A imagem acima é da autoria de Lourdes Castro,
que um dia disse o seguinte: “A sombra
pertence ao mundo real, não é uma fantasia; existe, nós é que a não vemos ou
não lhe damos importância e por isso somos mais pobres”.
E depois de uns dias de sol, que quase eram de
Verão, eis que regressa um tempo mais pardacento, uma luz novamente acinzentada
e as nuvens escuras feitas de longas sombras. Por nós está muito bem assim, que
nesse contexto somos como o escritor japonês Jun'ichirō Tanizaki, que um dia
escreveu “O elogio da sombra”.
Tanizaki defende que a beleza japonesa não reside
nos objectos em si, mas no jogo de sombras e na subtileza da luz. Enquanto o
Ocidente procura iluminar tudo e eliminar a escuridão, o Japão tradicional
encontra elegância no que está na sombra.
O autor critica a luz eléctrica forte e os
materiais brilhantes, preferindo a textura da madeira, do papel washi e o brilho baço da laca e do ouro
na penumbra. Valoriza também o "brilho
da sujidade" ou o desgaste natural das coisas (wabi-sabi), vendo beleza naquilo que envelhece com dignidade, em
oposição à obsessão ocidental pelo que é novo, brilhante e higienizado.
Tanizaki critica o Ocidente pelo seu desdém pelas
sombras e pela sua obsessão com o que brilha e enche o olho, no entanto, talvez
esse reparo do autor nipónico não seja inteiramente justo.
Se nos restringirmos à actualidade, não há como
contrariar a crítica de Tanizaki, pois basta observarmos os muitos olhos presos
ao brilho dos múltiplos ecrãs, contemplarmos as montras das melhores lojas e
ver a extrema iluminação nocturna das cidades, para percebermos que vivemos
alucinados pela luminosidade. Porém, nem sempre foi assim no Ocidente, houve um
tempo que se sabia ler as sombras.
Para os gregos antigos, a sombra era uma das
metáforas da psique, da alma. A alma de uma pessoa morta era comparada a uma
sombra, e o Hades era a terra das sombras, a terra da morte. No entanto, a
sombra não significava necessariamente a morte, poderia tão-somente representar
uma ausência.
Na sua História
Natural, Plínio (23 d.C.-76 d.C.) relata-nos a lenda do início da pintura.
Na noite anterior à partida do seu amado para a guerra, a filha do ceramista
Butades, ao ver a sombra do adorado projectada numa parede pela luz de uma
lâmpada, desenhou aí o seu contorno. Nasceu assim a pintura, nesse instante em
que através da fixação da sombra do amante, a filha de Butades tentou reter e
guardar a sua presença e, por consequência disso, a sua alma.
O que a lenda contada por Plínio significa, é que
uma sombra é muito mais do que um mero bloqueio da luz. Há vozes e presenças
nas sombras, pois elas dizem-nos algo e não são apenas o simples resultado de
um corpo ou objecto que impede a passagem da luminosidade.
Durante a época renascentista, os artistas tinham
um grande orgulho no domínio da perspectiva, que era então uma descoberta
científica recente. As suas pinturas e desenhos eram imagens geometricamente
exactas, calculadas com o mais alto rigor matemático. Estranhamente, esse
espírito científico não se aplicava às sombras.
Apesar da sua mente científica e do rigor e
exactidão com que compunha as suas representações pictóricas, Masaccio
(1401-1428), um dos pioneiros da pintura renascentista, sabia ler as sombras.
Prova disso, é que nos seus frescos de Santa Maria del
Carmine em Florença, ele desenhou uma sombra projectada numa perspectiva
correcta, mas acrescentou-lhe algo mais. Falamos da história de São Pedro curando
enfermos em agonia através da sua sombra.
Na pintura, o milagre parece acontecer diante de
nossos olhos. Um dos enfermos agonizantes pelos quais o apóstolo passa está já
de pé, o segundo está meio erguido, e o terceiro começa a levantar-se do solo.
Todos estão sarados por terem sido tocados pela sombra de São Pedro.
