“Aos dezoito dias do mês de dezembro de dois mil e treze, reuniu em sessão ordinária a Assembleia Municipal de Chaves…”, é assim que se inicia a acta número sete do referido ano, que relata o ocorrido nessa reunião. A ordem de trabalhos era extensa, contendo catorze pontos, provavelmente por consequência disso, a acta que desse plenário municipal resultou tem umas meras sessenta e quatro páginas.
Entre os catorze pontos a debater, contavam-se assuntos tão prementes como a apresentação de um relatório sobre a situação financeira do município, a celebração de um contrato, uma proposta fiscal e a eleição de membros da dita Assembleia para a representarem em órgãos como o Conselho de Educação ou o Conselho de Comunicação.
Em síntese, na cidade flaviense, que fica em Trás-os-Montes, reunem-se os que lá estão, e nisso não são diferentes dos que vivem no Algarve, em Lisboa, no Porto, em Leiria ou em Coimbra, ou seja, na lusitana nação todos adoram reunir-se por longas horas e logo a seguir produzir extensas actas.
E ainda bem que assim é, pois como pudemos verificar nas últimas semanas, de norte a sul do país tudo está sempre muito bem planeado e estamos sempre preparados para uma qualquer eventualidade ou imprevisto.
A nós, portugueses, nada nem ninguém nos apanha de surpresa, pois como fruto dessas longas reuniões, temos imensos planos, projectos e estratégias para lidar não só com o normal decorrer dos acontecimentos, mas também com o imprevisível, o extraordinário e o impensável.
A nós não nos apanham com as calças na mão, faça chuva ou faça sol, temos sempre prontos planos, projectos e estratégias para o que der e vier. Em conclusão, vale a pena reunirmos-nos muito.
Abaixo um desenho representando Chaves, da autoria de Nadir Afonso, onde vemos a ponte romana que liga as duas margens do Rio Tâmega, que foi erguida entre finais do século I e o início do II.
As primeiras dezoito páginas da acta da sessão ordinária a Assembleia Municipal de Chaves do dia dezoito do mês de dezembro de dois mil e treze, são no entanto diferentes, do que é comum em tais documentos administrativos. Com efeito, uns poucos dias antes da reunião, tinha falecido, aos 93 anos de idade, o mais conhecido dos filhos da terra, Nadir Afonso, artista que tinha nascido nessa cidade em 1920.
Tendo assim sido, a sessão plenária não começou com os pontos da ordem de trabalhos, mas teve sim início com a invocação solene da memória do Mestre Nadir Afonso. Depois disso, foram vários os membros da assembleia que falaram para homenagear a vida e obra do grande artista.
Muito foi dito, mas nós, de todos esses discursos oficiais, destacamos uma frase proferida pelo então Presidente da Câmara Municipal de Chaves, esta: “Alcançou sucesso, aquele que viveu bem, riu com frequência e amou muito”.
De facto, a frase parece-nos muito adequada para homenagear Nadir Afonso, pois as suas obras são plenas de felicidade, de contentamento e de alegria de viver. É ver.
Nadir Afonso nem parece português, pois as gentes nacionais são mais dadas ao queixume, ao aborrecimento e à desafeição, do que propriamente à alegria, ao entusiasmo e ao bem-querer.
Para o constatarmos basta irmos pelas aldeias, vilas e cidades de Portugal e ver os velhos solitários pelos bancos de jardim e outros que passam o tempo num infinito jogo de cartas à sueca ou à bisca. Para o constatarmos é ver os idosos que nos lares passam os dias em frente às TV’s aguardando o seu próprio fim. Para o constatarmos é ver o quotidiano dos muitos que logo de manhã cedo já chegam cansados aos seus trabalhos após mais uma hora de viagem, e que repetirão o mesmo percurso ao fim do dia. Para o constatarmos é vermos a imensa quantidade de gente que se junta em cafés e restaurantes, mas que não ri e em que, não raras vezes, nem sequer conversa. Para o constatarmos basta sabermos que Portugal tem a maior taxa de depressão e de consumo de antidepressivos da União Europeia, e que mesmo fora dela, só a Islândia, que é um sítio isolado, frio e escuro, nos ultrapassa.
E, finalmente, para o constatarmos, é vermos como os portugueses se aborrecem mutuamente em longas reuniões das quais saem extensas actas e entediantes planos, projectos e estratégias, que na maior parte das vezes ficam só no papel e dão em nada ou em coisa nenhuma.
Não haverá certamente um outro país no mundo, que ande há cinquenta anos a fazer centenas de reuniões onde se concebem inúmeros planos e projectos para um novo aeroporto, e que passadas tantas décadas, ainda não tenha construído nem um centímetro de uma das muito prometidas e nunca concretizadas múltiplas pistas de aterragem e descolagem.
Mas contra tudo isso existe um antídoto, a feliz obra pictórica do Mestre Nadir Afonso, que essa sim como que levanta voo e nos faz viajar.
Como já dissemos Nadir Afonso nasceu em 1920 em Chaves, todavia, com 17 anos de idade partiu para o Porto, tendo-se matriculado em Arquitectura, na Escola Superior de Belas-Artes dessa cidade. Em 1946 viajou para França onde, na École des Beaux-Arts de Paris, estudou pintura, tendo-lhe sido concedida pelo governo francês uma bolsa de estudo. Em Paris colaborou com o arquitecto Le Corbusier, e muito particularmente num projecto urbanístico para Marselha, a chamada Cité Radieuse.
