Quando vemos, ouvimos e lemos notícias, os assuntos são os mais variados, num momento fala-se de um conflito bélico, no instante seguinte de um debate no parlamento e logo depois dos resultados dos jogos da bola.
Num mero quarto de hora ou lado a lado nas páginas de um jornal, noticia-se de enfiada o número de mortos de um dia de guerra, a acesa troca de palavras entre os deputados e os golos marcados pela equipa X ao clube Y e vice-versa.
Nós neste blog não somos nada assim, tão fúteis e superficiais e sempre a saltar de assunto para assunto, quando nos debruçamos sobre um tema, escrevemos abundantemente sobre ele, tentamos pois ser intensos, exaustivos e profundos.
Em boa verdade, não somos assim tão intensos, exaustivos e profundos. Chegámos a esta conclusão ao lembrarmo-nos de George Perec, romancista francês que escreveu o livro “Tentativa de Esgotamento de um Local Parisiense”.
No Outono de 1974, o grande escritor Georges Perec instalou-se por três dias num café na Praça Saint-Sulpice em Paris. Anotou tudo o que via, as pessoas que por ali andavam, os veículos, os animais, as nuvens, o passar do tempo. Fez listas de tudo o que ocorria, e mesmo dos factos mais insignificantes da vida quotidiana de uma cidade, por fim, registou também o que acontece quando não acontece nada.
O Café de la Mairie ainda hoje existe, havendo muitos turistas que gostam de se sentar no lugar onde outrora George Perec se instalou no Outono de 1974, para repetir a experiência que deu origem ao clássico da literatura francesa, “Tentativa de Esgotamento de um Local Parisiense”.
Posto isto, que intensidade ou profundidade teremos nós, quando comparados com o enorme George Perec? Pouca, quase nenhuma, claro está. Vejamos um excerto de “Tentativa de Esgotamento de um Local Parisiense”, abaixo transcrito na sua língua original. Nesta passagem, passam sobretudo autocarros, o 87, o 86, o 70, o 63 e o 96:
Trois personnes attendent près de l’arrêt des taxis. Il y a deux taxis, leurs chauffeurs sont absents (taxis capuchonnés).
Tous les pigeons se sont réfugiés sur la gouttière de la mairie.
Un 96 passe. Un 87 passe. Un 86 passe. Un 70 passe. Un camion «Grenelle Interlinge » passe.
Accalmie. Il n’y a personne à l’arrêt des autobus.
Un 63 passe. Un 96 passe.
Une jeune femme est assise sur un banc, en face de la galerie de tapisseries « La demeure » elle fume une cigarette.
Il y a trois vélomoteurs garés sur le trottoir devant le café.
Un 86 passe. Un 70 passe.
Des voitures s’engouffrent dans le parking.
Un 63 passe. Un 87 passe.
Il est une heure cinq. Une femme traverse en courant le parvis de l’église.
Vejamos uma outra perspectiva do Café de la Mairie, na Praça Saint-Sulpice em Paris.
Mas não abandonemos ainda este tema, vejamos agora uma foto de George Perec sentado na mesa do Café de la Mairie em 1974, seguida de uma foto desse mesmo local na actualidade.
Digamos que neste momento, o tema Perec e o seu livro “Tentativa de Esgotamento de um Local Parisiense” está esgotado.
Está esgotado para nós entenda-se, que somos gente pouco intensa, exaustiva e profunda. Na verdade, esse tema é inesgotável e poder-se-ia muito bem estar dias, quiçá até anos ou mesmo uma vida inteira, a escrever exclusivamente sobre esse assunto.
Aqui chegados, a única conclusão a retirar, é a de que afinal somos bem mais aparentados com um telejornal, do que inicialmente pensávamos. Sim, também nós não conseguimos andar para frente sem frivolamente saltarmos de notícia em notícia e de assunto em assunto. Assumamos então a nossa futilidade e superficialidade, aceitemos que não somos nenhum Perec e andemos de tema em tema de forma leviana e vã.
