Usamos hoje como título para este texto, o título usado pelo jornal espanhol El Pais numa reportagem publicada há uns tempos, na qual se constatava que algo se passava na BD portuguesa.
Escusado será dizer, que por cá, e de modo oposto ao que se passa no país vizinho, ninguém liga muito à nossa BD, ainda assim, o anterior Presidente da República, o Professor Marcelo Rebelo de Sousa, disse há cerca do ano o seguinte: “Criadores portugueses de BD são do melhor do mundo.”
É certo que o Marcelo afirmava com frequência que os portugueses eram os melhores do mundo nisto, naquilo e naqueloutro, no entanto, é significativo que não se tenha esquecido da Banda Desenhada.
Mas dito isto, a verdade é que poucos em Portugal ligam à BD, pois genericamente, para os nossos compatriotas, histórias aos quadradinhos é considerado como sendo uma coisa própria para crianças e jovens, e não para gente crescida e madura.
Por cá, só se liga à “boa” literatura para adultos, dessa que vende muito, ou seja, a escrita por apresentadores de TV, por gente do futebol, pela galera do jet-set, ou então, pelo pessoal nacional e internacional especializado em auto-ajuda.
É bastante deprimente ler os títulos dos livros mais vendidos na nossa amada pátria nos últimos tempos. Aqui ficam uns quantos exemplos do que mais se vendeu nas mais recentes semanas: “Como Criar um Novo Eu”, “Não Me Podem Magoar”, “Tornar-se Pessoa - A Psicoterapia pelos Olhos do Terapeuta”, “Como Fazer Amigos e Influenciar as Pessoas”, “12 Regras para a Vida - Um Antídoto para o Caos”, “Ganhar Dinheiro - Como Criar Riqueza Com um Salário Normal”, “Deixa Estar” e “A Arte Subtil de Saber Dizer que se F*da”.
Tais títulos não enganam ninguém, sendo a conclusão mais do que óbvia, a saber, por cá, gasta-se muito dinheiro em livros que não valem pívia. O nosso modesto conselho a toda essa gente que gasta dinheiro em tais baboseiras, é que o gastem antes em BD’s.
Abaixo, aqui fica uma imagem de mais um conjunto de insanidades literárias com imenso sucesso comercial, todas respeitadoras do lamentável acordo ortográfico em vigor, e que portanto podem ser editadas e vendidas por cá e no Brasil, e também em Angola, Cabo Verde, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau.
Mas deixemos tais tristezas e vamos às BD’s. Assim em termos muito genéricos, digamos que há três grandes escolas de banda desenhada, a franco-belga, a norte-americana e a japonesa.
A franco-belga deu-nos personagens como o Tintin, o Asterix, o Lucky Luke, o Spirou ou os Estrunfes. A norte-americana criou mitos como o Superman, o Batman ou Spiderman, isto para além do Rato Mickey, do Pato Donald e do Zé Carioca. Relativamente à japonesa, temos personagens de Manga pós-apocalíptica, como por exemplo o Naruto ou Dragoon Ball, mas também gente como a gentil Heidi.
Todas estas criaturas transitaram para o cinema de animação, porém, do que não há dúvida é que a sua origem foi na BD, e foi através dela que conquistaram um lugar no nosso imaginário colectivo.
Feito este intróito, nós por aqui, vamos agora fazer o seguinte exercício, apresentar três das nossas BD’s favoritas, sendo que, para o fim, deixaremos uma quarta, uma portuguesa, e precisamente aquela que fez com que a banda desenhada nacional começasse a ser falada lá fora, noutras terras e países.
Como seria expectável, as BD’s que preferimos não são as mais conhecidas, gostamos do Tintim e do Asterix e até do Batman, mas gostamos de outras não tão famosas como essas.
Para começar “Persopólis”, obra da autora iraniana naturalizada francesa, Marjane Satrapi. “Persépolis" narra a infância e juventude da autora no Irão durante a Revolução Islâmica. A história começa em 1979, com a queda do Xá, a ascensão do Ayatollah Khomeini e a imposição de regras rigorosas, como o uso obrigatório do véu.
Marjane cresce numa família moderna e instruída de Teerão, lutando para conciliar a sua irreverência com as restrições fundamentalistas, como a separação de géneros nas escolas e a proibição de influências ocidentais, como a música Punk…
…e também a Pop.
Devido ao seu espírito rebelde e à crescente perigosidade do país, os pais de Marjane enviam-na para Viena aos 14 anos para estudar. Lá, Marjane enfrenta um choque cultural profundo, a solidão e dificuldades de integração como imigrante.
