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É proibida a leitura deste texto a quem não andar espantado de existir


Espantem-se todos, pois nós sabemos, que no seu mutismo de pedra (ou de um outro qualquer material), muitas são as esculturas que se movimentam e falam. Fazem-no quando os humanos estão ausentes, à noite, no escuro ou em dias em que não há ninguém por perto.

Ao anoitecer, no Museu do Louvre, as esculturas ganham vida quando as portas se encerram e os últimos visitantes saem. Uma delas, cansada de ser uma mera estátua ornamental, fugiu do museu para ir conhecer a vida nas ruas de Paris.


O passeio por Paris não lhe correu bem, pois a escultura foi apanhada numa manifestação política, onde ocorreram violentos desacatos. A polícia interveio, e ela acabou por se partir. Ainda assim, conseguiu com muito esforço regressar ao museu, mas já lá dentro desequilibrou-se e caiu, quebrando-se em mil pedaços.

Vejamos o momento em que a escultura ganhou vida, ou seja, o antes de todas estas desventuras lhe sucederem:


Este espantoso acontecimento é-nos narrado na curta-metragem de Gabriel Abrantes, “Les extraordinaires mésaventures de la jeune fille de pierre”, que pode agora ser visto no Centro Cultural de Belém em Lisboa.

A dado momento do filme, a jovem rapariga de pedra diz-nos que “j'aimerais être quelqu'un d'autre”. E sim, nós compreendemos que assim o seja, pois de facto há de ser imensamente maçador ser-se apenas e para todo o sempre quem se é, no presente caso, uma mera escultura ornamental. Vejamos o trailer:


Mas se a vida da “jeune fille de pierre” era absurdamente banal, imagine-se como será a existência de uma escultura, como por exemplo, a do Marquês de Pombal, que está na praça com o mesmo nome, bem no centro da capital.

Haverá porventura algo de mais entediante, do que passar permanentemente o tempo num pedestal, no meio de uma rotunda, onde a única coisa que se vê são automóveis a circular de lá para cá e de cá para lá?

Quem quer que tenha tido a ideia de aprisionar a escultura do Marquês de Pombal lá no alto, condenou-a a uma pena terrível, ou seja, a mais não fazer do que ficar a ver carros a passar.

Para mais, a estátua do Marquês de Pombal pode olhar para o lado e ver mesmo ali próximo o Shopping Amoreiras, onde sem ninguém ver, poderia ir às compras para se entreter. Todavia, o seu cruel destino é o de ficar a pensar, “O Amoreiras fica aqui tão perto da minha casa e eu sem poder lá ir”.

Abaixo uma espantosa foto da época em que ainda não existia nem escultura, nem trânsito, nem Amoreiras. Nesse tempo, o sítio da actual Rotunda ficava longe de tudo!


Falemos de uma outra escultura lisboeta, cuja existência, tal como a do Marquês, não é maravilhosa, a de Santo António na Praça de Alvalade.

É sabido que os lisboetas adoram o Santo António, desde a Sé até à Graça, passando por Alfama, pela Mouraria ou pela Madragoa, são muitos os pequenos nichos com altares dedicados ao dito santo.

Bem perto da Sé, ergue-se a Igreja de Santo António, construída no local de nascimento do santo. No largo defronte da igreja, existe uma escultura de ferro que representa o santo com o Menino Jesus. É comum ver pessoas a tentar lançar moedas para o livro que o santo segura, fazendo pedidos para que ele aceda e faça um milagre que concretize os seus pedidos para lhes arranjar um namorico ou mesmo um casamento.

Em época de festas dos santos populares, chegam a ser autênticas romarias as que se dirigem à escultura do santo. Sendo tanta a devoção ao Santo António, percebe-se mal por que razão todos são indiferentes à sua estátua na Praça de Alvalade.

