São
muitas as preocupações existentes com o controle das mentes. Diariamente há
quem escreva, comente e alerte como através dos seus poderosos algoritmos, as
grandes corporações digitais tentar influenciar e controlar o que sentimos e
pensamos e o modo como vivemos.
Actualmente
já praticamente toda a gente está consciente de que a sua mente é bastante
permeável às mensagens e imagens que continuamente perante si desfilam nos mais
diversos ecrãs.
Poucos
não saberão agora, que grande parte dessas imagens e mensagens, por muito
inócuas e inocentes que possam parecer, têm como objectivo moldar-nos o
pensamento, reconfigurar o que sentimos e determinar a nossa forma de vida,
seja a nível individual ou colectivo.
Começam
agora a surgir medidas legislativas para afastar crianças e jovens dos ecrãs,
de modo a que as suas mentes não sejam precocemente influenciadas por mensagens
e imagens nefastas, que lhes poderão provocar danos permanentes.
Mas
se com as mentes já há muitas preocupações e receios, com os corpos parece não
existirem tantas assim. No entanto, se há quem procure influenciar e dominar as
mentes com o intuito de obter poder ou lucro, também há quem o mesmo faça com
os corpos.
Abaixo
uma imagem do filme “Metropolis” na qual se veem operários a dirigirem-se
ordeiramente para os seus postos de trabalho.
Em
boa verdade, a ambição de controlar mentes e corpos é muito antiga. Reis,
tiranos, generais, sacerdotes e outros mais, desde sempre tentaram dominar os
corpos e mentes, todavia, a diferença existente neste nosso tempo, é que
actualmente existem meios tecnológicos altamente eficazes para se o conseguir
fazer, meios esses que nunca existiram ao longo da história da humanidade.
Controlar
a mente ou o corpo de outros é quase a mesma coisa, pois frequentemente quem
controla o corpo controla também a mente e vice-versa.
Há
agora muitos receios relativos ao controle das mentes, no entanto, o controle
dos corpos parece não provocar nas sociedades actuais igual nível de ansiedade
e temor.
Dito
isto, neste nosso texto de hoje vamos dedicar-nos ao controle dos corpos, coisa
que, em grande medida, é afim ao controle das mentes, pois as mentes não
existem senão num corpo.
Abaixo
uma foto da autoria de Leni Riefenstahl, na qual observamos atletas femininas
nazis, durante os Jogos Olímpicos de 1936 em Berlim.
Aos
dias de hoje, o controle dos corpos não se faz pela força e pela violência, mas
sim pela divulgação de mensagens e sobretudo de imagens, em que se propaga
insistentemente uma certa ideia do que é um corpo ideal e perfeito.
Esse
ideal de perfeição corporal, assenta quase exclusivamente no comércio. O corpo
perfeito é muito lucrativo, dá dinheiro a muita gente, a empresas de
cosméticos, a farmacêuticas, à indústria da moda, a ginásios, a “influencers”,
a quem vende produtos “light” e a muita gente mais.
A
esse propósito, atentemos num dizer de Diana Niepce, bailarina e coreógrafa, que em dado
momento da sua vida sofreu um acidente que a deixou tetraplégica: “Para quê estandardizar o corpo para o expor numa
prateleira na esperança da venda? Como se viver não fosse mais do que vender um
corpo. Demasiado gordo, demasiado magro, demasiado grande, demasiado pequeno,
demasiado claro, demasiado escuro, demasiado belo, demasiado desfigurado, o
tudo para nada. Até o corpo se tornar novamente imperfeito e ser esquecido no
pó da prateleira.”
São
muitos os corpos do nosso tempo que se esforçam, se rebolam, se arrastam e se contorcem,
tentando assemelhar-se à imagem de perfeição que lhes é vendida em revistas,
filmes, videoclips, anúncios publicitários e posts nas redes sociais.
É
assim que os corpos actuais são controlados, ou seja, convencendo-os que têm de
sofrer para serem perfeitos, coisas que na realidade, jamais serão.
A
ideia que nos vendem sobre perfeição corporal assenta num equívoco, ou seja,
tenta obliterar o facto de que um corpo tem também um interior. Significa isto que
nenhum corpo é tão-somente um exterior, uma imagem ou uma superfície.
Há
quem esteja convencido que pode desenhar o seu corpo, como se desenhasse na
superfície de uma folha de papel em branco, contudo, a realidade é que cada
corpo contém dentro de si, no seu interior, órgãos, fluídos, ossos e vísceras.
As
imagens de corpos perfeitos são apenas isso, imagens, superfícies. O corpo real
e verdadeiro é também tudo que no seu interior vive, se revolve, se contorce e
se agita, sendo que, muito do que se passa na parte de dentro de um corpo tem
sempre algo de grotesco e monstruoso.
Atentemos
novamente no que diz a coreógrafa Diana Niepce: “O monstro mostra o interior do corpo ou, antes, é o resultado do
revirar da pele do corpo normal, da transformação deste em corpo de órgãos
aparentes que proliferam desordenadamente. Corpo decomposto em órgãos e órgãos
à flor do olhar – o horror que tal espetáculo provoca prova que os órgãos não
são para ser vistos, mas apenas pensados. A transparência do corpo do monstro é
isto: o interior visceral à flor da pele.”
