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Sabiam porventura, que na Lua há caca humana?


E neste entretanto, lá vamos nós, os humanos, outra vez à Lua, sítio onde há muito tempo não íamos. A missão Artemis II descolou na última quarta-feira, e neste momento já se encontra em órbita lunar, demorará uns dias a dar uma volta completa à Lua e de seguida inicia a viagem de regresso à Terra.

 

É certo que nesta missão espacial ninguém pisará a Lua, ainda assim, a viagem é inédita, sendo que o momento mais marcante da missão deverá acontecer quando a cápsula espacial voar por detrás do lado oculto da Lua, o lado que não conseguimos avistar da Terra. Nesse instante, nós, os humanos, estaremos mais distantes do nosso planeta do que alguma vez estivemos.

 

O plano da missão Artemis II é que a nave tripulada Oríon realize um teste de sobrevoo lunar e retorne à Terra. Esta é a primeira nave tripulada a deixar a órbita da Terra desde a Apolo 17 em 1972.

Artemis II é um voo de teste para a alunagem da Artenis IV, voo planeado para levar os humanos de volta a pisar a Lua em 2028.

Abaixo uma imagem de Ártemis, a deusa helénica da Lua , da caça, dos animais selvagens e da virgindade. A esta mesma deusa, deram os romanos antigos o nome de Diana.

 


Sendo virgem, Ártemis (ou Diana para os romanos) despertava o interesse de muitos deuses e homens, mas apenas o seu companheiro de caça, Órion, conseguiu ganhar seu coração. 

 

Apolo é que não ficou nada contente com a situação, enciumado, fez com que Órion fosse morto por um escorpião gigante. Triste, Ártemis transformou o seu adorado Órion numa constelação, para que ele para sempre brilhasse no firmamento.

 

Abaixo um mapa estelar, onde se pode observar a configuração da constelação de Órion.

Não deixa de ser curioso, que os cientistas da NASA em Houston recorram aos deuses antigos para baptizarem as missões espaciais e as suas naves, nesse particular, a polícia judiciária portuguesa tem muito a aprender com os norte-americanos.

 

Na verdade, enquanto o pessoal da NASA seleciona belos e clássicos nomes como Ártemis ou Órion para as suas missões, a nossa PJ opta por designações como Erva Doce, Magic Mail, Pikachu, Influencer, Tutti Frutti, Marquês ou Banana Mix. 

 

Em resumo, qualquer um vê, que enquanto em Houston os cientistas da NASA conhecem e frequentam os clássicos, os agentes da PJ inspiram-se tão-somente em produtos do supermercado ou da loja de brinquedos.

 

Mas dito isto, nem tudo nas missões da NASA tem a elegância e a sofisticação das antigas mitologias helénicas, com efeito, a nave Orion teve um problema, e mais em concreto, na retrete.  

 

Enquanto ainda orbitavam em redor da Terra, a tripulação da Artemis II contactou a equipa da missão em solo para relatar um problema com a sanita. Esta é a primeira vez que uma retrete é instalada numa missão espacial de longa duração. As missões Apolo, que levaram astronautas à Lua nas décadas de 60 e 70, não a tinham. As tripulações de então usavam sacos para recolher os dejectos durante a viagem. Esses sacos eram depois deixados na superfície lunar.

 

A configuração do programa Artemis foi planeada para ser um pouco mais digna.

A bordo da cápsula Orion, há uma retrete que se designa por Sistema Universal de Administração de Resíduos. A porta fica no chão, ao lado da escotilha que os astronautas usam para entrar na nave.

 

“Nós, como tripulação, temos muita sorte em ter uma retrete com porta nesta pequena nave: o único lugar onde podemos ir durante a missão e sentir que estamos sozinhos por um momento”, disse Jeremy Hansen, um dos astronautas da missão Artemis II.

 

Mas como irão exactamente os três homens e a mulher a bordo da Artemis II à retrete no espaço? “Com muito cuidado”, disse Branelle Rodriguez, o elemento feminino da tripulação da nave Orion.

 

A sanita possui um funil ligado a uma mangueira para urinar e um assento para dejectos sólidos. Tem também um sistema automático de fluxo de ar, que ajuda a reduzir o odor e transporta os dejectos para longe, depositando-os em recipientes de armazenamento separados, isto conforme são líquidos ou sólidos.

 

Se, por algum motivo, a sanita de Artemis não estiver operacional, os astronautas recolherão a sua urina em sacos, no entanto, para defecar podem continuar a usá-la, mesmo que esta não esteja em perfeitas condições, todavia, nessa situação, o sistema de fluxo de ar pode não funcionar.

 

Em resumo, em tal caso, os odores vão andar pelo ar e não é de todo em todo improvável que se ouça a clássica e famosa comunicação dos astronautas para a base: “Houston we have a problem”.

