Não é incomum, que mesmo católicos praticantes, desconheçam
ou não se recordem de todas as catorze estações pelas quais Cristo passou desde
a sua condenação, passando pela crucificação, até ao término do seu caminho, o
sepulcro.
Sendo esse o contexto, por uma vez vamos
dedicar-nos à educação moral e religiosa de quem nos lê, ou seja, hoje vamos
fazer uma espécie de catequese, explicitando todos os passos de Cristo na sua
via-sacra.
Como seria expectável, vamos cumprir esta missão
evangélica a que nos propusemos, de um modo nada canónico, ou seja, recorrendo
à arte moderna e abstracta, e mais concretamente ao artista francês Henri
Matisse (1869-1954) e ao norte-americano Barnett Newman (1905-1970).
Comecemos por Matisse e por isso vamos a Nice.
Matisse era um homem do norte, no entanto, com 48 anos de idade descobre Nice,
a luz e as maravilhas do sul e nunca mais deixou essa cidade, “Quand j'ai compris que chaque matin je
reverrais cette lumière, je ne pouvais croire à mon bonheur. Je décidai de ne pas quitter Nice, et j’y ai
demeuré pratiquement toute mon existence. (Quando
me apercebi de que todas as manhãs reveria aquela luz, não pude acreditar na
minha sorte. Decidi não mais sair de Nice e aí permaneci praticamente toda
minha restante existência.)”
Sim, Nice é uma linda cidade, que tem por diante o
belo e azul Mar Mediterrâneo. Muitos foram os que ela aportaram em busca da sua
luminosidade, e não tão-somente turistas, aristocratas e reformados ricos, mas
também escritores e artistas.
Nela se instalaram gente como Picasso, Friedrich
Nietzsche, o escritor norte-americano F. Scott Fitzgerald, o francês Júlio
Verne, a Rainha Victoria de Inglaterra, o Rei Leopoldo II da Bélgica, o pintor
Marc Chagall e muitos outros mais. Nice é uma terra de calor e flores, propícia
para tranquilos estios, para devaneios e veraneios. Em síntese, Nice é um sítio
feliz.
Por todas essas razões já referidas e mais umas
quantas, foi aí, em Nice, que Matisse se instalou, corria então o Inverno do
ano de 1917. Décadas depois de se ter instalado em Nice, foi pedido a Matisse
que concebesse toda a decoração interior de uma capela, desde os vitrais até às
imagens.
A Chapelle
du Rosaire, nos arredores de Nice, na pequena localidade de Vence, foi
inaugurada em 1951, e foi para ela que Matisse concebeu e desenhou as catorze
estações que Cristo percorreu na sua “Via Crucis”. Na imagem abaixo, na parede
ao fundo, pode-se observar toda essa sequência, acompanhada com a respectiva
numeração.
O facto de Matisse ter decidido numerar
explicitamente os passos de Cristo, é de algum modo indicativo de que o artista
não teria grande fé, que os fiéis soubessem a sequência completa e correcta,
vai daí, e por via das dúvidas, colocou os números na “Via Crucis”.
Matisse, que sempre se disse não crente, teve
portanto um acesso de catequista e quis deixar bem explícito na Chapelle du
Rosaire qual estação era qual, e também a sua ordem. Pelos vistos, o
desconhecimento sobre as catorze estações de Cristo não é de agora.
(1 - Jesus é condenado à morte, Pilatos lava as mãos.
2- Jesus carrega a cruz às costas, Ele aceita o instrumento do seu sacrifício.
3- Jesus cai pela primeira vez, exausto pelo sofrimento físico, cai sob o peso
da cruz. 4 -Jesus encontra a sua mãe. 5-Simão ajuda Jesus a carregar a cruz. 6
- Verónica limpa o rosto de Jesus, uma mulher piedosa que enxuga o suor e o
sangue da face de Cristo com um véu. 7- Jesus cai pela segunda vez, a fraqueza
física acentua-se. 8- Jesus encontra as mulheres de Jerusalém, consola as
mulheres que choravam por Ele, pedindo que chorem por si mesmas e pelos seus
filhos. 9 - Jesus cai pela terceira vez, quase a chegar ao cimo do Calvário. 10
-Jesus é despojado das suas vestes, os soldados retiram-lhe as roupas antes da
crucificação. 11 -Jesus é pregado na cruz. 12 -Jesus morre na cruz após três
horas de agonia. 13 - Jesus é descido da cruz, o corpo é entregue à sua mãe e
aos amigos. 14 -Jesus é depositado no sepulcro.)
