
Oslo não é de todo em todo, um destino evidente para viajantes. Quem procura lugares históricos e elegantes tenderá a escolher Paris, Roma ou Viena, já quem os busca mais exóticos, preferirá Marraquexe ou coisa do género, a Oslo poucos vão.
São também poucos os génios artísticos, literários ou musicais ao longo da história, que são originários de Oslo, todavia, nos últimos tempos, essa urbe nórdica ganhou um destaque cultural internacional, que nunca antes tinha tido.
As figuras mais relevantes de Oslo terão sido o sombrio dramaturgo Henrik Ibsen (1828-1906), cujas peças retratam os profundos conflitos psicológicos dos seus personagens; o romancista Knut Hamsun (1859-1952), Prémio Nobel da Literatura em 1920, cujo mais célebre livro “Fome”, nos conta a história de um personagem que deambula pela cidade e é dado a delírios, a alucinações e a violentas variações de humor; e finalmente Edvard Munch (1863-1944), o famoso pintor de “O Grito”.
Abaixo uma imagem da mais movimentada e animada artéria de Oslo, cuja autoria é de Edvard Munch.

Se durante longas décadas ninguém ligou patavina à Noruega e ainda menos a Oslo, a sua capital, actualmente tudo é diferente, todas a premeiam e distinguem. Em 2023, o escritor Jon Fosse recebeu o Prémio Nobel da Literatura com obras que mergulham a fundo em temas existenciais, como o sentido da vida e da morte, a solidão e a espiritualidade, sendo que a sua inovadora escrita, dá uma espécie de voz ao indizível.
Um outro escritor norueguês, Karl Ove Knausgård, nascido em Oslo em 1968, tornou-se uma estrela literária universal, com uma série de seis volumes em que nos conta a sua infância, a sua adolescência, a sua vida adulta, as suas relações familiares, os seus amores e o processo de se tornar e de ser escritor.
Knausgård descreve a sua vida com uma honestidade brutal e um detalhe obsessivo, desde as humilhações da infância até aos desafios da paternidade e do seu percurso como escritor. Mistura o quotidiano mais banal (como lavar a loiça ou mudar fraldas) com profundas reflexões sobre a arte, a morte e a identidade.
O título da série é o mesmo que o do livro do Hitler “A Minha Luta” (Mein Kampf), facto que gerou uma grande polémica mediática. A obra causou enormes conflitos familiares porque Knausgård expôs pessoas reais sem filtros, especialmente o seu pai alcoólico.
Knausgård é um fenómeno literário mundial, tendo se transformado numa autêntica "star" da literatura contemporânea.
Aqui fica a contabilidade para quem se quiser aventurar a ler os seis volumes de “A Minha Luta”:
Livro 1: A Morte do Pai – 400 páginas.
Livro 2: Um Homem Apaixonado – 600 páginas.
Livro 3: A Ilha da Infância – 450 páginas.
Livro 4: Dança no Escuro – 500 páginas.
Livro 5: Alguma coisa tem de chover – 650 páginas.
Livro 6: O Fim – 1.056 páginas.
Abaixo uma foto de Karl Ove Knausgård em sua casa, enquanto bebe um café.

Assim sendo, o facto é que duas das maiores figuras literárias da actualidade, Jon Fosse e Karl Ove Knausgård, são norueguesas. Contudo, o destaque cultural que a Noruega e Oslo, a sua capital, têm no presente, não se limita à literatura.
Snøhetta é o nome de uma firma de arquitectura, que espantou o mundo com o seu espectacular projecto para a Ópera de Oslo. A estrutura do edifício assemelha-se a um glaciar que emerge do fiorde. A cobertura inclinada e totalmente transitável, funciona como uma praça pública elevada, na qual os passeantes caminham, contemplam as vistas da cidade e, ao longe, avistam os mares Báltico e Nórdico.
A estrutura do edifício pretende também simbolizar a democratização da cultura e o fácil acesso de todos os cidadãos à música e à arte.
Em síntese, a firma norueguesa Snøhetta é hoje em dia considerada como uma das mais criativas e inventivas de todas as que existem, tendo-lhe sido atribuída a concepção de edifícios tão importantes como a nova Biblioteca de Alexandria no Egipto, a Grand Opera de Xangai na China, o Museu Nacional do 11 de Setembro em Nova Iorque ou o Museu do Sexo (MoSex) em Miami, Flórida.
Abaixo uma foto da Ópera de Oslo, que se ergue mesmo à beira das gélidas águas do fiorde, num dia de Inverno.

A presente pujança cultural de Oslo e da Noruega, estende-se também ao cinema. Com efeito, ainda bem recentemente, na cerimónia dos Óscares de Hollywood, o filme norueguês “Valor Sentimental”, realizado por Joachim Trier, apresentou-se com nove nomeações, incluindo Melhor Filme, Melhor Realização, Melhor Argumento Original e várias categorias de representação (Melhor Atriz, Melhor Ator/Atriz Secundária).
É raríssimo que um filme não falado em inglês seja nomeado para as principais categorias dos Óscares, mas isso sucedeu com “Valor Sentimental”. Como era mais que previsível, a película norueguesa venceu apenas o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, pois como é habitual, os óscares principais ficam sempre em casa, em Hollywood, mesmo que com frequência os filmes sejam uma autêntica xaropada.
O filme norueguês já antes tinha conquistado o Grande Prémio em Cannes e o Prémio de Melhor Filme Europeu do Ano, entre outros.

