O futuro será pior. Pior para o ambiente, pior para a saúde física, pior para a saúde mental, pior para as instituições democráticas, pior para a educação, pior para os serviços públicos e também pior para a paz. Em resumo, aqui temos o mantra do medo contemporâneo.
Há uma crónica do escritor brasileiro Luís Fernando Veríssimo, que nos conta a história de um condomínio fechado, que era bastante apreciado pela sua segurança. Tinha belas casas, jardim, playground e piscina, mas acima de tudo era seguro, pois todo ele estava rodeado por um alto muro. Em síntese, no seu interior ninguém sentia medo.
No entanto, ocorreram uns quantos assaltos. Os proprietários decidiram colocar torres com seguranças ao longo do alto muro e as inspeções tornaram-se mais rigorosas no portão de entrada, todavia, os assaltos continuaram.
Decidiram electrificar os muros. Houve discordâncias, mas no fim todos acabaram por aceitar, pois o mais importante era a segurança. Os assaltos continuaram. Grades nas janelas de todas as casas, patrulhas com cães, e uma cerca de arame farpado, mas os assaltos continuaram.
Foi feito um apelo para que as pessoas saíssem de casa o mínimo possível, reforçada a guarda e construída uma nova cerca. Tomaram uma medida extrema, ninguém de fora entra no condomínio. Visitas só num local predeterminado, sob severa vigilância e por curtos períodos.
A segurança foi finalmente reposta, já não há assaltos. Os ladrões passam agora pela rua e através do enorme portão de ferro e avistam um ou outro condómino agarrado às grades de sua casa, olhando melancolicamente para a rua.
Surpreendentemente surgiu um novo problema, há tentativas de fuga do condomínio e constantes motins de moradores que clamam pela liberdade. O pessoal da segurança tem sido obrigado a agir com energia a fim de reprimir os manifestantes.
O que a história de Luís Fernando Veríssimo nos diz, é que o medo prende e isola. Mas como resistir ao medo que hoje em dia tudo domina, ou seja, como o confrontar e enfrentar?
É essa a questão transversal da Bienal Cultura e Educação promovida pelo Plano Nacional das Artes. O tema desafia a transformar o medo em "desmedo", e o seu mote é “E em vez do Medo ?”
Há quem considere que o medo é algo que se trata com terapias e psicologias, nós não dizemos que não, só que, para combater a pandemia de medo que diariamente nos servem nas TV’s, nas redes sociais e noutros sítios mais, não haverá melhor remédio ou mais eficaz vacina de que a arte.
Abaixo uma obra de Remedios Varo, “Mujer Saliendo del Psicoanalista”.
Esta obra da artista espanhola Remedios Varo explora o assustador, o subconsciente e as imagens sobrenaturais, retratando uma mulher encapuzada saindo do consultório de um psicanalista. Ela segura uma cesta cheia do que Varo designou como "lixo psicológico" e, na outra mão, a cabeça de um homem, que balanceia sobre um poço.
A pintura simboliza a relação emocional de uma mulher com o seu pai, progenitor que seria bastante tradicional, severo e autoritário. Após a consulta com o psicanalista, ela consegue livrar-se desse fardo mental largando-o na sua cesta.
A pintura de Remedios Varo, retrata portanto uma mulher que se libertou do medo que tinha do seu pai, um medo que a tolhia e castrava. A cabeça dependurada do pai representa a sua libertação das estruturas patriarcais, que a vinham aterrorizando desde a sua mais tenra infância.
O pai de Remedios Vara era o oposto da figura da pintura. O homem era um intelectual e amante das artes e teve uma grande influência no desenvolvimento da filha como artista. Remedios foi encorajada desde pequena a ter um pensamento independente e teve acesso a inúmeros livros.
A Espanha desse tempo era altamente conservadora e o pai discordava da educação religiosa que a filha recebia na escola, tentando tudo para que ela acedesse a uma instrução liberal e universal. Mais tarde, já crescida, e em plena ditadura franquista, Remedios não teve outro remédio que não fosse o exílio no México.
Em síntese, Remedios Vara foi criada e viveu sem medos, e foi por isso que em 1962, pintou “Mujer Saliendo del Psicoanalista”, tentando assim incentivar as mulheres espanholas a também se libertarem dos seus receios e fobias.
Uma mulher que se libertou dos medos através da arte, foi a escultora franco-americana Louise Bourgeois, que um dia disse: “I have been to hell and back, and let me tell you it was wonderful”.
Ao longo dos seus noventa e oito anos de vida, Louise Bourgeois fez da arte uma catarse, dando assim forma a medos, traumas e ansiedades. As suas obras expressam os receios, angústias e temores de ser artista, filha, mãe e esposa. A esse propósito escreveu o seguinte: “Um artista pode mostrar coisas que outras pessoas têm pavor de expressar”.
No início da década de 50, Louise Bourgeois ficou devastada com a morte do pai, muito embora o relacionamento entre ambos fosse repleto de dificuldades, de zangas e de mal-entendidos. Mergulhou então numa profunda e inconsolável tristeza.
Em busca de consolo, iniciou o que se tornaria um período de trinta anos de terapia psicanalítica, chegando a frequentá-la quatro vezes por semana durante as fases mais difíceis.
Os seus numerosos escritos documentam essa tumultuosa viagem. Em determinada passagem, ela diz o seguinte: “Tenho medo do silêncio / Tenho medo da escuridão / Tenho medo de cair / Tenho medo da insónia / Tenho medo do vazio…”, enquanto num outro momento revela os temores que sentia: “ser abandonada / ser criticada / ser usada / ser rejeitada…”.
É evidente que a psicanálise terá auxiliado Louise Bourgeois, todavia, o que a curou foi a arte. Ela apropriou-se da arte para realizar um processo terapêutico e de catarse. Transformou as suas experiências e sentimentos em arte, usando para tal imagens mitológicas e objectos como gaiolas, utensílios médicos e igualmente as famosas aranhas. Simbolizou assim a psique feminina, e a beleza e a dor de ser mulher.
Que se diria, se um serviço educativo tivesse a seguinte proposta para os mais pequenos, uma actividade em que “Entramos num universo que nos parece assustador: quartos escuros, aranhas gigantes ou sapatos na ponta dos pés que parecem calçados por fantasmas.”
Haveria muito quem dissesse, que raio de ideia é essa, a de assustar e meter medo aos mais pequeninos! No entanto, foi exactamente esta a proposta do serviço educativo do Museu de Serralves no Porto.
A proposta continua assim: “Nesta oficina, vamos encher o peito de coragem para invadir a exposição de Rui Chafes e descobrir de onde vem o medo: da luz ou da sombra. Este é o mote para a construção de esculturas que vão nascer nas paredes da sala do Serviço Educativo para assustarem todos os que por lá passarem.”
A nós, o que fez o Museu de Serralves parece-nos muito bem, pois como temos vindo a argumentar é através da arte que se enfrentam angústias, ansiedades e medos. Abaixo a escultura de Rui Chafes “Medo Não Medo”.
Hoje vamos terminar com um poema de Alexandre O’Neill o nosso texto, sendo que, o anterior, assim como os próximos, são também dedicados ao medo.
O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos
O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com certeza a deles
Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados
Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)
O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos
Sim
a ratos




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