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A contra revolução faz-se de queques e betos, e também de cuecas!



O 25 de Abril é também uma questão de estilo. Chega a ser cómico, e simultaneamente algo enternecedor, ver como os cantadores dos tempos de Abril eram sérios e levavam a peito os seus ideais revolucionários e, mais do que isso, observar igualmente o estilo e o modo intenso como os cantavam.

Quase custa a crer, ao dia de hoje, que noutros tempos alguém entoasse com toda a seriedade e entusiasticamente versos como os seguintes: “A cantiga é uma arma/ De pontaria/ A cantiga é uma arma/ Contra a burguesia / Tudo depende da bala / E da pontaria / Tudo depende da raiva / E da alegria /A cantiga é uma arma/ Contra a burguesia.”

A esse propósito, veja-se por exemplo, as imagens do vídeo mais abaixo, uma festa de São Martinho na Golegã em Abril de 1974, na qual o colectivo musical Vozes na Luta interpreta precisamente esse tema, “A Cantiga é uma Arma”.

Vendo o vídeo, verifica-se que para além do entusiasmo e seriedade, os cantadores possuíam também gadelhas levemente despenteadas e apresentavam patilhas mal aparadas. Acrescente-se que os bigodes eram parte quase indispensável, para se compor um bom “outfit” revolucionário.

Quanto ao vestuário, nem vale a pena dizer nada, excepto que nos desperta uma particular atenção e curiosidade, o imenso tamanho das golas e colarinhos. De resto, é ver:



O estilo sério e revolucionário atravessou toda a década de 70 do século passado e entrou pela de 80 adentro, mas na realidade, não por muito tempo. 
De facto, assim como houve um 25 de Novembro político-militar, também houve um 25 Novembro relativo ao estilo.

Tudo se terá iniciado no ano de 1986, quando Diogo Freitas de Amaral concorreu à presidência da república portuguesa. Essa candidatura, apesar de derrotada, como que libertou os “queques” e os “betos” que andavam desde Abril de 1974 um tanto ou quanto complexados e traumatizados, e que, por consequência disso, tinham algum receio e pudor em exibir os seus esquisitos tiques estilísticos.

O próprio candidato Diogo Freitas do Amaral, em 1986, apresentava-se num estilo “queque” ou “beto”, envergando um sobretudo verde de loden, de inspiração austríaca. Para além disso, fez uma campanha do tipo “uau, espectacular, super-engraçado”, tem chapéus de palhinha e tudo (ainda que feitos de plástico).

Em síntese, em 1986 deu-se o 25 de Novembro estilístico, os “queques” e os “betos” saíram do armário onde se tinham escondido desde 74 e assumiram publicamente, sem traumas nem complexos, o seu estilo mundano e frívolo. A contra revolução estilística, contra o sério e revolucionário, começou portanto nesse instante.


Nesse mesmo momento, começou o infinito desfile de jovens Pilares, de Constanças, de Piedades e de Beneditas, sempre acompanhadas por algum mancebo chamado Salvador, Martim, Lourenço ou Sebastião. A contra revolução estava em andamento, também ao nível dos nomes.

Com efeito, este é um dos mais curiosos fenómenos dessa contra revolução estilística, ou seja, a onomástica dos nomes próprios, com um recorrente uso e abuso de nomes com ressonância deliberadamente antiga.

Na verdade, o grande problema dos “queques” e dos “betos” e das suas respectivas famílias, é quererem aparentar ser e ter, aquilo que não são nem têm. Um “queque” ou “beto”, quer aparentar possuir bom gosto, sofisticação e cultura, todavia, não tem nada disso e, por assim ser, carrega nas tintas e exagera na dose, a ver se assim ganha prestígio e disfarça o que efectivamente é.

Nesse contexto, o “queque” ou “beto”, por se sentir inseguro, tem tendência a exagerar e a tratar toda a gente por “você”, incluindo crianças. Excede-se igualmente, quando trata mal, exageradamente mal, aqueles que considera inferiores, e também quando trata muito bem, exageradamente bem, aqueles que considera superiores.