Comecemos por um assunto que muito despertou a nossa curiosidade, um psicólogo que enche estádios. O homem é argentino, tem 64 anos e chama-se Gabriel Rolón. Com mais de 2,5 milhões de livros vendidos, ele é um dos autores mais lidos de toda a América do Sul.
Os seus livros são baseados em conversas reais e deles foram feitas adaptações quer para o cinema, quer para a televisão. Escreveu títulos como "La Felicidad", “El Duelo” ou "La Soledad”. Aqui o vemos abaixo, num estádio completamente esgotado.
Nós não vamos aprofundar esta notícia até porque nos limitámos a ler as primeiras linhas do artigo de jornal e nada mais, porém, e ainda assim, ficámos a saber que Gabriel Rolón tem um podcast que se chama “Diez ideas (impopulares) para ser feliz”, e que nesse contexto fez a seguinte afirmação: “El arte y el humor son dos herramientas fundamentales con las que un ser humano puede darle un sentido a algo que no lo tiene.”
Apesar dos livros de Gabriel Rolón nunca terem sido editados em Portugal, todos eles estão disponíveis nas principais livrarias nacionais. Nessas mesmas livrarias, “Tentativa de Esgotamento de um Local Parisiense” está indisponível ou esgotado.
De repente, vá-se lá saber porquê, veio-nos à mente o Japão. Não toda a nação nipónica, mas apenas e sim o pequeno bairro de Tóquio, de seu nome Jimbocho.
Ao passearmos por este bairro constatamos que nele existem mais de 180 livrarias, muitas delas de livros usados, que exibem os seus acervos na rua, transformando a área numa espécie de feira de livros a céu aberto. É também em Jimbocho que anualmente acontece o Festival de Livros Usados de Kanda, que celebrou no ano passado a sua 65ª edição.
Jimbocho é o bairro perfeito para leitores e escritores, mas como todos sabemos onde há livros tem também de haver cafés. O que seria de Fernando Pessoa sem os seus cafés? E sem o Café de la Mairie, jamais George Perec teria escrito “Tentativa de Esgotamento de um Local Parisiense”, quanto ao psicólogo Gabriel Rolón, sabemos que o renomado autor partilha as suas reflexões mais informais em momentos a que chama “coffee time".
Jimbocho tem cafés como o Milonga Nueva onde se tocam tangos em aparelhagens vintage de alta fidelidade, tem muitos cafés com um toque retro, conhecidos como os kissaten, tem The Big Boy, um pequeno estabelecimento dedicado ao jazz em discos de vinil que serve whiskey’s locais, o Kazuma Coffee Shop onde se fuma abundantemente e onde o café é preparado em pequenas cafeteiras de filtro e servido em porcelana inglesa. Em resumo, Jimbocho tem de tudo.
A um quarto de hora de Jimbocho situa-se a Embaixada de Portugal no Japão, no bairro de Nishiazabu. Mesmo à entrada do edifício, temos um retrato de Camões, realizado pelo artista português Vhils.
Prossigamos esta nossa superficial, frívola e fútil deriva por os mais variados assuntos, falando acerca de uma notícia que muito nos apraz. Então não é que o actual presidente da nossa república, o Professor Marcelo, decidiu encomendar o seu retrato oficial ao Vhils.
Não deixa de ser um tanto ou quanto surpreendente, que o sério retrato, fique a cargo de um artista tão pouco institucional. Abaixo o esboço a carvão, que servirá para Vhils produzir a imagem oficial de Marcelo Rebelo de Sousa, que será feita à base de recortes de jornais e que figurará, para a posteridade, no Museu da Presidência.
A ideia de Vhils é usar recortes de jornais com notícias dos dez anos que durou a presidência do Professor Marcelo. Assim sendo, uma vez concluída a obra, teremos lado a lado notícias dos mais variados assuntos, tanto de conflitos bélicos, como de debates no parlamento e também dos resultados dos jogos da bola.
E pronto, terminamos com o Presidente Marcelo este nosso superficial, frívolo e fútil texto.








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