As autoridades
eclesiásticas da época não ficaram particularmente entusiasmadas com os
desenhos de Matisse, acharam-nos demasiado modernos e pouco dramáticos, pois
que na sua simplicidade não transmitiam plenamente toda a dor e sofrimento dos
últimos momentos da vida de Cristo.
Todavia o tempo
passou, e os desenhos da Chapelle du Rosaire, a derradeira obra de Matisse, são
hoje muito apreciados, sendo que todo o conjunto foi elevado à categoria de
património cultural pelo estado francês.
Damos neste
momento por concluída, a primeira metade da missão catequista a que hoje nos
propusemos, com a apresentação do caminho da cruz de Matisse. Vamos então agora
à segunda parte, na qual falaremos do pintor Barnett Newman.
Barnett Newman
nasceu em Nova York, era filho de imigrantes judeus oriundos da Polónia.
Estudou filosofia no City College de Nova York e trabalhou na empresa de
confecção de roupas do seu pai. Mais tarde, ganhou a vida como professor,
escritor e crítico, e depois disso foi só artista, tendo logo em vida sido
considerados um dos maiores da América.
Tenha sido o que
for, Newman nunca foi um homem religioso, isto no sentido em que habitualmente
se emprega esse termo. Mas dito isto, Newman sempre teve profundas preocupações
metafísicas e espirituais. Provavelmente por assim ser, em determinado momento
do seu percurso artístico, decidiu dedicar-se durante uma série de anos, de
1958 a 1966, a pintar as catorze estações da cruz.
Abaixo a imagem da primeira estação pintada por Barnett Newman, que corresponde ao momento no qual Jesus é condenado à morte e Pilatos lava as suas mãos.
Vejamos também a terceira estação,
quando Jesus cai, exausto sob o peso da cruz.
Quando pela
primeira vez as catorze estações de Barnett Newman foram exibidas juntas no Museu
Guggenheim de Nova Iorque em 1966, todos ficaram perplexos e houve mesmo alguma
hostilidade.
As obras eram
visualmente austeras, no entanto, a referência à vida de Cristo feita por um
artista judeu, foi algo que à época desconcertou completamente as gentes.
Barnett Newman não tinha intenção de desconcertar ninguém, o que ele verdadeiramente
queria, era que as suas pinturas capturassem a essência emocional, espiritual e
filosófica da Paixão de Cristo.
A mais funda
intenção de Barnett Newman, era que as suas estações reflectissem a pergunta
desesperada que Jesus faz pouco antes de sua morte: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”
“Newman enfatizou que não se tratava de uma
narrativa”, disse Harry Cooper, director da National Gallery de Washington, onde
estão expostas todas as catorze estações. “Ele
considerava o conjunto como tendo um único tema, como sendo uma única
experiência.”
As estações tratam
do “Porquê?” fundamental da
existência, “Esta é a Paixão”, disse
Newman, “Não a terrível caminhada pela
Via Dolorosa, mas a pergunta que não tem resposta.”
O original
judaico dizia אֵלִ֣י אֵ֖לִי לָמָ֣ה עֲזַבְתָּ֑נִי,
mas depois foi traduzido para aramaico e é assim que aparece na Bíblia: “Eli, Eli, lama sabachthani?”
A frase foi dita
por Jesus na cruz e traduz-se por
"Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?"
O que é certo, é
que a National Gallery de Washington em 1986 adquiriu por cerca de 7 milhões de
dólares as cartoze estações de Barnett Newman, depois disso preparou uma sala
para que pudessem ser expostas todas juntas, conforme era a intenção do
artista.
Essa sala, com o
tempo, tornou-se um local de peregrinação religiosa, tendo inclusivamente o
jornal Washington Post feito uma manchete sobre esse assunto, que intitulou “Barnett Newman’s Stations of the Cross
draws pilgrims to the National Gallery”.
Aqui chegados,
cremos que já cumprimos a missão evangélica a que nos propusemos e damos
portanto por concluída esta nossa espécie de catequese. Mesmo para finalizar,
um vídeo com a sequência das estações da cruz de Barnett Newman, acompanhadas
pela música de Mozart, e mais concretamente por “Lacrimosa” do Requiem:








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