Como não podia deixar de ser, uma vez que o filme é norueguês, a história fala-nos de traumas psicológicos, de conflitos interiores, de confrontos familiares e dos seus consequentes ressentimentos.
Joachim Trier, o realizador, é amigo de Karl Ove Knausgård, o escritor, e ambos conceberam um documentário sobre Edvard Munch, o pintor, cujo título era The Other Munch (Den andre Munch).
Do cineasta Joachim Trier, nós gostámos particularmente de dois dos filmes, que compõem a chamada trilogia de Oslo, a saber: “Oslo 31 de Agosto” e “A Pior Pessoa do Mundo”.
Comecemos pelo primeiro. O personagem principal de “Oslo 31 de Agosto” é Anders de 34 anos. Após uma longa ausência de Oslo, Anders regressa à cidade onde cresceu. Vagueia por as ruas, reencontrando o seu passado e os antigos amigos, e tentando entrever a possibilidade de recomeçar a sua vida. Uma coisa Anders sabe, ainda que lhe custe aceitá-la: a juventude passou.
Anders e Thomas eram amigos, mas não se viam há anos. Anders foi visitar Thomas a sua casa. Uma vida perfeitamente normal, a de Thomas: família, emprego, rotina. "Sei que a minha vida não é nada de especial, mas é porreira, cá vou andando". Anders respondeu-lhe: "Se a minha vida não for fantástica, então não serve para nada."
Na verdade, o reencontro de Anders com os sítios onde cresceu, com os seus antigos amigos e com familiares que há muito não via, nada o animou, antes o oposto. Anders sente-se um estranho diante da vida adulta comum, pois sabe que ela é tão-somente feita de desejos abandonados e de sonhos que mais não são do que meras quimeras.
Quando se senta na mesa de um café, Anders escuta as conversas banais, vazias e vulgares. Numa mesa próxima, alguém, uma jovem adulta, diz o que pretende para a sua vida. Anders sabe que todo esse discurso é apenas um tagarelar sem sentido nem futuro.
Transcrevemos essa passagem, toda ela plena de desejos que alguém crê serem interessantes, intensos e autênticos, mas que na realidade são apenas uma panóplia de quereres vulgares, vazios e banais: “Quero casar, ter filhos. Viajar pelo mundo. Comprar uma casa. Ter férias românticas. Comer gelado uma vez por dia. Morar num outro país. Atingir e manter meu peso ideal. Escrever um bom romance. Manter contacto com os velhos amigos. Quero plantar uma árvore. Preparar jantares deliciosos. Sentir-me completamente realizada. Tomar banho no gelo, nadar com golfinhos. Ter uma festa de aniversário, uma festa de verdade. Viver até os cem anos. Permanecer casada até morrer. Enviar uma mensagem emocionante numa garrafa e receber uma resposta igualmente interessante. Superar todos os meus medos e fobias. Ficar deitada a observar as nuvens um dia inteiro. Ter uma casa antiga cheia de quinquilharias. Correr uma maratona completa. Ler um livro tão bom que eu me lembre das citações para o resto da vida. Pintar quadros deslumbrantes que mostrem como me sinto. Cobrir uma parede com pinturas e palavras que tocam meu coração. Ter todas as temporadas das minhas séries favoritas. Chamar a atenção para uma questão importante, fazer que as pessoas me ouçam. Saltar de paraquedas, nadar nua, pilotar um helicóptero. Ter um bom emprego. Quero um pedido de casamento romântico e único. Dormir sob o céu aberto. Actuar num filme ou numa peça no Teatro Nacional. Ganhar uma fortuna na lotaria. Criar objetos úteis para o dia a dia. E ser amada.”
O outro filme da trilogia de Oslo de que muito gostamos, é de “A Pior Pessoa do Mundo”. A história acompanha quatro anos da vida de Julie, uma jovem prestes a fazer 30 anos que se debate sobre qual será o seu caminho profissional e amoroso. Inicia e desiste de diversos cursos (medicina, psicologia, fotografia), vive dilemas existenciais e alterna entre vários amores, tudo isto enquanto se sente sempre como “uma espectadora da sua própria vida".
Numa entrevista, Joachim Trier sintetizou a intenção que move as suas películas “Nos meus filmes, tenho falado sempre da dupla vergonha de fracassar, ao não se conseguir fazer aquilo para que se tem talento no contexto de uma vida privilegiada num dos países mais ricos do mundo, e de não ter razões de queixa. Fracassar na Noruega é uma dupla vergonha: com o mundo como está, nós tínhamos obrigação de ser felizes. Porque é que não somos?"
Apesar da questão levantada por Joachim Trier, nós por cá estamos desconfiados que ao longo da sua história, os noruegueses nunca foram tão felizes como o são agora, porém, também não podem querer que tudo na vida lhes corra bem, há de sempre haver uma coisinha ou outra para maçar e chatear, afinal de contas, por muito próspero que um povo seja, ainda assim é feito de pessoas.
E pronto por aqui acabamos esta nossa passeata pela Noruega. Terminamos em Oslo, que há uns poucos anos era uma cidadezinha sem particular interesse, e que neste entretanto se tornou um polo cultural internacional e um sítio super-cool. Abaixo uma foto do novo Munch Museum, bem junto ao mar.

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