Há dias faleceu um grande escritor português, António Lobo Antunes, hoje é Dia da Mulher. Parecendo que não, estes são dois assuntos que se cruzam. Com efeito, são muitos os estudos académicos e os livros, que se dedicaram a analisar as personagens femininas na obra literária do autor, como por exemplo, o ensaio de Ana Paula Arnaut, “As Mulheres na Ficção de António Lobo Antunes: (In)variantes do Feminino”..
Nós não possuímos competências académicas para análises literárias, no entanto, temos alguma curiosidade sobre o modo como o escritor via as mulheres, e portanto é acerca disso mesmo que neste dia vamos falar.
Os livros de António Lobo Antunes não são autobiográficos num sentido literal, todavia, são profundamente marcados por acontecimentos da sua vida, e o autor usou frequentemente na sua escrita memórias pessoais.
Sendo esse o contexto, as personagens femininas que criou, são evidentemente inspiradas por mulheres que o escritor conheceu na vida real e pelo modo como ele com elas se relacionou.
Em 2017, numa entrevista ao semanário Expresso, António Lobo Antunes disse o seguinte: “Eu era bonito que me fartava, bolas! As mulheres da idade da minha mãe metiam conversa comigo na rua. Era um assédio!”.
Por assim o ter dito, ficámos a saber que na sua primeira juventude, o escritor, que à época ainda não o era, seria desejado por mulheres, e até pelas já mais velhas. Ao contrário do que alguns possam eventualmente pensar, o ser-se desejado por mulheres não enche a maior parte dos homens de orgulho e vaidade mas sim de medo, para não dizer de terror.
Genericamente, nada assusta tanto os homens, do que ficarem expostos, ou seja, que os conheçam. Por norma, os homens são muito ciosos de quem são e nada os atemoriza mais que alguém os vislumbre e descubra o que os move por dentro e o que se passa na profundidade das suas almas.
São muitos os homens que têm receio das mulheres, e ainda mais das que os desejam, pois tal pode implicar que fiquem vulneráveis, que fiquem à mostra, e isso é coisa que temem mais do que tudo, mesmo que possam não o saber.
Atentemos numa outra passagem da entrevista de António Lobo Antunes, em que tudo isso fica muito visível: “Cheguei a ter uma mulher por dia, três ao fim de semana, e sabe como é que isso acabou? Comigo deitado numa cama sem ser capaz de me levantar. Eu tinha trinta anos e era uma maneira de impedir uma relação mais profunda".
Em boa verdade, os homens são vítimas psico-emocionais da sociedade em que cresceram e vivem, pois desde pequenos que são ensinados a esconder o que sentem e a nunca demonstrarem terem estados de alma.
Por consequência disso, os homens interiorizam em si mesmos a noção de que jamais se podem dar a ver e, assim sendo, ficam aterrorizados (embora não o mostrem) com a mera possibilidade de alguma mulher (pior ainda se forem muitas como no caso do jovem Lobo Antunes), os desejarem, se aproximarem e como resultado poderem vislumbrar o que lhes vai lá por dentro, pela alma.
De modo oposto, é muito fácil os homens relacionarem-se com outros homens, pois em tais circunstâncias todos estão em consonância, faz-se o que se tem a fazer, diz-se o que se tem a dizer e acabou-se a conversa.
Não é suposto no universo masculino, alguém nos vir cá com desabafos, com confidências íntimas ou com explosões sentimentais, entre homens é tudo muito pão-pão, queijo-queijo.
Esse universo masculino, era o do tempo em que António Lobo Antunes fez a tropa no antigo quartel de Mafra. Na tropa não se brincava e não havia a mais leve possibilidade de alguém se queixar, e menos ainda de falar sobre o que sente e do que lhe ia por dentro.
Ouçamos o escritor: Ainda hoje me aborrece passar por Mafra, e aqueles arredores todos por onde andei, de cadete, nos primeiros meses da desgraça que me levou, para os tiros de África. Suponho que foi o inverno mais horrível da minha vida. Com uma estrela no ombro e L. Antunes cosido no uniforme passei uma fominha de cão. O alferes de pé, braços cruzados, ordenando:
– Rastejar até mim
isto é até lhe tocarmos nas botas, uns por cima dos outros na lama das veredas. A falta de água que me fazia passar a semana inteira sem banho, o cheiro pestilencial das casernas, a brutalidade constante, nós sujos, desesperados, exaustos, o alferes a perguntar:
– A tropa é linda?
e a gente em coro, jurando-lhe pela mãezinha:
– É
Abaixo uma foto de Antonio Lobo Antunes ao tempo em que era militar.
Em termos genéricos, os homens não gostam de mulheres, ou melhor dizendo, gostam mas só desde momento em que estas não queiram saber quem eles são no seu íntimo, e se porventura as mulheres se limitarem a cumprir as funções que lhes são atribuídas sem demais considerações.