Abaixo uma foto desses belos e coloridos blocos de habitação em Marselha, essa Cité Radieuse banhada pela luz azul do sul e com vastas janelas de cujas quais se avista o esplendor luminoso do amplo mar Mediterrâneo.
Le Corbusier é provavelmente o mais importante e célebre de todos os arquitectos modernos. No seu tempo era uma autêntica estrela internacional. Era também conhecido por ter ataques de fúria, contudo, era igualmente um grande pândego.
Esse lado mais jovial e folgazão de Le Corbusier há de ter contribuído tanto para a alegria e felicidade que se vêem nas obras de Nadir Afonso, como o contribuiu o amor que o arquitecto Franco-suíço tinha às cores, às formas e às cidades.
Mais abaixo temos Le Corbusier, que se fez retratar de rabo ao léu, no momento em que pintava o interior de uma casa à beira-mar, na elegante Côte d'Azur. A obra tinha-lhe sido encomendada por uma antiga amante que o abandonara, para se vingar dela, ele não fez nada do que lhe tinha sido pedido, e fez o que entendeu. Para a provocar, ainda se fez fotografar nos preparos em que abaixo o vemos. O arquitecto era de facto um folião, muito embora também tivesse algum mau génio.
Depois de anos de convívio com Le Corbusier, em 1952 Nadir Afonso partiu para o Brasil. Do outro lado do Atlântico, trabalhou igualmente com um arquitecto festivo, bem-humorado e brincalhão, Oscar Niemeyer.
Niemayer, que viveu para lá dos cem anos chegando aos cento e cinco, quando numa entrevista o questionaram sobre qual era o segredo para se manter lúcido e continuar a trabalhar em tão avançada idade, respondeu o seguinte: “Existem apenas dois segredos para manter a lucidez na minha idade: o primeiro é manter a memória em dia. O segundo eu não me lembro.”
No Brasil, Nadir trabalhou com Niemeyer na concepção do Parque Ibirapuera, em São Paulo. Para além de ser um belo e extenso espaço verde, no Parque Ibirapuera há também o Pavilhão da Bienal de Arte de São Paulo, uma das mais antigas e prestigiadas do mundo inteiro.
O Pavilhão da Bienal de Arte de São Paulo é um dos mais claros exemplos de que a geometria pode ser uma disciplina feliz, fascinante e até voluptuosa.
Vejamos o que a esse propósito disse Niemayer: “Não é o ângulo recto que me atrai. Nem a linha recta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual. A curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, nas nuvens do céu, no corpo da mulher preferida."
Em resumo, Nadir Afonso aprendeu a amar as cores, a luz e as cidades com Le Corbusier, e com Niemayer aprendeu a voluptuosidade das linhas geométricas, com ambos aprendeu a alegria, o riso e a felicidade.
As cidades pintadas por Nadir Afonso são sítios simultaneamente reais, imaginários, geométricos, coloridos e felizes, veja-se por exemplo a obra abaixo.
Nadir andou pelas mais diversas cidades do mundo, porém, ia sempre regressando a Portugal, até que um dia regressou de vez: “Para mim, era bom estar em Paris, mas a pintar. À medida que fui trabalhando cheguei à conclusão que já não era Paris, já não era Nova Iorque, podia muito bem ser Lisboa. Em Chaves podia fazer a minha obra. Quando entendi as leis da obra de arte percebi que já não precisava de mais, comecei a sentir que essas leis são universais e que eu podia estar muito bem em qualquer lugar. Se tiver um metro quadrado de espaço para trabalhar sou tão feliz como numa grande cidade.”
Sim, de facto, olhando-se para a sua obra, percebe-se que Nadir podia ser feliz em qualquer sítio do universo. Talvez que essa felicidade lhe adviesse de não se deixar arrastar nem por minudências, nem por questões circunstanciais e paroquiais.
Talvez Nadir soubesse concentrar-se tão-somente no que é importante e perene, como por exemplo nas harmoniosas, eternas e universais leis geométricas: “O homem volta-se para a geometria como as plantas se voltam para o sol, é a mesma necessidade de clareza e todas as culturas foram iluminadas pela geometria, cujas formas despertam no espírito um sentimento de exactidão e evidência absoluta, a curva limite do círculo é constante e da sua imagem temos uma herança hereditária que se reforça através dos tempos.”
As obras de Nadir Afonso são compostas com formas abstractas e geométricas, contudo, elas não são frias e puramente conceptuais, pois falam-nos da vida de todos os dias.
Nas suas pinturas, as diversas formas geométricas reunem-se, no entanto, a reunião desses diferentes elementos não é estéril, pois dessa reunião nasce uma harmonia. No fundo, é o exacto oposto daquelas longas reuniões das quais nada nasce, a não ser actas, projectos, planos e estratégias para a construção de um novo aeroporto, cujas obras jamais avançam.
A obra de Nadir Afonso é feita de construções bem sucedidas, das quais se desprendem linhas e cores, que esboçam formas alegres e plenas de felicidade e amor. Tudo assim fosse em Portugal, e certamente que já não seríamos um dos mais deprimidos países do mundo.
Neste entretanto, enquanto o tempo não aquece, a chuva não deixa de cair e a Primavera não chega, é possível ver em Lisboa, na Sociedade Nacional de Belas Artes, a mostra “Nadir Afonso: Território de Absoluta Liberdade”.
Contemplar as formas dançantes de Nadir, é na verdade bem mais divertido do que assistir aos melancólicos desfiles de Carnaval que se celebram por Portugal afora, nos quais moças quase em estilo Le Corbusier, vão cheias de frio dançando o samba e fingindo estar no quente Brasil.










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