal não caiba em museográficas mostras didácticas.


Na verdade, as didácticas servem para muito pouco, pois que são lineares, tendem a dizer-nos o que está correcto e o que está errado, e por conseguinte, escapa-se-lhes que a vida (e ainda mais a poesia) exige uma largueza de espírito que abarque e abrace as múltiplas contradições, incoerências e absurdos, que resultam do mero e simples facto de se existir.


Vinicius de Moraes abarcava e abraçava na sua vida e poesia, tudo o que de mais contraditório existe. Por um lado, almejava amores eternos, “E cada verso meu será, Pra te dizer, Que eu sei que vou te amar, Por toda a minha vida”, por um outro lado, sabia que o importante era o agora, o presente, “O amor mora onde a alma descansa, no gesto que acolhe, no toque que acalma. Ele não exige promessas, vive do instante em que dois olhares se entendem sem nenhuma palavra. E tudo o que era dúvida, vira certeza mansa."


Talvez a síntese perfeita dessa tensão e contradição entre a eternidade e o instante presente, esteja feita nuns versos em que o poeta diz…


E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.



Para além da eternidade e do instante presente, outra contradição maior existente na vida da gente, é a que há entre a alegria e a tristeza.

Há quem seja muito alegre e há também quem seja triste. Segundo Vinicius, é melhor ser-se alegre do que ser-se triste.

É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração

Se Vinicius tivesse sido um poético didáctico, a lição estava dada logo neste primeiro conjunto de versos. A mensagem é clara, tristezas não pagam dívidas, por conseguinte, a alegria é preferível. Todavia, Vinicius era tudo menos didáctico, e por isso diz-nos logo a seguir numa segunda estrofe…

Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba não

Usando uma figura de mulher, num terceiro conjunto de versos, Vinicius faz a síntese onde junta, anula e redime a contradição entre alegria e tristeza:

Senão é como amar uma mulher só linda
E daí? Uma mulher tem que ter
Qualquer coisa além de beleza
Qualquer coisa de triste
Qualquer coisa que chora
Qualquer coisa que sente saudade 


Mesmo dizendo Vinicius que é melhor ser alegre que ser triste, a verdade é que também diz que tristeza não tem fim e felicidade sim. Em muitos dos seus poemas existe uma atmosfera nostálgica e melancólica, como se fosse inevitável lamentarmo-nos pelo tempo ter passado, e só agora, já tarde, tivéssemos finalmente descoberto que antes sim, éramos felizes e não o sabíamos.


Nós, os que aqui vos escrevemos, não sabemos de um poema mais nostálgico e melancólico, do que aquele escrito por Vinicius, que tem por título “Onde anda você”. Em certo momento do poema, o poeta diz-nos “Hoje eu saio na noite vazia, numa boémia, sem razão de ser, da rotina dos bares, que apesar dos pesares, me trazem você”, e nós ficamos a saber que as suas saídas nocturnas não são propriamente divertidas e felizes, mas sim envoltas em saudade.


Num outro momento do mesmo poema, o poeta interroga-se com tristeza, sabendo de antemão que não vai obter qualquer resposta para a sua questão: “E por falar em paixão, em razão de viver, você bem que podia me aparecer, nesses mesmos lugares, na noite, nos bares, onde anda você?”


Um dia Vinicius, Toquinho e Maria Creuza puseram-se a cantar “Onde anda você”, e o facto é que não há mais nada a dizer, é só escutar. Nós não conhecemos canção mais nostálgica e melancólica do que esta:



Há imensos poemas muito conhecidos de Vinicius de Moraes, sobretudo os que deram em canções. Todos crescemos com versos como “Quando a luz dos olhos meus e a luz dos olhos teus, resolvem se encontrar, ai que bom que isso é meu Deus
que frio que me dá o encontro desse olhar”, ou “Tomara que você volte depressa, que você não se despeça”, ou ainda, “Eu sei que vou chorar, a cada ausência tua eu vou chorar, mas cada volta tua há de apagar, o que essa ausência tua me causou. Eu sei que vou sofrer, a eterna desventura de viver…”


Conhecemos todos esses versos e outros tantos, por assim ser, vamos caminhando para o fim deste nosso texto, falando de um não tão conhecido, “Carta ao Tom 74”.


O poema faz uma homenagem direta a Tom Jobim ao mencionar a “Rua Nascimento Silva, 107”, endereço real onde Tom morava e compunha com Vinícius de Moraes.


O poema "Carta ao Tom 74", depois musicado por Vinícius de Moraes e Toquinho, fala-nos do tempo que passou, esse em que éramos felizes e não sabíamos e em que “Ipanema era só felicidade, era como se o amor doesse em paz”, e em que “mesmo a tristeza da gente era mais bela”.


Nos versos lamentam-se as mudanças ocorridas no Rio de Janeiro, a constante urbanização de todos os lugares e a perda da vista do Cristo Redentor, “Minha janela não passa de um quadrado, a gente só vê cimento armado, onde antes se via o Redentor.”


Lamenta-se também a perda da Ipanema poética, no entanto, a canção termina com um convite para se esquecer a nostalgia e a melancolia e “inventar de novo o amor"





E pronto, vamos terminar este texto a propósito de uma exposição no MAR, que fica no Rio, e que tem agora vista para Vinicius. Abaixo uma fotografia do Museu de Arte do Rio.


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