Já adulta regressa ao Irão, onde tenta encontrar um lugar numa sociedade que mudou drasticamente desde a sua partida. Marjane não se consegue adaptar ao Irão e por fim decide partir definitivamente para França.
A nossa segunda BD favorita é uma Manga, “O Gourmet Solitário”, obra escrita por Masayuki Kusumi e desenhada por um dos maiores autores japoneses, o grande Jiro Taniguchi.
A história não segue uma estrutura linear com princípio, meio e fim. Em vez disso, é composta por contos curtos e independentes, onde acompanhamos Goro Inogashira, um negociante solitário, que trabalha por conta própria, e que por esse motivo viaja frequentemente pelo Japão.
Após as suas reuniões de negócios em várias zonas de Tóquio e em outras partes do Japão, Goro procura um local para comer. Entra em restaurantes simples, tascas populares ou estabelecimentos recônditos, observando atentamente o ambiente, os outros clientes e, sobretudo, a comida.
Para Goro, o acto de comer só é uma experiência filosófica e um manifesto contra a pressa do mundo moderno. É um momento de liberdade absoluta onde ele se foca inteiramente no seu paladar e nos seus pensamentos.
Goro Inogashira é alguém que vive bem consigo próprio depois de se ter separado de uma actriz famosa, encontrou o seu mantra: “Não ter de dar contas a ninguém, assumir a solidão, para mim é isso que significa ser um homem”.
Acompanhando-o, torcemos o nariz ao McDonald`s mas também a restaurantes bio, onde “os empregados têm um ar superior… como se nos dissessem que devemos cuidar melhor do planeta”.
Passemos então à nossa terceira escolha, “Building Stories”, do norte-americano Chris Ware. A protagonista é uma mulher sem nome, de cabelos castanhos, que perdeu a metade inferior da perna esquerda num acidente de barco na infância.
Ela mora no terceiro andar de um prédio de apartamentos de três andares, no segundo andar vive um casal que discute constantemente e a proprietária do prédio, uma idosa, vive no primeiro.
O edifício figura de forma proeminente na história. Os pensamentos dos habitantes do prédio onde a personagem principal passa a maior parte do seu tempo são exibidos em letras cursivas. A protagonista é incapaz de escapar à onipresença da morte na vida, a sua amiga mais próxima suicidou-se, o seu gato morreu, atira com um um pequeno rato pela sanita abaixo e atormenta-se sobre o que pensar a respeito do aborto.
A perda é um dos temas dominantes de “Building Stories”. As personagens sofrem perdas em termos de relacionamentos, de romance, de finanças, de peso e, no caso da personagem principal, também a perda de um membro. As personagens temem e resistem a essas perdas, embora por vezes as desejem.
Aqui chegados vamos à quarta e última BD, a portuguesa. O seu título é “Balada para Sophie” e os seus autores são Filipe Melo e Juan Cavia.
“Balada para Sophie” ganhou prémios por todo o lado e despertou um grande interesse internacional pela banda desenhada portuguesa. A narrativa centra-se em Julien Dubois, um pianista de sucesso mas amargurado que, no fim da vida, decide contar a sua verdadeira história a uma jovem jornalista, Adeline.
O foco é a rivalidade de décadas entre Julien e François Samson, um pianista de talento natural, que Julien sempre invejou e admirou em segredo. Exploram-se temas como a redenção, o peso do arrependimento, o preço do sucesso comercial versus a integridade artística, e a complexa relação entre o talento e privilégio. Abaixo vemos o velho Dubois enredado nas suas memórias.
Julien Dubois vive agora envolto numa nuvem de cigarros e de recordações, flutuando continuamente entre a realidade e a fantasia. O fumo acompanha a confissão de Julien à jornalista Adeline, funcionando como uma ponte entre o seu presente fechado numa velha mansão, e o seu passado cheio de rivalidades e desamores.
Em boa verdade, são muitos os críticos e leitores, que consideram “Balada para Sophie” como a melhor BD portuguesa de sempre, sendo que nós, os deste blog, concordamos totalmente com essas avaliações..
Dito isto, não há porque hesitar, deixem lá os livros de auto-ajuda e virem-se para a banda desenhada. Nas melhores BD’s vão aprender mais sobre exílios, solidões, perdas, emoções, memórias e redenções, do que qualquer especialista de auto-ajuda alguma vez vos poderia ensinar.













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