Há quem sonhe em conhecer a América fazendo uma longa viagem de quase quatro mil quilómetros pela mítica Route 66.
Há quem ambicione mais, e gostasse de ir “coast to coast”, do Atlântico ao Pacífico, partindo de Nova Iorque, “The city that never sleeps”, até chegar a Los Angeles na “Sunny California”.
Há ainda quem queira ver os imensos desertos norte-americanos, como o Sonora que vai do Arizona à Califórnia, ou o Mojave no qual se situa o lendário “Death Valley”.
E depois, há
também quem queira ir à América percorrer as suas altas montanhas e atravessar
o gigantesco e majestoso Grand Canyon.
Nós não nos propomos a
fazer nada assim de tão complicado e exaustivo. Nesta nossa viagem de hoje,
sugerimos tão-somente fazermos um pacato passeio pelas mais belas pinturas que
se podem encontrar pela América.
Dito isto, comecemos então o nosso passeio pela esbelta ilha de Manhattan, pois é aí que podemos encontrar uma série de lindas pinturas do holandês Johannes Vermeer (1632-1675).
Há poucos artistas, na verdade quase nenhum, que tão bem tenham
sabido retratar os calmos momentos quotidianos, que vagarosamente se vão
derramando no grande rio do tempo, como o fez Vermeer.
Contemplar uma obra desse pintor, é poder ver uma eternidade íntima, na qual os mais simples gestos do dia a dia parecem ser gestos de sempre.
A vida fluiu na pintura de Vermeer,
mas de um modo absolutamente tranquilo. Dir-se-ia que nas suas obras, coisas
tão simples como ler uma carta, a luz que entra por uma janela ou uma mera
conversa, são acontecimentos quase metafísicas, cujo sentido é tão secreto como
eterno.
Há pinturas de Vermeer
no amplo e vasto Metropolitan Museum de Nova Iorque, que todos os dias atrai
milhares de visitantes, no entanto, talvez o sítio mais propício para ver a
obra desse pintor holandês, seja a Frick Collection, um pequeno, recatado e tranquilo
museu, mesmo junto ao Central Park.
Abaixo “A Senhora e a
Criada” de 1667, obra que pode ser apreciada na Frick Collection, numa sala em
que está lado a lado com mais uns quantos Vermeer’s.
Deixemos Manhattan e
viajemos em seguida para a agitada, industriosa e ventosa Chicago. A “windy
city” nunca teve as luzes e glamours de Nova Iorque, e menos ainda as estrelas
e tiques de Hollywood. Com efeito, Chicago foi desde sempre a mais operária e rústica
das grandes cidades norte-americanas.
Chicago, da qual Frank
Sinatra dizia ser “My kind of town”. Claro que ele o dizia mas não o sentia,
uma vez que era demasiado nova-iorquino. Na verdade, “My kind of town” era mais
uma espécie de hino em que se afirmava a identificação da América com essa
cidade, a mais norte-americana de entre todas as metrópoles norte-americanas.
Para o típico
norte-americano, Nova Iorque é demasiado sofisticada e europeia, Los
Angeles é demasiado solarenga e holywoodesca, e Washington D.C. é demasiado
politizada e monumental, por consequência disso, para a média América, Chicago é a tal, “My
kind of town”.
Como é evidente, Sinatra não era o típico norte-americano médio, e tanto não o era que o cantor disse uma vez ter visto em Chicago um homem não a dançar com uma amante, não a dançar com uma qualquer moça que tivesse acabado de conhecer num bar, mas sim, e por espantoso que isso possa parecer, a dançar com a sua legítima esposa.
Citemos as palavras de Sinatra: “In Chicago I had the surprise of my life, I saw a man dancing with his own wife”.
Sendo esse o contexto,
é nessa cidade trabalhadora, não muito sofisticada e pouca dada a tiques e
aventuras, que se encontra um dos mais belos museus da América, The Art
Institute of Chicago, coisa que significa, que as classes operárias também
apreciam a beleza.
É precisamente no The
Art Institute, que encontramos o quadro “Uma tarde de domingo na Grande Jatte”,
obra de 1886 da autoria de Georges Seurat.
A obra de Seraut retrata uma tarde de domingo em
Paris, na ilha da Grande Jatte, que se situa junto ao rio Sena. Como podemos
observar, na elegante e sofisticada Paris de finais do século XIX, o dia era de
repouso, e o que mais havia era calmaria e lazer.
Como diria um poeta parisiense dessa mesma época,
Baudelaire, “Là, tout n’est qu’ordre et beauté, luxe, calme et volupté”.
Digamos portanto, que a capital de França era nesses tempos o quase exacto
oposto da rude e industriosa cidade de Chicago.
É também no The Art Institute of Chicago que podemos
encontrar uma obra que haveria de se tornar um ícone da América, “The
Nighthawks”, obra de 1932, da autoria de Edward Hopper.
