E neste entretanto, durante a semana que hoje finda, Bad Bunny deu uns concertos em Lisboa. As televisões fizeram as reportagens habituais perguntando à malta que saía do show se tinha ou não gostado, houve notícias de que os bilhetes se tinham esgotado, e pronto, assim se passou mais um bocado, e toca a andar para outro lado, que pelos vistos acerca disto está tudo dito e falado.
Não é que nós, os que aqui escrevemos, sejamos frequentadores ou sequer apreciadores de mega-concertos em estádios e festivais, Deus nos livre e guarde de tal sorte, todavia, hoje queremos mesmo falar de Bad Bunny, pois estamos em crer, que esta sua passagem pela nossa pátria não foi bem aproveitada, pois foi muito o que por cá ficou por dizer acerca do homem e do seu significado.
Claro que nós sabemos, que quem nos lê já terá uma certa idade, que possuirá altas referências culturais não só nacionais como também internacionais, sendo precisamente essas as razões pelas quais, esses nossos leitores não serão gente muito particularmente interessada nas mais jovens e recentes estrelas musicais.
Mas dito isto, aqui prometemos a todos esses nossos maduros e intelectualmente sofisticados leitores, que falaremos de Bad Bunny numa perspectiva histórica-cultural e igualmente cosmopolita, com passagens por Nova Iorque e Puerto Rico.
Em síntese, vão ver que vai valer a pena ler o que de seguida vamos escrever, e caso assim não venha a ser, paciência. Abaixo uma foto de Nova Iorque e mais especificamente do East Harlem, zona também conhecida como Spanish Harlem. É nesse bairro de Manhattan que vive uma enorme comunidade porto-riquenha.
Porto Rico é o sítio de origem de Bad Bunny, que apesar disso é cidadão norte-americano desde que nasceu. Não só ele é legalmente norte-americano, como o são também todos os porto-riquenhos.
A ilha de Porto Rico foi colonizada pelos espanhóis em 1493 após a chegada de Cristóvão Colombo. O local era muito rico em minerais, vai daí, uns séculos depois, em 1898, os Estados Unidos invadiram Porto Rico e expulsaram de lá os espanhóis. Essa guerra ficou para a história como a Hispano-Americana.
No fim da guerra foi assinado um tratado e os EUA ficaram com Porto Rico. Por consequência disso, em 1917 foi aprovada uma lei que concede a cidadania norte-americana a todos os porto-riquenhos. A ilha passou a fazer parte dos EUA, mas conseguiu manter um governo independente, situação que dura até ao dia de hoje.
Postas as coisas em termos históricos, e caso não o soubessem, ficaram agora a saber que os porto-riquenhos que andam pelos EUA não são emigrantes, são cidadãos norte-americanos desde o momento em que vieram ao mundo. Abaixo uma foto da rapaziada porto-riquenha a brincar numa estrada no East Harlem em Nova Iorque.
O actual presidente da Câmara Municipal de Lisboa é um fã permanente de eventos. Sabendo que Bad Bunny estava na cidade ficou todo excitado, mas posteriormente, quando soube os números, ficou simplesmente eufórico.
Foram cerca de 120 mil pessoas as que vieram a Lisboa para os concertos de Bad Bunny e destas, 45 mil eram estrangeiras, espanholas na sua maioria, mas também norte-americanas e sul-americanas. Foi mais um grande momento para os hotéis, para os alojamentos locais, para a restauração, para os Tuk-Tuk e para as lojas de souvenirs. O actual presidente da Câmara Municipal de Lisboa diz que são precisos mais eventos destes.
Bad Bunny combate activamente a turistificação da ilha de Porto Rico através da sua música, destacando o impacto negativo do turismo predatório, da especulação imobiliária e da privatização de praias na ilha.
Em 2022, Bad Bunny lançou o documentário “El Apagón - Aqui Vive Gente”, conjuntamente com o tema musical homónimo. O documentário começa com um videoclipe e muda de rumo em poucos segundos, dando lugar a um título de jornal que mostra uma fábrica eléctrica explodindo, enquanto a voz de uma mulher explica numa reportagem televisiva, como por esse motivo a ilha ficou sem energia. A reportagem menciona também que os hospitais ficaram vinte horas sem luz.
