Chove na capital, não com a violência de há uns dias, mas sim e apenas com uma intermitente chuva miudinha. O céu é cinzento e não ameaçadoramente escuro e negro. Sabemos que não cairão grandes bátegas e que o tempo vai estar só assim-assim, neste meio termo. O clima não é quente nem frio, nem efectivamente nada de claramente fixo e definido, é tão-somente incerto.
Passeamos por Lisboa e as ruas estão levemente húmidas. Não existem ainda sinais da próxima Primavera, no entanto, o mais rigoroso Inverno, ainda que bem presente e recente, parece ser agora algo do passado.
Caminhamos portanto pela cidade, envoltos nesta espécie de meias-tintas climatéricas, em que as tempestades aparentam já lá ir, mas onde, e por enquanto, de momento não se avistam quaisquer flores primaveris.
Nessa atmosfera citadina nada se espera, nem grandes descidas de temperatura, nem enormes aumentos da pluviosidade, tal e qual como também não se vislumbra o sol a brilhar e nem sequer breves lampejos de Primavera.
É nessa cidade suspensa no tempo, tomada por uma incerta e indefinida melancolia, que nos vem à memória a poesia de Manuel de Freitas.
O homem nasceu em 1972 lá para os lados de Santarém, mas depois disso, e ainda jovem, veio para Lisboa, urbe perfeita para os seus poemas, onde se fala dessas vagas melancolias que não se caracterizam por serem tempestuosas nem exactamente tristes, mas que são antes pura e simplesmente assim-assim.
Na poesia de Manuel de Freitas não há dramas invernosos nem tão-pouco exaltações estivais ou expectativas primaveris, há sim triviais constatações, que num qualquer tempo anterior, terão existido invernos frios, tempestuosos e desesperados, verões quentes alegres e excitantes, e primaveras que eram plenas de promessas. Todavia, tudo isso se foi embora, e o que resta agora é mesmo e unicamente uma vaga melancolia.
O que existe em dias assim-assim, não chega a ser um Inverno rigoroso, muito menos um Verão esplendoroso, e tão-pouco uma promessa de Primavera. Na verdade, estamos somente perante um clima vagamente melancólico, um tempo nem triste nem alegre, e também sem prometedores desejos e anseios. É esse o sentimento que nos traz a chuva miudinha e igualmente a poesia de Manuel de Freitas.
Digamos que na poesia de Manuel de Freitas e no dia de hoje, estamos numa espécie de Outono, mesmo que pelas contas do calendário, efectivamente não o estejamos.
Dito isto, vejamos um poema de Manuel de Freitas, onde se fala da atmosfera própria deste dia, em que nem há dramas nem alegrias, tão-somente a evidência de que o tempo passa e agora estamos no Outono, mesmo que oficialmente não seja essa a estação exacta:
É assim, amiga. Encontramo-nos
quando calha nos bares de antigamente,
deixando que sobre o tampo azul
das mesas volte a pousar
um baço cemitério de garrafas.
Constatamos o pior, os seus aspectos.
Corpos e livros que foram ficando
por ler na voracidade da noite de Lisboa.
De facto, crescemos em alccolémia,
acordamos tarde, em pânico,
e perdemos os dias e os dentes
com uma espécie de resignação.
(Não temos, ao que parece, serventia.)
Sorrimos um pouco, ao terceiro
gin, como quem renasce para a morte,
seus gestos de ternura ou de exuberância.
Talvez tenhamos calculado mal
o ângulo da queda, esta vitória
sem nobreza dos venenos todos.
Mas agora é tarde. Tudo fechou
para nós, para sempre. O amor,
o desejo, até o onanismo da destruição.
Antes de procurares a esmola
do último táxi, fica esta imagem
parada, a desvanecer-se
no frio mais frio da memória:
não dois corpos sentados a trocarem
medo, cigarros e palavras póstumas,
mas duas vezes nada, ninguém,
o silêncio da noite destronando
as cadeiras onde por razão nenhuma
nos sentámos. Os anos, amiga, passaram.
