E se as sombras não fossem sombrias e nelas houvesse luz. Uma certa luz que desse a ver o que de invisível e essencial há nos objectos, nos corpos e em nós. Uma luz que só se mostrasse através das sombras, e que nesse mostrar-se revelasse também o que de infinito há em cada instante vivido e em tudo o que existe.
E se mais do que isso, se com simples linhas e leves contornos, alguém desenhasse essas sombras e assim revelasse o reverso de tudo o que é ou foi vivido, de tudo o que existe ou existiu. Que revelasse portanto, o avesso que ultrapassa e se expande para lá dos limites temporais e físicos das coisas, das gentes e dos instantes.
Em resumo, e se essas tais sombras desenhadas, fossem afinal um sinal do que de infinito há em tudo.
Na verdade, uma sombra é sempre algo que se desprende e assim excede as fronteiras físicas de um corpo ou objecto, mas uma vez fixa e desenhada, ela acaba também por perdurar e desse modo extrapolar os seus limites temporais.
“Caminhávamos de cabeça baixa em direcção a Mariannenplatz quando, ao levantar os olhos, vi um anjo esvoaçando diante das vidraças de um edifício imenso. Ou seria uma sombra? À tarde visitáramos num dos cemitérios de Kreuzberg a campa de Chamisso, autor desse Schlemihl que se excluíra do convívio dos homens por ter vendido a sua sombra a um cavalheiro de casaca cinzenta. Senti um arrepio e olhei melhor. A sombra à janela não era rilkeana, nada tinha de terrífico, de soturno ou sombrio. Era clara e luminosa, talvez uma anunciação. O enigma estava explicado. Aprendi, a partir de então, a dar mais atenção às sombras, ao que elas encobrem e revelam, não enquanto negativo mas enquanto o outro lado, o lado misterioso da luz, que nelas se revê como num espelho.”
O excerto acima é do romancista Almeida Faria, que viu o Anjo em 1978 em Berlim, e escreveu um belo texto sobre o acontecimento: "O Anjo à Janela". Foi em 2010, que na Capela do Rato, em Lisboa, por detrás do altar, a artista Lourdes Castro (1930-2022) instalou o seu Anjo de Berlim, obra que até então nunca tinha sido exposta.
“À tarde visitáramos num dos cemitérios de Kreuzberg a campa de Chamisso, autor desse Schlemihl…”, relata o escritor Almeida Faria, mas quem era Chamisso? E Schlemihl?
Adelbert von Chamisso (1781-1838) foi o autor da novela a “História Fabulosa de Peter Schlemihl” . A história acompanha o jovem Peter Schlemihl, que, em busca de fortuna, encontra um misterioso homem. Este homem propõe-lhe estranho negócio, riquezas infindáveis em troca da sombra de Peter.
Peter aceita, acreditando que uma sombra não tem valor. No entanto, ele rapidamente descobre que a ausência de sombra o torna alvo de desdém e suspeita, quer por parte dos outros, quer por parte de si próprio.
Sem a sua sombra, Peter perdeu o seu lugar no mundo, sem ela não sabe quem é, não é ninguém, é só um mero corpo encerrado nos seus estreitos limites físicos e temporais, é alguém sem infinito.
O percurso artístico de Lourdes Castro foi profundamente influenciado pela “História Fabulosa de Peter Schlemihl” de Adelbert von Chamisso, tendo nesse contexto a artista dito o seguinte: “O que me atrai: a sombra não ocupar espaço e guardar a sua presença mesmo desligada do corpo que a projectou”.
No excerto do texto acima escrito por Almeida Faria, também se diz acerca de uma sombra, que esta “nada tinha de terrífico, de soturno ou sombrio. Era clara e luminosa, talvez uma anunciação. O enigma estava explicado. Aprendi, a partir de então, a dar mais atenção às sombras, ao que elas encobrem e revelam, não enquanto negativo mas enquanto o outro lado, o lado misterioso da luz…”
Destas palavras se deduz, que no entender de Almeida Faria, tal como no de Lourdes Castro, as sombras não são presenças funestas e sinistras, mas sim presenças delicadas e benignas. Mais do que isso, as sombras, seguindo as palavras de Lourdes Castro, “são a ligação entre presença e ausência, a fronteira entre materialidade e imaterialidade.”
Em síntese, as sombras são um sinal de algo de imaterial, etéreo e transcendente, do infinito que existe em nós, nos corpos e nos objectos.
As sombras são um sintoma de que os corpos e objectos não estão encerrados nos seus limites temporais e nas suas fronteiras físicas, mas que há neles algo de outro, uma certa “presença-ausência”.
As sombras que há nos objectos e corpos são qualquer coisa que os ultrapassa, qualquer coisa de impalpável e incorpóreo, no fundo, uma qualquer espécie de infinito.
No princípio era o verbo e o
verbo se fez luz
para que da luz Lourdes Castro
retirasse
sombras.
Citemos agora o crítico de arte alemão Dietrich Mahlow: “Lourdes Castro cria sombras claras que se separam duplamente da realidade; por um lado, as sombras são escuras e não claras; por outro, elas dão mais uma impressão de tristeza do que alegria. Ora, as sombras de Lourdes Castro não evocam nem o passado, nem a morte, mas a claridade, a ligeireza, a liberdade.”