Em boa verdade, colocarem uma escultura do Santo António na Praça de Alvalade foi uma pura maldade. Com efeito, o santo é uma figura que pertence à intimidade e ao aconchego, ou seja, aos pequenos altares colocados em nichos ao longo da cidade, ou ao abrigado e diminuto largo onde as gentes lhe vão fazer pedidos. Largo que fica mesmo diante da também pequena igreja que ostenta o nome de Santo António.

Na Praça de Alvalade, o santo está desabrigado, na confluência de várias movimentadas avenidas e, como se tudo isso não bastasse, para se chegar perto da sua escultura tem de se atravessar a estrada e ficar numa desenxabida plataforma, onde se está rodeado de automóveis por todos os lados.

A verdade é que os lisboetas não encontram o seu santo íntimo, próximo, e quase de trazer por casa, na escultura da Praça de Alvalade. Quem quer que o tenha posto ali, agiu por despeito e com más intenções. Provavelmente terá sido algum funcionário camarário, que despeitado pelo santo não lhe ter arranjado um namorico, condenou a sua escultura àquele inóspito lugar.

Bem recentemente, também alguém a quem o Santo António certamente não fez favores, decidiu rodear a estátua do santo com coloridos vasos redondos e rectangulares.
Segundo a imprensa, o objectivo oficial da Junta de Freguesia com esta inusitada intervenção, foi evitar a aproximação dos lisboetas à estátua do santo de quem se sente mais próximo. O projecto contou com a colaboração entusiástica de muitos funcionários da junta, incluindo sete assessores.

Apesar do proclamado objectivo oficial, nós por aqui estamos desconfiados, que o pessoal da junta de freguesia se quis vingar do santo por este não ter atendido aos seus pedidos de namoricos.


Aqui chegados, já vimos as tristes histórias de um trio esculturas, a da “jeune fille de pierre”, a do Marquês de Pombal e a do Santo António da Praça de Alvalade. Este é portanto o momento de irmos a narrativas de esculturas mais felizes, a umas quantas que nos provoquem um alegre espanto por existirem e estarem vivas.

Regressemos ao Centro Cultural de Belém, mas sem entrarmos no seu interior. Fiquemo-nos por um pequeno mas jeitoso jardim, situado num terraço com vista para o Mosteiro dos Jerónimos.

Nesse jardim encontramos uma escultura de Niki de Saint Phalle, pseudónimo da artista que é desde logo todo um programa. A escultura intitula-se “Les Baigneuses”.


A escultura de Niki de Saint Phalle celebra a feminilidade e a alegria, representando figuras curvilíneas que simbolizam a liberdade. As imponentes figuras como que são ecos das Vénus do Paleolítico, e reivindicam uma forma de poder feminino alegre, fértil e livre. Muito nos espantaríamos, se quando os humanos estão ausentes, à noite, no escuro ou em dias em que não há ninguém por perto, elas não descessem ao Tejo ali perto, para, qual tágides, se banharem nas suas águas.

Nesse mesmo jardim, num terraço com a referida vista para o Mosteiro dos Jerónimos, encontramos uns passos mais à frente uma outra escultura, esta é de Henry Moore e intitula-se “Reclining Figure: Arch Leg”.


A escultura de Moore usa formas orgânicas e fluidas em vez de uma anatomia rígida. A figura tanto evoca um corpo reclinado, uma cordilheira ou igualmente uma mãe e o seu filho. O facto é que também nos espantaríamos, se esta escultura não se movimentasse, falasse e agisse como se estivesse viva.

Voltemos à escultura de “la jeune fille de pierre”, pois na realidade a sua história não terminou de forma triste. Após se ter quebrado em mil pedaços, os especialistas do Museu do Louvre conseguiram reconstrui-la.

Uma vez reconstruída, partiu para a América, acompanhada por uma outra escultura do Museu do Louvre, uma pequena peça do tempo dos faraós egípcios, um hipopótamo serenamente filósofo de seu nome Jean-Jacques.

Espantem-se os leitores, pois por improvável que vos possa parecer, “la jeune fille de pierre” e o hipopótamo têm uma existência feliz, vivendo alegremente entre Nova Iorque e Miami, e noutros sítios da América.

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