 

Abaixo uma imagem da obra de Marcel Duchamp, “Air de Paris”. Durante uma visita a Paris em 1919, Duchamp comprou uma ampola numa farmácia, encheu-a de ar e tapou-a, e foi assim que nasceu umas das suas mais icónicas obras, “Air de Paris”, que é actualmente uma das mais importantes peças da colecção  do muito prestigiado Philadelphia Museum of Art.


 

Isto de ir à Lua tem muito que se lhe diga, por exemplo, em 1902, um dos pioneiros do cinema, o francês George Méliès, decidiu realizar um extraordinário filme “Le Voyage Dans La Lune”.

 

Trata-se de uma obra que é fruto de uma imaginação absolutamente fantástica e delirante, veja-se por exemplo esta imagem abaixo, que corresponde ao momento em que a nave espacial se encontra em plena rampa de lançamento.

 

Se atentarmos na imagem, constatamos que a equipa de lançamento é constituída por um militar, que muito compenetradamente acende o rastilho para que a nave dispare e levante voo. Constata-se também, que essa mesma equipa integra ainda um vasto conjunto de senhoras, umas mais esbeltas outras mais anafadas, que diligentemente dão um empurrãozinho para que o foguetão descole em direcção à Lua.

 

Não menos interessante, são os trajes, que seriam certamente os mais apropriados para uma missão espacial no ido ano de 1902.



A mais célebre cena do filme “Le Voyage Dans La Lune” de George Méliès, é precisamente o momento da alunagem, quando o foguetão pousa exactamente num dos olhos da Lua. Como é evidente, a Lua ficou irritada e com toda a razão, pois ninguém gosta que lhe enfiem coisas pelo olho adentro, e menos ainda se forem tão pontiagudas e afiadas como um foguetão.

 

 

Muitos foram os artistas ao longo da história, a quem a Lua serviu de inspiração para as mais românticas e metafísicas obras. À luz da Lua fizeram-se longas, sentidas e emocionantes declarações, assim como a essa mesma luz se compuseram comoventes poemas e tocantes melodias. Foi ainda sob o efeito da luminosidade lunar, que se pintaram belas telas, cujas cores, figuras e formas extasiaram e encantaram gerações.

 

Dito isto, de todas essas obras cuja inspiração é lunar, a nossa favorita é uma que se intitula “Cão a ladrar à Lua”, uma pintura de 1926 da autoria de Joan Miró. Num primeiro olhar, esta obra parece ser simples e singela, quase um desenho de criança, contudo, nela esconde-se uma profunda densidade espiritual e existencial. É olhar e ver.

 

 

Vejamos alguns dos elementos da composição pictórica. A Escada simboliza o desejo de fuga da realidade terrena e a busca pela transcendência espiritual e pelo cosmos. O cão, pintado com cores vibrantes e formas distorcidas, ladra para uma Lua em fase crescente e para um pássaro. Esta interação sugere um esforço fútil ou uma ânsia frustrada de uma criatura terrestre que tenta alcançar o celestial. A paisagem é dividida de forma austera entre o solo castanho e o céu negro. O vasto espaço vazio entre estes elementos cria uma profunda sensação de solidão, mistério e isolamento.

 

A obra explora a tensão entre o peso da matéria (a terra castanha) e a imensidão do vazio (o céu preto), representando a condição humana presa ao mundo físico enquanto aspira a algo superior. No fundo, “Cão a ladrar à Lua” é um reflexo da nossa ansiedade metafísica.

 

Aqui chegados, o certo é que já falámos de mitologia, de retretes, de caca, de filmes, de senhoras em peculiares trajes, de foguetões enfiados pelo olho adentro e de cães que ladram à Lua, assim sendo, e por consequência lógica, só nos falta falar de Paulo Leminski.

 

Paulo Leminski (1944-1989) foi um grande poeta brasileiro, inventou um jeito próprio de escrever usando trocadilhos, brincadeiras com ditados populares, para além de na sua poesia usar e abusar de gírias e palavrões. Foi muito influenciado pela cultura japonesa, principalmente pela poesia curta e objectiva dos Haikus. Aqui fica um seu poema, que tem como tema a Lua, mas não só:

 

A lua foi ao cinema,

passava um filme engraçado,

a história de uma estrela

que não tinha namorado.

 

Não tinha porque era apenas

uma estrela bem pequena,

dessas que, quando apagam,

ninguém vai dizer, que pena!

 

Era uma estrela sozinha,

ninguém olhava para ela,

e toda a luz que ela tinha

cabia numa janela.

 

A lua ficou tão triste

com aquela história de amor,

que até hoje a lua insiste:

– Amanheça, por favor!

 

E bom, porque aqui vamos terminar este nosso texto de hoje em torno da Lua, que por estes dias tem andado cheia. Para acabar, “Fly me to the moon, Let me play among the stars…”

 

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