Em tempos houve um ilustre docente, cujo nome era Mário Dionísio, e que escreveu um livro intitulado “O quê professor”. O dito livro contém vinte e dois textos sobre o ensino, sendo que o seu autor detestava o facilitismo, sendo por isso que escreveu coisas como a seguinte: “…esta preocupação com os exames liga-se a tudo quanto se queira menos a qualquer coisa de muito importante. E é na verdade estranho como tanta gente se preocupa com o gravíssimo problema dos exames sem se preocupar absolutamente nada com o que os nossos estudantes – o futuro do país – aprendem ou não aprendem, com a preparação que adquirem ou deveriam adquirir, outra maneira de dizer: com o que lhes ensinam, ou não.”
Há que dizer, que Mário Dionísio não era apenas professor, era também romancista, poeta e artista. Aqui o vemos abaixo, enquanto escreve.
Há romancistas, poetas e artistas, que logo desde pequeninos se vê o seu destino. É gente que já na mocidade é dada a suspiros, a devaneios oníricos, a altas divagações e aos mais intensos sentimentos. Todavia, também há romancistas, poetas e artistas que parecem pessoas comuns, pois são indivíduos pouco espectaculares, daqueles que como outros nascem, crescem, vivem e morrem o melhor que sabem e podem.
Mário Dionísio era desses, tendo nascido em 1916 numa nada fantástica nem muito linda via de Lisboa, a Rua Andrade, arruamento que fica ali aos Anjos, muito perto do Largo do Intendente, numa perpendicular que faz esquina com a Avenida Almirante Reis.
Genericamente, o sítio têm mantido as mesmas características desde o início do século XX até ao presente momento, e muito particularmente, o facto de ser um local híbrido, onde diariamente uma pequena burguesia ascendente e com algumas pretensões sociais e culturais, convive com uma população mais típica, com menos recursos, poses, e que, de algum modo, é muito “sui generis”.
Abaixo uma imagem da Rua Andrade noutros tempos.
Tendo nascido e crescido no seio da pequena burguesia lisboeta trepa-trepa ou trepa-que-não-trepa, e paredes meias com as gentes dos meios mais operários e plebeus da cidade, Mário Dionísio acabou por receber essas duas heranças: “de um lado o respeito pelo trabalho e pela palavra dada, o dizer as coisas cara a cara e uma costela (ainda) orgulhosamente popular; do outro lado, recebeu o amor da arte, a atracção do invisível e um pendorzinho aristocratizante que há em todo o artista.”
Descreviam-no como um homem sarcástico, dotado de um notável sentido de humor, que alguns consideravam irritante, sobretudo os pertencentes à “intelligentsia” nacional que deambulava por cafés e salões, trocando reverências e salamaleques, e ostentando uma firme fachada de grande sabedoria.
Num dos seus mais conhecidos poemas, “Arte Poética”, é bem visível o desdém de Dionísio pelos pretensiosos delírios líricos muito próprios de uma certa “intelligentsia” portuguesa, e o seu imenso respeito pelas coisas comuns da vida, ou seja, aquelas do dia a dia.
Mário Dionísio diz-nos em “Arte Poética” o seu credo, a saber, que a poesia não está no olhar lânguido, apaixonado e mártir de donzelas sofredoras como a nobre princesa Ofélia, mas sim nas coisas quotidianas: nas ruas, nas bichas de automóveis, na loira da tabacaria, no fumo da fábrica e nas rodas dos comboios.
A poesia não está nas olheiras imorais de Ofélia
nem no jardim dos lilases.
A poesia está na vida,
nas artérias imensas cheias de gente em todos os sentidos,
nos ascensores constantes,
na bicha de automóveis rápidos de todos os feitios e de todas as cores,
nas máquinas da fábrica e nos operários da fábrica
e no fumo da fábrica.
A poesia está no grito do rapaz apregoando jornais,
no vaivém de milhões de pessoas conversando ou praguejando ou rindo.
Está no riso da loira da tabacaria,
vendendo um maço de tabaco e uma caixa de fósforos.
Está nos pulmões de aço cortando o espaço e o mar.
A poesia está na doca,
nos braços negros dos carregadores de carvão,
no beijo que se trocou no minuto entre o trabalho e o jantar
— e só durou esse minuto.
A poesia está em tudo quanto vive, em todo o movimento,
nas rodas do comboio a caminho, a caminho, a caminho
de terras sempre mais longe,
nas mãos sem luvas que se estendem para seios sem véus,
na angústia da vida.
A poesia está na luta dos homens,
está nos olhos abertos para amanhã.
Neste entretanto, aqui fica uma interpretação muito actual e musical de “Arte Poética”:
Ao crescer, Mário Dionísio, como tantos outros, frequentou a escola. Ao escrever sobre isso no seu livro “O quê professor”, lamentou-se sobre a sua terrível experiência como aluno, considerando-se uma vítima de professores que “deseducavam”.
Dionísio defende nesse seu livro, que ser professor é fazer os alunos crescerem por dentro. Resistiu a toda a espécie de facilitismos, aplicando um método bem simples: “o de proceder com os alunos exactamente ao contrário do que eles esperavam. A questão era, no ensino, esta: tentar que compreendessem o que eu dificilmente lhes explicava.”
“O quê professor” é um livro com décadas, contudo, debruça-se sobre assuntos actuais. Vejamos dois meros exemplos disso, primeiro esta passagem, “na mentalidade burocratizada nos serviços que, sob o lema levianamente agitado de ‘acabar com a burocracia’, chegou à pura confusão e emperramento de tudo”, e segundo, esta outra, “a maioria esmagadora de agentes de ensino sem qualquer preparação profissional específica – fruto da inépcia governativa”.