No fundo, um “queque” ou um “beto” é um labrego besuntado com uma graxa reles, mas que ele/a considera dar-lhe uma patine de aristocracia, de bom gosto, de sofisticação e de cultura.



E agora uma outra canção dos tempos de Abril de 74. Uma cujo refrão reza assim: “Força, força companheiro Vasco, nós seremos a muralha de aço”.

Esta canção é daquelas que põe os cabelos em pé a qualquer “queque” ou “beto” que se preze. Os “queques” e “betos” são por essência contra revolucionários e o Vasco da canção é o Gonçalves, personagem que ocupou o cargo de Primeiro-Ministro de Portugal à época do PREC (Processo Revolucionário em Curso).

Pouco há que deixe um “queque” ou “beto” mais eriçado, do que o dito PREC, mesmo que porventura ele/a nem saiba bem o que isso foi.

Basta sussurrarem PREC a um “queque” ou “beto”, para ele/a exclamar imediatamente “ai que horror” e começar a desenvolver sintomas de urticária. Constate-se que até mesmo “queques” ou “betos” que tenham ao dia de hoje apenas quinze ou dezasseis anos de idade, reagem de uma forma veemente ao PREC, como se tivessem vivido tais acontecimentos na pele, ou seja, ao vivo, a cores e em directo.

Enfim, nisto como em tudo o resto, os “queques” e “betos” são manifestamente criaturas muito teatrais, muito dadas a dramas e a exageros.

Dito isto, vamos lá ouvir o tema “Força, força companheiro Vasco”, no qual se diz coisas tão sentidas, entusiasmadas, sérias e realistas, como por exemplo, “Há quem queira deixar esta terra, ao alcance dos monopolistas, mas o povo não desarma e diz, estamos fartos, não queremos os capitalistas.”

Ai não, que não queremos, dizemos nós, que não somos tão sérios como os cantadores de Abril, embora também não sejamos tão frívolos como os “queques” e “betos”.

Com efeito, o que seria de nós sem os centros comerciais e hipermercados detidos pelos capitalistas? O que seria de nós sem os bancos e gasolineiras quase monopolistas? O que seria de nós sem tantas escolas e hospitais privados? O que seria de nós sem os excelentes e divertidos programas que passam na TV’S, cuja propriedade pertence a grandes grupos económicos? O que seria de nós sem tudo isso? Ficávamos sem nada para nos entreter, neste como noutros feriados.



Regressemos neste dia 25 de Abril, aos contra revolucionários estilísticos, o mesmo é dizer, aos “queques” e aos “betos”. Como já vimos, eles têm uns tantos esquisitos tiques, mas vejamos quais são, mais detalhadamente.

Para tal, recorramos ao cronista Miguel Esteves Cardoso, que em tempos idos estabeleceu uma cientifica distinção entre aqueles que verdadeiramente têm uma patine de aristocracia, de bom gosto, de sofisticação e de cultura, e os “queques” e os “betos”, que se esforçam imenso por parecerem bem e por aparentarem ter tudo isso, mas cujo estilo é meramente de fachada, de pechisbeque, tão-somente para “inglês ver”.

Segundo o cronista Esteves Cardoso, os “queques” e os “betos” vivem obcecados pelo dinheiro, já que é o dinheiro que lhes permite comprar todos aqueles adereços (relógios Rolex, automóveis Porsche) que consideram indispensáveis ao seu estatuto social. De modo oposto, e isto dito pelo mesmo cronista, quem é verdadeiramente bem nunca usa relógio e raramente se desloca de carro.

Ainda segundo o cronista Cardoso, o que caracteriza alguém bem é o seu total à vontade no mundo. Nunca se enerva, nunca hesita, nunca está muito preocupado. Já os “betos” e os “queques” andam sempre numa pilha de nervos por tudo e por nada.

Continuando a citar o Cardoso, quem é bem, ou seja, quem tem uma pose aristocrata, bom gosto, sofisticação e cultura, relaciona-se naturalmente com toda a gente, tendo inclusivamente uma espécie de “rapport” íntimo com o povo, seja com varinas, com peixeiras, com pedreiros, com empregados de mesa ou outros. Já os “queques” e os “betos” afligem-se imensamente para manter as distâncias, e isso precisamente por estas serem tão curtas.

