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Cristos há muitos, verdes e amarelos, geométricos e cadavéricos e até Superstar`s.

 
Nós por aqui não gostamos muito de certezas absolutas e assertividades, gostamos antes de ver as coisas por diversos ângulos e de nos debruçarmos sobre nuances. Sendo hoje Páscoa, vamos falar disto e de Cristo, pois claro.


Há quem tenha uma fé cega e acredite piamente na literalidade da mensagem de Cristo, não é esse o nosso caso, pois cremos que o sentido da mensagem divina depende de quem a diz, escreve, musica ou pinta. Assim sendo, em nosso entender, o significado da vida de Cristo e até a sua própria figura, são diferentes conforme o contexto. Para provarmos este nosso ponto, vamos fazer uma viagem pela História da Arte.


Pensemos por exemplo no pintor francês Paul Gauguin (1848-1903). Durante uns anos, o homem andou pelas regiões rurais da Bretanha e em 1886 teve a visão de um Cristo amarelo.


Uns três anos mais tarde após ter pintado o Cristo amarelo, mais concretamente em 1889, e enquanto continuava a deambular pelas mesmas terras bretãs, Gauguin teve uma nova visão de Cristo, só que desta vez em tons de verde.


Ao longo da história, Cristo foi representado das mais diversas formas, sendo que essas representações são sintomas do tempo e contexto em que foram realizadas. Não é a mesma coisa representar Cristo como um ser todo-poderoso que reina nos céus de um modo quase imperial, e representar Cristo como um ser sofredor, como uma pobre vítima dos seus cruéis carrascos.

Vejamos o Cristo Pantocrator (termo grego para todo-poderoso) conforme aparece no mosaico da Catedral Monreale, perto de Palermo na Sicília.


O Cristo acima aparece-nos como um governante soberano e como um juiz do universo, o seu semblante é solene e tudo na sua figura evoca esplendor e glória, assim como força e poder. Por contraste, vejamos agora um Cristo sofredor que nos aparece do políptico de Matthias Grünewald (1470-1528), que está exposto na cidade alsaciana de Colmar, em França.


Entre o glorioso Cristo siciliano e o martirizado Cristo alsaciano há um imenso mundo de diferenças. No primeiro, a visão do divino concretiza-se no poder e na força, no segundo essa mesma visão materializa-se na compaixão, na piedade e no sofrimento.

O Cristo da Sicília está na Catedral de Monreale, um edifício que foi mandado erguer pelo poderoso rei Guilherme II da Sicília, o Cristo de Grünewald foi concebido para estar num hospital pertencente a um convento, no qual os monges eram conhecidos pelo tratamento que faziam das doenças da pele.

O que daqui se pode concluir, é que a mensagem cristã adapta-se às circunstâncias, ou seja, pode ser compreendida sob os mais diversos ângulos e o que não lhe falta são nuances. Até agora já vimos que o Cristo tanto pode ser amarelo como verde, como também nos pode aparecer como um ser poderoso ou como um desvalido.

Mas pensemos noutros casos, como este na imagem mais abaixo, cuja autoria é de Piero della Francesca (1415-1492). Como todos sabemos, a geometria é muito importante, e é completamente enquadrado por linhas horizontais e verticais, que se conjugam em paralelas e perpendiculares, que Cristo aqui nos surge.

Na cena vemos a flagelação de Cristo. Jesus está atado a uma coluna encimada por uma estátua dourada e a figura sentada à esquerda é Pôncio Pilatos. Apesar do dramatismo do acontecimento, nesta pintura tudo sucede de uma forma geométrica-matemática, tal deve-se ao facto de na época renascentista, os artistas descobrirem a perspectiva e, assim sendo, tudo o que concebiam incluía e punha em destaque essa recente descoberta.

A obra é um exemplo supremo de perspectiva linear, todas as linhas convergem para um único ponto de fuga, criando uma profundidade calculada. O chão de xadrez reforça toda essa estrutura matemática-geométrica.


Se compararmos o geométrico-matemático e frio Cristo renascentista de Piero della Francesca com os Cristos barrocos dos séculos seguintes, constatamos de imediato as enormes diferenças. Com efeito, enquanto em Piero della Francesca tudo é perspectiva, racionalidade e matemática, em pintores barrocos como Rubens, tudo é teatralidade, ardor e sentimento.


Atentemos noutros exemplos, o Cristo na imagem abaixo de autoria de Andrea Mantegna (1431-1506) está morto, no entanto, o artista parece ter-se comprazido no seu excelente domínio da perspectiva, isto ao ponto de as conseguir distorcer.

De facto, foi um exercício de grande habilidade geométrica o que Mantegna fez, ao ser capaz de representar Cristo visto de um ângulo original e absolutamente inusitado. Com efeito, Mantegna coloca o observador do seu quadro aos pés de Cristo, sendo as feridas nos pés o primeiro elemento que vemos.

Para evitar que na pintura os pés cobrissem todo o espaço, Mantegna reduziu propositadamente o seu tamanho, distorcendo assim as regras e proporções da perspectiva. Conseguiu desse modo dar visibilidade ao rosto e ao torso, e igualmente mostrar a sua capacidade para desenhar com rigor e precisão anatómica o corpo de Cristo.