Em síntese, há décadas Mário Dionísio, a propósito do ensino, escrevia sobre o excesso de burocracia e sobre as desastradas tentativas de a eliminar, e escrevia também sobre os problemas resultantes da formação de professores, conclusão óbvia, andamos sempre à volta do mesmo.
“Faça-se negócio com tudo, menos com a saúde e a educação”, disse um dia Mário Dionísio, no entanto, o que vamos abundantemente verificando, é que no nosso tempo saúde e educação são dos mais apetecíveis e lucrativos negócios para gente empreendedora e com iniciativa. Abaixo uma bela obra de Andy Warhol.
Indo a educação a pouco e pouco transformando-se num negócio, por consequência disso, e ao mesmo tempo, vai perdendo o seu carácter utópico. Ou seja, a educação e os seus agentes deixam de crer que é possível existir um futuro melhor e que estão a trabalhar para esse porvir. Deixam também de acreditar que a função primeira da educação é desenvolver o sentido crítico e poético de quem nelas gasta os seus primeiros doze a dezasseis ou mais anos de vida.
A educação transforma-se num negócio não só pela excessiva proliferação de instituições privadas cujo fim primeiro é o lucro, mas igualmente quando tem como objectivo fundamental que os alunos obtenham boas notas, que lhes permitam ingressar em cursos com excelentes perspectivas de emprego, e que por fim encontrem ofícios bem remunerados, daqueles que permitem adquirir bons fatos, automóveis de alta cilindrada e imóveis em condomínios fechados com piscina e tudo.
O negócio educativo é para muitos apelativo, já desenvolver o espírito crítico e poético não tanto, pois de facto não garante bons empregos, não faz nascer empreendedores, nem é promessa de esplendorosas carreiras de sucesso nas melhores empresas.
Desenvolver o sentido poético é crescer por dentro, o mesmo é dizer, é saber ver a poesia que há em tudo, seja nas ruas, nas bichas de automóveis, na loira da tabacaria, no fumo da fábrica ou nas rodas dos comboios.
Desenvolver o sentido crítico é crescer por dentro, o mesmo é dizer, é saber ver o futuro diferente e melhor que há em tudo, seja nas ruas, nas bichas de automóveis, na loira da tabacaria, no fumo da fábrica ou nas rodas dos comboios.
Desenvolver o sentido crítico e poético, fazer crescer por dentro, é em resumo, a utópica função da educação. Leia-se a esse propósito Mário Dionísio: “Não é só aos professores que tais esforços se exigem, o fomentar essa utopia, o fazer cultura e multiplicá-la. É também aos alunos. E às famílias. Que, no ensino também, tudo depende daquele espírito de empenhamento e dádiva completa, de responsabilidade, entusiasmo e vigilância.”
Num Autorretrato escrito que publicou no jornal Diário de Notícias nos últimos anos de vida, Mário Dionísio caracterizou-se assim: “é um fulano digamos que intratável, não porque trate mal a gente, pelo contrário, mas por nos deixar sempre hesitantes sobre por onde lhe pegar.”
Por essa sua afirmação se vê, que Dionísio lecionava como vivia, significa isto, que tal como na escola aplicava um método bem simples, “o de proceder com os alunos exactamente ao contrário do que eles esperavam”, também no dia a dia se relacionava com pessoas deixando-as “sempre hesitantes sobre por onde lhe pegar.”
Provavelmente por isso, foi formalmente expulso do PCP, partido político de que era militante. Com efeito, Mário Dionísio era avesso a ser sempre o mesmo, gostava sim de se reinventar e de se reimaginar, atitudes muito pouco consentâneas com a ortodoxia comunista, que não aprecia grandemente alterações ao programa em vigor nem liberdades criativas relativamente à matéria dada.
Para a ortodoxia comunista tudo estava já escrito, assinado e carimbado, e portanto nada mais há a fazer do que seguir o manual marxista-leninista, no fundo, crêem que as revoluções se fazem sentados à secretária, através de reuniões e plenários, e com muitos planos e decisões correctamente transcritas nas respectivas actas.
Em boa verdade, assim como sempre houve alunos nas escolas que decoram a matéria sem nada saber do que estão a decorar, também sempre houve muito quem se agitasse e manifestasse sem que perceba bem porquê. Pior do que não saber nada , é nada saber do que se julga saber. Vejamos mais um poema de Mário Dionísio:
Pior que não cantar
é cantar sem saber o que se canta
Pior que não gritar
é gritar só porque um grito algures se levanta
Pior que não andar
é ir andando atrás de alguém que manda
Sem amor e sem raiva as bandeiras são pano
que só vento electriza
em ruidosa confusão
de engano
A Revolução
não se burocratiza
“O quê professor”, tal como toda a obra e vida de Mário Dionísio, comprova algo muito simples, é possível ser docente usando a imaginação e a vontade de reinvenção permanente. Reinvenção é no fundo a capacidade de dialogar com o(s) saber(es) vindo(s) do passado, mas não os tomando como um programa ou uma matéria morta, sepultada em páginas de manuais, mas sim como utopia que se imagina e projecta para o futuro.
E por aqui terminamos, com um excerto de um poema, uns meros versos de Mário Dionísio:
As bocas que estão fechadas
não estão caladas
Os braços que estão caídos
não estão imóveis
E os olhos que estão voltados
não estão sem ver





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