No livro “O Tratado das Paixões da Alma”, o personagem Tavares diz o seguinte: “Os homens podem não ser grande coisa mas se as mulheres só existissem a partir das onze, deitadinhas no colchão e a dormir, sem nos aborrecerem com solicitudes, ternuras e batom, garanto que era facílimo viver”.
Neste como noutros romances de Lobo Antunes, dos homens espera-se que sejam activos, duros e impassíveis, e quanto às mulheres espera-se que sejam fracas, submissas, gentis e solícitas.
Há um personagem feminino de Lobo Antunes, que não foi particularmente agraciada pela beleza, mas que anda assim se casou. Ao seu homem questionam-no frequentemente sobre o motivo por que se casou com ela: “se lhe perguntam, e não há dia em que não lhe perguntem, porque casou comigo, responde que aprendeu à sua custa, desde criança, que aquilo que um homem necessita na vida é uma criada ou uma governanta em condições, estrábica ou coxa mas em condições”.
Essa noção presente no universo ficcional de Lobo Antunes de que os homens precisam é de uma governanta ou criada, demonstra que estes atribuem às mulheres o papel de serem servis, e por isso as convertem em propriedade sua, seres “em gaiola de grades inexistentes”.
Não há que confundir o homem António Lobo Antunes, com os personagens masculinos por si criados, são coisas distintas. Com efeito, ao contrário de muitos dos seus personagens homens, o autor jamais advogou que às mulheres cumpririam serem apenas submissas, gentis e solícitas, e também nunca quis ser proprietário ou ter numa gaiola uma governanta ou criada.
Na realidade Lobo Antunes elogiou a força e coragem das mulheres: “São muito mais fortes do que os homens. Aguentam muito melhor a solidão. São mais corajosas diante da doença. Vi isso quando estava a fazer quimioterapia.”
Lobo Antunes não só elogiou a força e coragem das mulheres, como também admira a sua inteligência, “São precisas muitas mulheres para esquecer uma mulher inteligente”, afirmou ele um dia.
“Não entres tão depressa nessa noite escura” é um romance de Lobo Antunes cujo personagem principal é Maria Clara, uma professora de cinquenta e dois anos. A docente é uma daquelas mulheres que ao longo dos anos foram aparecendo na obra do escritor, ou seja, seres femininos frágeis, submissos, gentis e solícitos.
Maria Clara não é certamente como aquelas mulheres da idade da mãe do jovem Lobo Antunes que na rua metiam conversa com ele e o assediavam. Maria Clara cumpria o seu papel, como uma governanta ou criada cuidava do seu marido. Maria Clara não é uma mulher que metesse medo aos homens, pois sabia limitar-se à sua gaiola.
Nisto o marido deixou-a. Mas mais do que isso, há muito que estava requisitada pelo Ministério da Educação para serviços administrativos, mas a requisição acabou e tem agora de regressar às salas de aulas. Para cúmulo, o seu pai adoeceu gravemente, cabendo-lhe a ela ser a sua cuidadora.
Maria Clara em tempos conheceu um homem e gostou dele, todavia, deixou-se enredar nas funções e obrigações que outros lhe atribuíram, e nunca soube ser a mulher que era. Agora recorda o que poderia ter sido e limita-se a lamentar-se de ser quem é:
“Gostei de ti logo no primeiro minuto só que não sabia o que fazer desde que
o meu marido me trocou por, desde que o meu marido se foi embora, eu estava morta, percebes, morta, tudo defunto em mim, quando a requisição no Ministério acabou pensei, sem tristeza nem alegria, porque cá dentro nem tristeza nem alegria, indiferença, lá vou ter que suportar aulas de novo, criaturas à minha frente que se não darão ao trabalho de ouvir o que digo e o que posso dizer que lhes interesse, vão à escola porque têm que ir à escola, não escutam, não aprendem, não sabem falar quanto mais escrever, cochichos, empurrões e eu sozinha diante deles como sozinha em casa, nem os via, palavra, debitava a matéria enquanto assuntos sem relação com o trabalho e sem relação entre si apareciam e desapareciam à medida que a minha boca continuava a mover-se, a fatura do gás, por exemplo, de que deixei passar o prazo e agora tenho que ir à companhia e aguentar horas na fila antes que me fechem o contador, um dente lá atrás a aborrecer-me, a minha madrasta, há muitos anos, foste tu que partiste o bâmbi e foi o braço, sem querer, que o expulsou da cómoda…”
Terminamos este nosso texto que cruza o Dia da Mulher com a escrita de António Lobo Antunes, com uma frase de uma outra personagem. Desta vez de Fátima, que aparece no romance “Exortação aos crocodilos”, que a determinado momento diz assim: “as pessoas acreditarem que eu sou eu, confundirem esta estranha comigo, o que aconteceria se lhes aparecesse tal como sou de facto, outra cara, outras mãos, outro queixo, outra boca, outra voz”.
Nós não sabemos o que aconteceria a Fátima se por acaso mudasse, no entanto desconfiamos que a generalidade dos homens ficariam cheios de medo.






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