É visível que Mantegna queria representar Cristo de um ponto de vista original, sendo o seu Cristo morto um exercício intencional de grande virtuosismo técnico, no qual o pintor usou artifícios pictóricos para atingir o seu objectivo, de um modo quase oposto, Hans Holbein (1497-1543) pintou um Cristo morto em tamanho natural, sem qualquer expediente, adorno ou habilidade, forçando-nos a ver Cristo não como uma figura sagrada, mas como um real e mero cadáver.


Holbein dá-nos a ver um corpo humano em decomposição com os membros emaciados e a pele descolorida. Os únicos sinais de que este é Cristo são as feridas nas suas mãos e pés.

Em 1867, o escritor russo Dostoievski e sua esposa Anna pararam em Basileia, onde visitaram o Kunstmuseum e se depararam com a pintura de Holbein. Dostoievsky ficou completamente abalado pela sua brutal realidade. Anna escreveria mais tarde: “Paramos por um dia em Basileia para ver uma pintura… que retrata Cristo… em decomposição. Seu rosto inchado está coberto de feridas sangrentas e sua aparência é terrível. A pintura teve um impacto esmagador em Fiódor Mikhailovich Dostoievsky. Ele ficou diante dela como se estivesse atordoado.”

Logo depois, Dostoievsky começou a escrever “O Idiota”, a pintura de Holbein aparece no livro mais de uma vez. Um dos personagens, o Príncipe Míchkin, que é sensível e puro, fica perturbado ao vê-la: “Aquela pintura! Aquela pintura! Gritou Míchkin, atingido por uma ideia repentina. A fé de um homem pode ser arruinada ao olhar para aquela pintura!”

Aqui chegados, e tendo já visto que ao longo da história houve Cristos verdes e amarelos, poderosos e sofredores, geométricos, teatrais ou cadavéricos, o tema que agora se impõe é como é representado Cristo nos dias de hoje.

Em boa verdade, seja na literatura, no cinema, na música ou na arte, Cristo quase desapareceu. É raro vermos a figura de Cristo em obras contemporâneas. O mais que nos conseguimos lembrar é de dois filmes da década de 70 do século XX, nos quais Cristo aparecia.

Consideremos que a década de 70, mesmo sendo já algo longínqua, pertence ao nosso tempo e, assim sendo, falemos desses dois filmes, comecemos por “Jesus Christ Superstar”.

A película replica um musical de grande sucesso, daqueles que fazem as delícias dos teatros da Broadway. Numa das cenas, Herodes, o rei da Judeia, descrê da divindade de Cristo e diz-lhe assim quando o encontra: “So you are the Christ, You're the great Jesus Christ, Prove to me that you're divine, Change my water into wine, That's all you need do, Then I'll know it's all true, C'mon King of the Jews.”

Como se percebe, o tom de Herodes é irónico e de algum modo ele até se mofa de Jesus. Não faz apenas uma vez mas várias, como se pode ver neste outro trecho: “So if you are the Christ, Yes the great Jesus Christ, Prove to me that you're no fool, Walk across my swimming pool, If you do that for me, Then I'll let you go free, C'mon King of the Jews.”
Ouçamos a canção do rei Herodes, personagem que enverga um traje de banho, assim tipo vintage:



Numa outra cena do filme “Jesus Christ Superstar”, Maria Madalena dá-se conta que não entende Cristo. O que ele lhe provoca é fundamentalmente um sentimento de perplexidade. No fundo, Madalena não consegue aceitar que Jesus não é tão-somente um homem.

A canção de Maria Madalena é toda cheia de interrogações e dúvidas, diz ela que “I don't know how to love him” mas também que “I don't know how to take this. I don't see why he moves me. He's a man. He's just a man. And I've had so many men before, in very many ways, He's just one more.”

O problema é que por muito que Madalena se queira convencer a si mesma de que “He's just one more”, ao mesmo tempo sente-se mudada “I've been changed, yes really changed. In these past few days, when I've seen myself, I seem like someone else.”

Madalena está assustada, ela que era uma mulher que tinha sempre tudo tão bem controlado, vê-se agora desarrumada diante de Cristo: “Don't you think it's rather funny, I should be in this position. I'm the one who's always been so calm, so cool, no lover's fool, Running every show. He scares me so.”



Passemos então ao segundo filme, “The life of Brian”. Brian é na verdade Jesus, só que com um outro nome. O filme foi acusado de ser blasfemo e provocou protestos de alguns grupos religiosos. Trinta e nove autoridades locais do Reino Unido impuseram uma proibição definitiva sobre a sua exibição, e países como a Irlanda ou a Noruega, proibiram-no durante décadas.

A mais célebre cena do filme é a da crucificação. Brian foi condenado à cruz e a seu lado estão muitos outros cujo terrível destino é o mesmo. Põe-se à conversa e acabam por concluir que nada é tão negativo quanto parece, e que o serem crucificados, também terá o seu lado positivo. Por consequência disso, e optimistamente, desatam a cantar um tema cujo refrão é “Always look at the bright side of life”.

E pronto, por aqui terminamos esta nossa viagem por Cristos verdes e amarelos, poderosos e sofredores, geométricos, teatrais e cadavéricos ou até superstar`s. Finalizamos com um Cristo bem-disposto:




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