Sobre “Nighthawks”, Edward Hopper disse o seguinte:
“Inconscientemente, provavelmente, pintei a solidão de uma grande cidade”. Num
bar, três clientes sentam-se ao balcão, cada um parecendo perdido e envolto nos
seus pensamentos e alheio a tudo em seu redor.
A iluminação eléctrica cria uma cena serena, bela e, ao mesmo tempo, enigmática.
A pintura foi inspirada num bar que Hopper vira na Greenwich Avenue, em Nova York, mas não é uma representação literal de um lugar real. É como se víssemos um sítio específico, que no entanto se revela simultaneamente como sendo característico de todas as grandes cidades norte-americanas.
Na realidade, a cena tanto podia situar-se em Nova Iorque,
como em Boston, Filadélfia, Detroit ou Chicago, “Nighthawks” é uma imagem que representa
perfeitamente uma certa ideia da América.
Nem sempre é fácil
sabermos quem somos, donde viemos e para onde vamos. Digamos que estas três
questões são uma espécie de interrogação que desde sempre resume o destino da
humanidade. Mesmo que não saibamos quem somos, neste contexto em particular,
o certo é que viemos de Chicago e vamos para Boston.
Boston é a capital do
estado do Massachusetts e o “berço da independência" dos Estados Unidos da
América. Digamos que na moderna América é uma rara cidade histórica,
equivalente às muitas que existem deste lado do Atlântico, no velho continente.
Pelas suas ruas a
arquitetura é predominantemente dos séculos XVIII e XIX, sendo Boston um
importante centro universitário (Harvard, MIT), financeiro e cultural, e um dos
locais com mais alta qualidade de vida na América.
Sendo desde cedo uma cidade tão distinta, é natural que logo em 1870 a urbe tenha decidido erguer um museu de belas artes. Como era expectável fê-lo no consagrado estilo neo-clássico, trazendo assim para a América o antigo primor e requinte grego-romano.
É no Museu de Belas
Artes de Boston, que encontramos o quadro “D'où venons-nous ? Que
sommes-nous ? Où allons-nous ?”. Trata-se de uma pintura de 1898, do
artista francês Paul Gauguin. Foi realizada no Taiti e é considerada a
obra-prima de Gauguin, sendo muitas vezes descrita como "um trabalho
filosófico cuja profundidade é comparável à dos Evangelhos".
Seja como for, "D'où
venons-nous? Que sommes-nous ? Où allons-nous ?” é uma grande
obra, mais não seja em tamanho, pois tem quase quatro metros de comprimento.
Gauguin não era de
todo em todo um homem de primor e requinte, e era ainda menos dado ao estilo
neo-clássico. Quer a sua pintura, quer o seu carácter, eram assim a atirar para
o rude, tosco e até primitivo.
Conta a história, que
terá sido após Gauguin ter tido uma brava discussão com o seu amigo Van Gogh,
que este último, completamente alterado, terá cortado a sua própria orelha.
A dado momento da vida, Gauguin decide partir para o Taiti para se libertar dos constrangimentos
sociais próprios da velha Europa. O homem quis fugir da cristandade e viver num
lugar exótico, envolto pela natureza primeira e onde pudesse expressar livremente
as suas tensões eróticas e pintar as belas nativas.
Paul Gauguin era um
ser irrequieto, que apesar de ter partido para o Taiti tinha mulher e filhos em
Paris. Assim sendo, após uma longa estadia nos trópicos regressou à capital
gaulesa, onde perante os rituais familiares e sociais, não se aguentou muito
tempo, tendo portanto regressado ao Taiti, local onde passou o resto da sua
vida. No fundo, compreende-se.
Gauguin era na
realidade um norte-americano “Avant la lettre”, ou seja, antes do tempo. Era-o
como daquele tipo de norte-americanos que continuamente andam “On the road”.
Quem era mesmo tipo “North-American”, só que neste caso já não “Avant la
lettre”, mas sim e precisamente no seu tempo, era o imenso Jackson Pollock. “Splash,
drip, drizzle, splat…”, era assim que Pollock pintava.
Ao olharmos para a sua pintura, vemos movimento e acção. Em boa verdade, muitos dos seus quadros fazem lembrar intricadas auto-estradas.
Pensemos por exemplo, em “Number 1, 1950”, obra na
qual o artista usou uma nova técnica, o “dripping”. Quando a contemplamos, é
impossível que o nosso olhar não vá “on the road” pela América inteira, por
auto-estradas sem fim, que vão “coast to coast”, desde Nova Iorque à
Califórnia, e que depois seguem para Boston, Chicago ou qualquer outro sitio.
E é com este quadro que pode ser visto na National Gallery of Art em Washington, e cuja autoria é daquele a quem chamaram “The Great American Painter”, que terminamos esta nossa viagem pela intrépida América!









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