Masaccio fundiu um antigo mito sobre a sombra
curativa de São Pedro, com a capacidade recém-adquirida da pintura representar
correctamente as imagens em perspectiva. Reúne assim dois reinos, o sagrado e
científico, pelo poder da sombra.
Mas se uma sombra pode ter um poder curativo e
milagroso, o certo é que também pode ser uma funesta premonição. Atentemos na
obra abaixo, “Retrato do Dr. Haustein”,
de 1928, da autoria do artista alemão Christian Schad (1894-1982).
O retrato do Dr. Haustein foi feito em Berlim em
1928, sendo que o doutor retratado era um prestigiado dermatologista de origem
judaica, especializado em doenças venéreas.
Segundo Schad, a sombra de uma figura feminina
fumando que se vê no quadro, pertencia a Sonja, uma modelo por quem o Dr. Haustein,
que era casado, se apaixonou. À luz dos acontecimentos posteriores, a sombra
pintada por Schad pode ser considerada uma premonição do futuro sombrio e
trágico dos Haustein. A infidelidade de Haustein acabou por levar a sua esposa
Friedel ao suicídio, e ele mais tarde também acabou com a sua própria vida,
tomando cianeto após saber que iria ser preso pela Gestapo em 1933.
Mas as sombras, para além de benignas como a de São Pedro ou funestas como a pintada por Christian Schad, podem também ser um sinal de malignidade.
Vitaly Komar e Alexander Melamid nasceram em Moscovo na
década de 40 do século XX, cresceram portanto no que então era a União
Soviética. Em 1977 emigraram para Israel e em 1978 fixaram-se em Nova Iorque
onde vivem até hoje.
Como é do conhecimento comum, na União Soviética
não se vivia particularmente bem, sendo que dos seus líderes, Josef Estaline (1922-1953),
é responsável por um dos maiores números de mortes causadas por um governante
na história, com estimativas que vão até dezenas de milhões de pessoas que
desapareceram para sempre nas prisões ou no Gulag.
Josef Estaline era conhecido pelo título
propagandístico de "O Pai dos
Povos" e gostava de ser representado como um ser luminoso, bondoso,
imaculado e puro. São inúmeras as pinturas em que Estaline nos aparece rodeado
de luz, sem a mais leve sombra, como se estivéssemos num plácido e eterno Verão,
nos amanhãs que cantam.
Vitaly Komar e Alexander Melamid, uma vez fora da
União Soviética, e mais concretamente em 1983, também pintaram um retrato de
Estaline, só que neste caso, podemos observar ao lado ditador soviético uma
longa e maléfica sombra.
O retrato de Vitaly Komar e Alexander Melamid é
todo ele irónico, por um lado replica a grandeza bacoca e artificial da arte
propagandística soviética, por outro recorre ao mito contado por Plínio acerca
do nascimento da pintura, no qual a filha de Butades desenha a sombra do seu
amante.
O cineasta, dramaturgo e escritor Pier Paolo
Pasolini (1922-1975), publicou no ano da sua morte, um ensaio
político-filosófico fundamental, "O Artigo dos Pirilampos" (L'articolo delle lucciole). Os
pirilampos representam no ensaio a cultura e o que é genuíno, ou seja, tudo o que
se vai extinguindo com o triunfo da sociedade de consumo.
Pasolini argumentou que o poder económico de agora
é mais destrutivo que o fascismo histórico, pois molda as mentes e o
comportamento, resultando na perda da diversidade cultural. A "luz"
intensa e artificial da televisão e dos ecrãs, a que ele chama o "fascismo das luzes", ofusca
os pequenos pontos de luz autónomos, ou seja, os pirilampos, o povo e a cultura.
Os pirilampos, com a sua luz intermitente e
delicada, que não elimina as sombras, tornaram-se assim a imagem daquilo que é
livre, poético e resistente, sendo o seu progressivo desaparecimento um aviso
de que sem poesia, sem pensamento crítico, sem beleza e sem saber para lermos o
que nos dizem sombras, também nós nos apagaremos por dentro. Por assim ser,
resta-nos reaprender o saber das sombras e voltar a ver os pirilampos.








Comentários
Enviar um comentário