A narrativa continua, explicando que o serviço de electricidade de Porto Rico foi privatizado há alguns anos e entregue à LUMA Energy. Devido à poupança nos custos e nos materiais, isso resultou em frequentes apagões mas em contas de luz mais altas, ambas coisas que só beneficiaram os empresários.
O vídeo mostra o quotidiano dos porto-riquenhos comuns, que contrasta com as grandes mansões e prédios para estrangeiros que têm surgido na ilha. Através dos três personagens principais, a história narra como os antigos moradores de prédios de apartamentos são notificados de que devem desocupá-los em 30 dias após alguém ter decidido comprar o imóvel.
O filme ilustra também como o bairro de Puerta de Tierra, que na época colonial era um território de escravos, subitamente se transformou numa cobiçada zona de investimentos imobiliários. Pessoas que viviam ali há 40 anos foram despejadas, e escolas públicas foram fechadas para dar lugar a prédios à beira-mar destinados a uns poucos privilegiados ou a estrangeiros. O preço das rendas nessa zona disparou de 300 dólares mensais para 150 dólares diários em alojamentos da Airbnb.
Puerto Rico
You lovely island
Island of tropical breezes
Always the pineapple growing
Always the coffee blossoms blowing
And the money owing
And the baby's crying
And the people trying
I like the island Manhattan…
Os nossos leitores mais melómanos já terão por certo reconhecido os versos acima, que são de “West Side Story”, o imortal musical de Leonard Bernstein, cuja letra foi escrita pelo brilhante Stephen Sondheim.
Parte da história de “West Side Story” passa-se no East Harlem. Na verdade, o musical estava para se chamar “East Side Story” e contar os dramas e rivalidades que existiam em Nova Iorque entre judeus e católicos, porém, devido a imponderáveis vários, acabou antes por contar a história dos confrontos entre jovens brancos e porto-riquenhos.
Abaixo, ficam expostas as razões pelas quais um porto-riquenho deveria escolher viver em San Juan, a capital de Porto Rico, ou então antes em Nova Iorque, no East Harlem, na América, tudo isso filmado pelo célebre Steven Spielberg:
O intervalo da final anual da Super Bowl é o quarto de hora televisivo mais visto no mundo inteiro, há décadas que assim é. Durante o intervalo da Super Bowl actua o artista musical mais conhecido e famoso do momento, por lá já passaram a Ella Fitzgerald, o Michael Jackson, a Diana Ross, a Britney Spears, os U2, os Rolling Stones, o Prince, a Madonna, a Shakira e muitos outros, em 2026 foi a vez de Bad Bunny.
O intervalo da final da Super Bowl é um evento à escala global, o actual presidente da Câmara Municipal de Lisboa ficaria certamente delirante se tal acontecimento se desse na nossa capital, e isto mesmo que o artista musical convidado falasse criticamente do défice de políticas de habitação, de turistificação e de privatizações falhadas de serviços públicos devido à poupança em custos e materiais.
A bem dizer, o actual presidente da Câmara Municipal de Lisboa sabe perfeitamente que a comunicação social não iria estabelecer um nexo entre os conteúdos dos temas musicais e o que sucede na capital de Portugal e não só. Por cá, o que interessa às televisões é o evento, isso é que enche o olho.
Eventos festivos é o que dá alegria e satisfação às TV’s. Abaixo um dia de festa no East Harlem, para o repasto há porco assado.
Contrariamente ao que sucede por cá, Bad Bunny nos bons EUA provoca fortes reações políticas. A sua actuação no intervalo da final da Super Bowl originou declarações ao mais alto nível. Donald Trump pronunciou-se logo nessa noite: “Absolutamente terrível, um dos piores espectáculos DE SEMPRE! Não faz sentido, é uma afronta à grandeza da América, e não representa os nossos padrões de sucesso, criatividade e excelência. Ninguém entende uma palavra do que este tipo diz e as coreografias são nojentas, especialmente para as crianças que assistem em todos os cantos dos Estados Unidos e do mundo".