Sim, as sombras de Lourdes Castro não são tristes e pesadas. As suas sombras assinalam a passagem de alguém, mas de uma forma leve e alegre. De algum modo, as sombras de Lourdes Castro são o exacto oposto daquelas pomposas estátuas que celebram as grandes personalidades históricas, que esculpidas na pesada e dura pedra de um modo grandiloquente pretendem ser imortais.
Se as solenes estátuas de rígida e dura pedra, arrogantemente ambicionam celebrar e fixar para sempre a glória e a imortalidade daqueles que retratam, as leves linhas e os simples contornos de Lourdes Castro representam apenas fugazes e transitórios instantes e os que os viveram. No entanto, mesmo sendo ténues, essas linhas e contornos delimitam subtis sombras, que reflectem e captam perfeitamente a delicada luz da eternidade existente em cada instante vivido.
As pesadas estátuas celebram os grandes feitos de homens de colossal importância, mas nada revelam da sua essência mais íntima, do infinito que neles existia. De modo oposto, as linhas, contornos e sombras de Lourdes Castro, revelam sempre a essência de alguém, o que em si há de eterno num qualquer breve instante.
A essência de alguém não são os seus grandes feitos e o quão importante e considerado era ou é, a essência de alguém, ainda que eterna e infinita, é uma coisa pequena, quase um imperceptível centro a partir do qual a vida irradia.
A essência é como uma leve sombra, uma breve linha, um simples contorno, em síntese, é como uma espécie de menos que é tudo, que desenhado se fixa, fica e permanece: “O contorno é o menos que eu posso ter de alguma coisa, de alguém, conservando as suas características.”
Não raras vezes, olhamos para o mundo e para as coisas e gentes que nele existem, vendo tão-somente a sua aparência, as suas vestes e todas as mais coisas com que se cobrem e adornam. Nem sempre estamos atentos e vemos o invisível que há no mundo, nas coisas e nas gentes, a sua sombra, o seu menos, o que tudo possuiu de infinito e eterno.
Não é esse o caso de Lourdes Castro, que soube ver o invisível, a essência, esse menos que se revela nos contornos com que desenha sombras: “…lembro-me de um dia ter reparado nas sombras... Isso fascinou-me de tal maneira que desde 1962 me ocupo de sombras... um dia olhei para as sombras em vez de olhar para o objeto, olhei para a sombra, e foi assim que começou.”
Uma sombra é um menos que mostra o mais e mais do que é visível, é um sinal do que de invisível há em tudo: “Quando leio Rilke, não vejo só as letras; quando observo um quadro, também não observo só as tintas nem a grade, a tela com cores em cima. Nada pode ser visto como algo à superfície. Quando se está a ver, já se está a aprender o invisível. Não faço essa separação. Os sons tocam em tudo e não apenas nos ouvidos.”
Mas que invisível é esse, que há para ver, para lá da superfície visível do que existe? Digamos que à superfície tudo é transitório, fugaz e passageiro, o tempo arrasta consigo até mesmo as duras e pesadas estátuas com que arrogantemente os homens pretendem fixar grandes personalidades numa imortalidade de pedra. Porém, para lá da superfície visível, há um invisível de cujas sombras são um sinal.
Em conclusão, para lá da superfície visível, existe um invisível-visível nas sombras, cuja essência é eterna. Cada objecto, cada corpo ou cada instante, uma vez tendo vivido e existido, já não pode ser apagado, torna-se eterno. Tudo pode ser esquecido ou eliminado da face da Terra, mas ainda assim, em algum momento isso que foi destruído ou olvidado foi vida e existiu, sendo que tal facto, jamais pode ou poderá ser anulado.
Algures, numa cidade e num século distante, um rapaz escreveu uma carta à sua amada. Da cidade pouco resta, umas meras ruínas no deserto, de qual século se trata, não se sabe ao certo, do rapaz e da sua amada, não se conhece os nomes nem mais nada, e relativamente à carta, há muito que o tempo a desfez, todavia, esse instante existiu, e mesmo que dele não haja vestígio, relato ou recordação, só por ter existido já é eterno, infinito.
Tudo o que jamais existiu, existe ou venha a existir, cada instante, não pode deixar de ter existido. É essa eternidade, esse invisível, aquilo que está para lá da superfície do mundo, dos corpos, dos objectos e de todo e qualquer instante.
É essa eternidade, essa luz invisível, que Lourdes Castro capta através das linhas e contornos com que desenha as suas sombras. Qualquer figura de Lourdes Castro é “Feita de luz e de sombra, ela surge como se estivesse suspensa no espaço e no tempo. Melhor: como se estivesse suspensa entre o espaço e o tempo. É essa eternidade do instante.”
Cada instante só é passageiro à superfície, pois em essência é antes uma realidade imutável, um tempo que não passa. As sombras de Lourdes Castro aspiram à revelação dos objectos, corpos e instantes fora do tempo. Lourdes salva para a eternidade através da sua arte, os objectos, corpos e instantes ausentes a que as sombras que desenha pertencem.
As suas sombras não retratam objectos, corpos e instantes que querem ser imortais, as suas sombras não são equivalentes a duras pedras esculpidas, retratam sim objectos, corpos e instantes infinitos, eternos, momentos felizes, ainda que leves e fugazes.








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