Em boa realidade, também poderíamos ter dito, que o tempo hoje está farrusco, isto ao invés de termos vindo para aqui falar-vos de melancolias.
Sim, a bem dizer, qual é a necessidade de usarmos palavras finas, se há outras que dizem o que há para dizer, sem se armarem ao pingarelho?
Nós gostamos da poesia de Manuel de Freitas, precisamente porque nos fala de coisas nada finas nem selectas, como por exemplo, de urinóis, de ruas velhas, de bactérias e de insectos.
As melhores horas da nossa vida,
as mais contentes, passámo-las
num urinol qualquer, vendo correr o mijo
capaz e fluente numa certeza de louça
branca, amarela ou cinzenta.
Instantes de pouca opressão,
cumprindo embora um estúpido dever,
desses do corpo, sob o silêncio infecto de Deus
- que talvez fosse aquele puxador
de autoclismo que um dia me ficou na mão,
numa taberna discreta ao Poço dos Negros.
Guardei-o ainda alguns meses, mas de Deus
como de um autoclismo, de tudo
acabamos por nos cansar. Até de poemas.
São ruas velhas assim, onde paira
a suposição grosseira de um urinol
divino e sombrio, que nos fazem aceitar
esta voraz forma de extermínio. O nosso,
incandescente, num apogeu de melancólicas
retretes onde os insetos e bactérias do acaso
nos distraem o olhar
embaciado pelo abuso da lixívia.
Uma lucidez pegajosa, toldando a idade
das mãos invariavelmente senis.
Como se bastassem, ou fossem mesmo
excessivas, certas baixas certezas de cão,
desastres menores. Sabendo-se de fonte
segura que o mijo pode ser um poema.
Um poema cansado do que antes foi vinho,
a suicidar-se agora - contente e tão triste -
no vazio evidente de uma louça
branca, amarela, sagrada.
Pequenas alegrias e no entanto as maiores,
essas mesmas que bastarão,
que terão de bastar,
no dia
em que formos
morrer.
Em tempos, concretamente em 1917, o mais iconoclasta dos artistas, Marcel Duchamp, decidiu expor um mero urinol, como sendo uma obra de arte. Foi uma autêntica revolução artística cujos efeitos perduram até ao dia de hoje.
São muitos os intelectuais que elogiam a ousadia estratégica de Duchamp, que com esse gesto inaugurou a arte conceptual. Já não serão assim tantos, os que vislumbram nessa atitude uma questão poética e existencial, de algum modo parecida à que pressentimos no melancólico (ou farrusco) poema de Manuel de Freitas, no qual o poeta se refere igualmente a um mero urinol.
Por assim ser, e para todos os que não vêem num urinol temas metafísicos, poéticos, existenciais e até religiosos, aqui ficam um conjunto de imagens, cujas afinidades certamente os ajudarão a reflectir.
Já todos terão adivinhado, que a poesia de Manuel de Freitas não se move pelos sítios mais higiénicos e assépticos deste mundo. Os lugares dos seus poemas são como o dia de hoje, ou seja, muito pouco definidos e um tanto ou quanto molhados, turvos, mal-apresentados e esborratados. Assim sendo, é natural que o poeta abomine centros comerciais, esses locais purificados, estéreis e desinfectados.
A esse propósito, aqui fica o poema “Centro Comercial I”:
Agora a morte é diferente,
facilitaram-nos o desespero, a angústia
tem já ar condicionado. Em vez
dos bancos de jardim, por certo demasiado
rudes, temos enfim lugares amplos
onde apodrecer a miséria simples do corpo.
