Vejamos algumas das mais curiosas fobias que existem, Ablutofobia (Medo de tomar banho), Aicmofobia (Medo de injecções), Aliumfobia (Medo do alho), Amicofobia (Medo de se coçar), Anglofobia (Medo da Inglaterra), Autodisomofobia (Medo de alguém com um cheiro horrível), Hipopotomonstrosesquipedaliofobia (Medo de palavras grandes) e por fim, Fobofobia (Medo de fobias).
A lista de fobias oficialmente reconhecidas é enorme, quase parece infinita, facto que nos mostra, que de tudo é possível ter-se medo. A origem da palavra portuguesa fobia vem do grego, idioma em que o termo phobos significa medo.
Há milhares de fobias, mas há igualmente um clima de medo que nos rodeia a todos, pois há permanentes ameaças à nossa existência: guerras (incluindo nucleares), alterações climáticas, desastres naturais, ataques terroristas, ofensivas cibernéticos à nossa segurança e privacidade e pandemias globais. Dito isto, o facto é que vivemos com a sensação, de que o fim do mundo está ao virar da esquina.
Mas depois há ainda as notícias que nos servem diariamente à hora de jantar e a todo momento nas nefandas redes sociais. Para além da constante disseminação de falsidades, temos também urgências a abarrotar, tribunais a não funcionar, corrupções várias, violências familiares e outras, e ainda roubos, assaltos, homicídios e outras mal-feitorias.
Em síntese, nas TV’s e nas redes, o medo cerca-nos.
Em boa verdade, vivemos em plena pandemia do medo.
Como diz o bom povo português, “Quem tem cu tem medo”, o que significa, que ter medo é uma reacção humana perfeitamente normal desde o início dos tempos. O medo é uma emoção intensa que desencadeia no nosso organismo uma resposta bioquímica de modo a reagirmos ao perigo: arrepios, cabelos em pé, boca seca, suores frios, tensão muscular, rubor, e igualmente palidez, ofegação e pulsação elevada.
Em resumo, o medo é uma ferramenta biológica que serve para nos proteger de eventuais perigos. Até aqui tudo muito bem, o problema é quando o medo toma conta de tudo e se transforma em algo que nos paralisa e nos impede de viver.
Nessas circunstâncias, é como se o medo afixasse placas de aviso e de repressão por todo o lado, que nos impedem a passagem, o irmos mais além.
O medo tem o poder de tolher o vindouro, de eliminar o risco, de aniquilar a esperança e de suprimir a criatividade. Vivendo-se no medo, teme-se dar-se um passo em frente ou sequer para o lado, pois qualquer coisa de diferente é motivo de inquietação e de susto ou sobressalto.
Por assim ser, vivendo-se no medo, permanece-se sossegado e quietinho exactamente no sítio onde se está, esperando que nada nem ninguém nos venha alvoroçar. Uma sociedade tolhida pelo medo prefere a paralisia, pois assusta-se facilmente com novidades, inventividades, originalidades, inovações e criatividades.
Num mundo afundado no medo, a ousadia, o vanguardismo e o frescor são coisas que dão cagaço, isto para citar novamente uma expressão própria do bom povo português.
Abaixo uma imagem reinventada, baseada na atemorizante obra de Edward Munch, “O Grito”. O título desta que aqui se segue é “Munch Ice Scream”.
Para os que eventualmente sofram de Anglofobia, a graça está no facto de na língua inglesa “scream” ser “grito”.
Mas então e se “E em vez do Medo ?”
“E em vez do Medo?” é o tema transversal da Bienal Cultura e Educação promovida pelo Plano Nacional das Artes. O tema desafia a transformar o medo em "desmedo", coragem e ação através da dança, da música, da expressão oral, do desenho e da pintura. Envolve escolas e comunidades educativas, promovendo projectos de intervenção artística acerca dos medos. A ideia é responder à imobilidade com imaginação, tratando o medo como algo a ser acolhido e metamorfoseado.
Se vivemos uma pandemia de medo, a única vacina possível é a arte. A arte actua como o contraponto ao medo gerado por fake news, fanatismos e intolerâncias, promovendo a reflexão e o pensamento crítico. A arte oferece um espaço seguro para expressar emoções difíceis, permitindo-nos lidar com os nossas receios, pânicos e ansiedades. A arte renova a vida e afasta os medos e o mofo.
Desde o tempo em que a humildade vivia em cavernas que a arte, entre outras coisas, sempre serviu para o Homem expressar, confrontar e enfrentar os seus medos. Era assim há milénios, é-o assim agora.
Os jovens portugueses apresentam padrões muito elevados de consumo de tranquilizantes e sedativos com receita médica, acrescente-se a isso, que Portugal é o país mais deprimido da União Europeia, e mesmo fora dela, apenas os islandeses tomam mais antidepressivos.
Existirão certamente razões individuais para todo esse consumo, contudo, existe também um motivo colectivo, ou seja, por cá há muitas ansiedades, angústias e medos. Assim sendo, a conclusão é simples, a nação precisa de se expressar, de ousar, de criar, de inventar e de inovar, precisa de deixar entrar o ar. Em resumo, necessitamos de arte ao invés de medo.
Pense-se por exemplo, na pintura de Caravaggio, intitulada “Medusa”. É uma obra de 1597 e representa o exacto instante da decapitação de uma personagem da mitologia clássica, a Górgona. É na verdade uma imagem terrível, que nos assusta e mete medo.
Dir-se-ia que a medusa de Caravaggio é demasiado aterradora para ser mostrada a crianças. Dir-se-ia inclusivamente, que só quem perdeu a cabeça o fosse fazer. Mas será mesmo assim?
As histórias infantis tiveram desde sempre cenas assustadoras, como por exemplo, um lobo que come a avó, pais que abandonam os filhos numa floresta onde são recolhidos por uma bruxa que os engorda para mais tarde os manjar, madrastas que dão de comer às enteadas maçãs envenenadas e outras que mandam um caçador apunhala-las e trazer-lhe de volta como prova de que o fizeram, o coração da pequena.
Sim, as histórias infantis sempre tiveram cenas terríveis, e assim foi porque essa era uma forma de ensinar as crianças a enfrentarem os seus mais obscuros e profundos medos. Em síntese, em vez do medo, tínhamos a arte de escrever e narrar contos.
O que tal demonstra, é que a Medusa de Caravaggio, numa história devidamente enquadrada, também pode ser mostrada a crianças, de modo a que estas possam confrontar-se com os seus medos. Veja-se abaixo um trabalho realizado por miúdos do pré-escolar, baseado na referida obra de Caravaggio.
Enfrentar os medos, não tem nada a ver com a psicologia positiva, que advoga que se quisermos ultrapassar algo, o conseguiremos fazer. A psicologia positiva psicologiza, sentimentaliza e racionaliza o medo, ignorando o seu descomedido poder, que só é confrontado e eventualmente vencido, através da imensa força criativa da arte.
Só com a arte, mesmo o mais intenso medo pode ser reinventado e recriado, de modo a transformar-se numa história, num conto, num poema, num filme, numa melodia, num desenho ou numa pintura.
E por aqui ficamos, sendo este um primeiro texto de alguns que dedicaremos ao tema “E em vez do Medo?”






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