Entre
outras coisas, o que as coreografias de Diana Niepce nos dão a ver é como é
que esse interior disforme dos corpos, essa parte de dentro que não pode ser
controlada nem submetida a nenhum ideal de perfeição, se mostra quando se
revela, quando vem à superfície, à pele, ao exterior do corpo.
Os
corpos controlados por revistas, filmes, videoclips, anúncios publicitários e
posts nas redes sociais, parecem querer esquecer a sua gravidade.
Quer
isto dizer, que os corpos que perseguem um ideal de perfeição não só esquecem
que também têm uma parte de dentro, como esquecem simultaneamente que
têm peso.
O
ideal de perfeição que constantemente nos vendem, aponta para corpos verticais,
que como uma fina linha recta se elevam para o alto. Como exemplo, veja-se
abaixo uma outra foto de Leni Riefenstahl.
Corpos
verticais, que como uma fina linha recta se elevam para o alto, é tudo o que os nossos corpos não são, pois por um lado são densamente habitados por dentro, e
por outro lado são pesados e sujeitos à força de gravidade, ou seja, sempre em
risco de queda.
Num
texto escrito para a mais recente coreografia de Diana Niepce diz-se assim:
“o corpo está enFFFeR-Ru-jado
e quer sair do lugar
o corpo está par₮ido
e vai perdendo os membros
pá pá pá
o corpo tenta verticalizar-se E
O CORPO TENTA verticalizar-se
mas é muito________ difícil
o movimento é tenso
e o corpo cai,
o corpo
cai
o corpo não se equilibra
o corpo
cai
o corpo não se ograniza
o corpo está desorgranizadox=dEsa®Ti culado
o corpo quer sair do chão, quer ir para cima
o corpo quer
v
e
r
t
icalizar-se e é muito difícil mexer-se
o corpo está tenso, teNso
rígido grande
e o corpo é puxado para o chão
o corpo que/bra
PÁ PÁ PÁ”
Os
corpos, os reais e verdadeiros e não os das revistas, filmes, videoclips,
anúncios publicitários e posts nas redes sociais, são densos por dentro e
possuem peso, mas para além disso são também memória.
Os
nossos corpos registam o passado, o que vivemos, e por mais cirurgias plásticas
e melhoramentos que se façam, tal não desaparece. Ou melhor, desaparece
unicamente à superfície, mas como já dissemos um corpo não é um desenho que se
faz numa branca folha de papel, pois ele é também gravidade, peso, interior e
memória.
Gravidade,
peso, interior e memória, é o que impede o sucesso de operações de cosmética,
em que os corpos são reconfigurados e esculpidos por encomenda e a partir de um
catálogo com os altos ideais de perfeição do momento presente.
Duas afirmações de Diana Niepce a esse respeito: “O corpo começa na memória” e “Corpo-passado, que se relaciona com o mundo através da sua biografia e não é a cópia imperfeita de um outro corpo.”
Finalizamos este nosso texto de hoje, com o relato de Diana Niepce acerca do seu próprio corpo e das transformações que ao longo da vida sofreu:
“Quando eu era pequena, tinha uma perna mais curta
do que a outra. Usei uns ferros que posicionavam as pernas em rotação externa.
A mãe recorda-se que eu chorava muito. Quando me soltava as pernas eu ficava
feliz, sentia-me uma contorcionista.
Passados dois anos libertei-me dos ferros. Fui para
o ballet para fortalecer os músculos. Eu adorava o ballet. Durante o inverno ia
para a escola de sapatilhas de ballet e no verão vestia um tutu azul-bebé e
dançava no quintal da minha avó.
Queria ser bailarina, mas diziam-me que não. Era
impossível para mim andar em pontas, tinha um corpo torto que não me entendia.
Mas eu acreditava. Era a primeira a chegar ao estúdio e a última a sair.
Passados dois anos já conseguia em pontas. A dança era a minha vida.
Um dia apaixonei-me pelo trapézio. Ultrapassava os
limites físicos, os limites da gravidade.
O trapézio fez-me voar e foi também o trapézio o que um dia me fez cair. Eu
estava a fazer a sequência: cambalhota, queda de gancho, passar os pés pela
corda. Caí com o pescoço no colchão. Foi como se um botão desligasse o meu
corpo. Eu flutuava. Estava em pânico. Não sentia o corpo. Saí de mim. Lutava
contra o desmaio. Resultado: Fractura/luxação C5/C6 com compressão da C4 à C7.
Acordei tetraplégica no hospital, entubada e
amarrada, com o meu namorado a dizer o abecedário e eu a piscar o olho na letra
que eu queria dizer.
O meu corpo, que tudo sabia, não era mais o meu
corpo. Com trinta anos não era mais a bailarina, era apenas um corpo que eu não
entendia e que ele não me entendia. Não conseguia beber água sem alguém segurar
no copo. Não conseguia estar de pé. Não conseguia mexer as pernas. As minhas
mãos não eram as minhas mãos. Na fisioterapia lutava contra aquele corpo,
lutava por mais um milímetro de movimento. Eu era apenas um corpo velho e
triste.
Mas nesta minha obsessão pelo corpo, encontrei um
novo corpo, um corpo estranho, que não tinha outra solução se não descobri-lo.
E nesta relação de amor e ódio com o meu corpo, começou o jogo.
Eu não queria mais um corpo comandado por uma norma fascista, igual a todos os outros. Eu apaixonei-me pelo meu corpo quando o meu corpo me deixou de entender.”







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