Que incalculável felicidade a de percorrer
galerias de nada tresandando a limpeza
e segurança. Aí se abandonam jovens
rebanhos sentados sorrindo ao
vazio palpável, ou ferozmente no meio
dele. Revezam-se - mas quase diríamos
que são os mesmos ainda, exaustos
de contentamento. Dêmos pois as boas-vindas a esses
heróis do betão consagrado. Só eles nos fazem
acreditar no advento do romantismo cibernético.
É doce a merda que nos sepulta
e o cancro que um dia destes nos matará
há-de ser muito limpo, quase ecológico.
Se para o poeta Manuel de Freitas, um centro comercial é um anátema, uma taberna, daquelas antigas e que já quase não existem, é um sítio propício ao amor e à vida plenamente vivida.
Num poema intitulado “Cave Bar”, dedicado a uma certa Susana, o poeta fala-nos novamente da atmosfera própria deste presente dia, em que nem há dramas nem alegrias, mas tão-somente a evidência de que o tempo passa e de que agora estamos no Outono, mesmo que oficialmente não seja essa a estação exacta:
Há tabernas assim, de
desusada melancolia para estes
tempos que correm friamente.
Aqui estivemos algumas tardes,
bebendo martinis sob o azul sombrio
das paredes, junto ao lavatório
sujo e amarelecido. Quase
ninguém chegava para além de nós,
em silêncio e ranho exilados.
A disposição das mesas, a patroa
envelhecendo por detrás do
balcão, o som demasiado alto do rádio
– tudo nos fazia lembrar um livro,
demorada canção onde afinal
não pudemos caber.
Depois, apenas sozinho regressei
a este quieto lugar de sombra.
Abandono-me à mesma mesa, mas agora
é como o Verlaine de certa fotografia.
Como ninguém.
Subterrânea foi a nossa despedida.
Dizíamos no início deste texto, que hoje chove na capital e não com a violência de há uns dias, mas sim e apenas, uma intermitente chuva miudinha. Dizíamos também, que passeámos por Lisboa e pelas suas ruas levemente húmidas. Às portas das casas nos bairros mais antigos, vê-se gente que espera pelos seus Uber’s para as levar ao aeroporto, uma vez findado o “weekend break”.
Nos bairros antigos, são agora muitas as lojas modernas que vendem souvenirs de qualidade, produtos típicos, mas envoltos em design e tudo. Já não há tabernas onde nos abrigarmos da chuva miudinha e da melancolia, agora só há “wine-bar’s” higiénicos e assépticos.
“Wine-bar’s” onde não há dramas invernosos nem exaltações estivais ou expectativas primaveris, há sim simples turistas.
Nas tabernas de um qualquer tempo anterior, dava-se de beber à dor e havia momentos tempestuosos e desesperantes, alguns alegres e excitantes, e outros plenos de promessas, agora só há “happy hours”.
E com isto terminamos, não sem antes vos deixarmos mais um poema de Manuel de Freitas:
Um ovo estrelado com pão,
uma taberna sob impiedosa trovoada
quando a cidade anoitece e se ouve
qualquer relato decerto importante
em que o herói se chama Sporting.
Estas tabernas, lugares sombrios
onde sob o pouco aprumo dos tonéis
morreu ou foi morrendo um poeta
que os abutres da nação fazem questão
de aclamar. Tinto ou branco, vai sempre
dar ao mesmo, modo apenas de vomitar
uma ausência fulgurante.
Entretanto dizem-se aqui os “até amanhãs”,
celebra-se a calma metafísica de uma sopa
amornada e doente. São os mesmos que amanhã
cá estarão, vacilantes e anónimos, dizendo
de novo “até amanhã” para que a eternidade
se finja repetir. São os mesmos até mais ver,
a sopa, o ovo estrelado, o futebol, a
recusada tristeza de envelhecer.
E talvez viver seja isto, a cruel poesia
dos tonéis, o mármore de balcões engordurados,
este morrer
de um modo gentil, quase despercebido.
Não importa quem lembra as tabernas
que lentamente se apagam,
os versos tristes que as cantam.




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