Deixemos então o cronista Miguel Esteves Cardoso e a sua científica distinção entre quem é bem e quem é pessoal de pechisbeque, como o são os “betos” e “queques”. Vamos agora à escola.



Como já amplamente vimos, os “betos” e “queques” são estilisticamente contra revolucionários, e de facto não há nada com mais estilo, do que, ao contrário dos sérios revolucionários, colocar os filhos num colégio privado.

Tal é uma coisa que dá prestígio e ainda por cima permite estabelecer um cordon sanitaire, para lá do qual está o povaréu, de cujos petizes estão condenados a frequentar o ensino público.

A escola é um dos barómetros mais precisos destas tendências estilísticas contra revolucionárias dos “betos” e dos “queques”. Dado esta gente ser plebeia, mesmo não o querendo ser, e tendo dinheiro suficiente para isso, um dos melhores investimentos estilísticos que pode fazer é no estilo educativo dos seus rebentos.

No Colégio Sagrado Coração de Maria, em Lisboa, sempre bem colocado nos rankings, os pais chegam a passar a noite na rua para inscreverem os seus meninos, tal é o prestígio educativo.
Depois, há colégios com trejeitos de nobreza antiga. A título de exemplo, se consultarmos a página na Internet do Real Colégio de Portugal, estabelecimento de ensino inaugurado em 1999, vemos que aí se descreve com enorme detalhe os ancestrais pergaminhos da quinta onde o colégio está sediado, a Quinta do Conde do Paço no Lumiar.

O que essa longa descrição nos indica, é que seja lá qual for o projecto educativo em vigor, o dito estabelecimento aposta muito na tradição, na da quinta, não da escola que abriu há relativamente pouco tempo. A tradição é um factor promocional, ou seja, por ali vende-se prestígio e estilo.

O uso de fardas, os brasões, os emblemas, as divisas e as máximas grandiloquentes, são outros exemplos que vendem bem entre encarregados de educação “betos” e “queques” à procura de prestígio e estilo, e assim sendo, tais negócios educativos vão de vento e popa e recomendam-se.

Voltemos a um cantor que também o foi de Abril, Sérgio Godinho. Nessa tão distante época, o homem cantava coisas como a paz, o pão, a habitação, a saúde, a educação, no entanto, pressuponha-se que tudo isso era para todos, e para todos por igual.

“Ai só há liberdade a sério quando houver a paz, o pão, habitação, saúde, educação…”



Caminhamos para o fim deste nosso texto, mas não sem antes falarmos dos novos solares campestres, das renovadas casas rurais para famílias urbanas, da reedição, de gosto mais do que duvidoso, de estilos arquitectónicos tradicionais em condomínios privados, e do crescente interesse de “queques” e “betos” por actividades como o hipismo, a caça, as touradas, o turismo de habitação e os lugares de charme.

Tudo isso faz parte de uma fachada, tudo isso faz parte da contra revolução estilística iniciada algures na década de 80 do século passado. Em resumo, o estilo mundano e frívolo de “queques” e “betos” parece agora ter-se instalado em todos os sectores da sociedade portuguesa, em contraposição ao estilo sério dos revolucionários.

Todavia, esse triunfo do estilo mundano e frívolo estava há muito anunciado. Precisamente em finais da década de 80, dois rapazes que mais tarde haveriam de ocupar altos cargos nesta nossa nação, já diziam coisas mundanas e frívolas ao país.

O então jovem Pedro Passos Coelho confessava ao país que não gostava de cuecas que se lhe metessem pelo rabo, já o então também jovem António José Seguro, divulgava à nação que usava shorts por razões dermatológicas.

Terminamos com os recortes de jornal, onde constam essas duas afirmações, que já à época eram um augúrio de um excelente futuro político para este duo de rapazes.

E sim, foi para isto que se fez o 25 de Abril, para que Portugal possa ser mundano e frívolo à vontade.


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