Congressistas conservadores norte-americanos exigiram uma investigação federal sob a alegação de que o espetáculo teria infringido as regras televisivas estabelecidas. No entanto, a Comissão Federal de Comunicações concluiu que o concerto não violou quaisquer normas de transmissão e o caso foi arquivado.
A actuação de Bad Bunny fez história por ser a primeira na Super Bowl em que se cantou quase inteiramente em espanhol. Para além disso, o concerto celebrou fortemente a cultura e a identidade porto-riquenha, coisa que certa gente nos EUA, não gosta muito que se faça.
Todavia, o mais problemático foi quando Bad Bunny disse o seguinte: “God bless America! Sea Chile, Argentina, Uruguay, Paraguay! ¡Bolivia! Perú, Ecuador! Brasil, Colombia! Venezuela, Guyana, Panamá! Costa Rica, Nicaragua! Honduras! El Salvador! Guatemala! México! Cuba, Dominicana, Jamaica! Haití, las Antillas! ¡United States! ¡Canada!... Y mi patria, mi tierra... Puerto Rico!”
Feito o discurso, apareceram no relvado bandeiras de todos os países americanos, e Bad Bunny concluiu “…somos América. Seguimos aquí!”
Como se sabe, para os enormes patriotas dos EUA, a América é os Estados Unidos da América, dizer “Together we are America”, e incluir nesse “together” gente do México, das Honduras, de Cuba ou de um outro qualquer país latino-americano, é uma heresia e uma provocação.
Imagine-se o que seria se em Lisboa Bad Bunny tivesse dito qualquer coisa deste género: “Viva Portugal. Seja Angola, Moçambique, Cabo Verde, Brasil, Bangladesh, Goa, Sacavém, Loures, Mouraria, Guiné-Bissau, Vila Nova de Gaia, a Cova da Moura, Tondela, Chelas ou Odivelas.”
Já agora um aparte a propósito do Bangladesh. A presença portuguesa no actual território do Bangladesh, antes chamado Bengala, remonta ao início do século XVI. Navegantes e comerciantes portugueses estabeleceram-se fortemente na região, deixando raízes culturais e linguísticas profundas que perduram até aos dias de hoje, até no vocabulário.
Vejamos algumas palavras da língua bengali, cuja origem é portuguesa:
জানালা (janala) — janela
চাবি (chabi) — chave
বালতি (balti) — balde
বোতাম (botam) — botão
আলমারি (almari) — armário
কামিজ (kamij) — camisa
সাবান (saban) — sabão
আনারস (anarôsh) — ananás
Bad Bunny não falou de nada disto em Lisboa, mas disse às dezenas de milhares de pessoas que tinha à sua frente para tirarem fotos mentais, daquelas que ficam guardadas na memória humana e não na de um qualquer equipamento electrónico. “Tirem fotos com o coração”, foi a expressão que ele usou.
O tema “NUEVA YoL" foi um momento épico dos concertos de Bad Bunny em Lisboa. Abaixo uma foto de uma senhora porto-riquenha no East Harlem em Nova Iorque.
Aqui chegados, cremos que cumprimos o prometido, ou seja, escrevemos a propósito de Bad Bunnny numa perspectiva histórico-cultural e simultaneamente cosmopolita. Acreditamos que os nossos leitores, mesmo os mais maduros, terão ficado satisfeitos por saberem agora um pouco mais de qual o significado de uma jovem e recente estrela musical, provavelmente até se sentirão mais novos, mais “up to date” com as actuais novidades musicais.
Posto isto, só nos resta deixar-vos o vídeo da actuação de Bad Bunny na final da Super Bowl, que resume tudo o que aqui dissemos. O cenário incluiu plantações de cana-de-açúcar, idosos a jogar dominó, bancadas de raspadinhas (piráguas) e o icónico chapéu rural Pava.
Bad Bunny apresentou-se no topo de uma réplica de uma casa tradicional porto-riquenha (elemento central das suas digressões). No seu interior surgiram pessoas a celebrar como se estivessem numa festa de bairro. Durante o tema "El Apagón", o cenário exibiu postes de eletricidade danificados, foram tocados êxitos como “Debí Tirar Más Fotos” e “Tití Me Preguntó" e a Lady Gaga surpreendeu o público ao subir ao palco para interpretar uma versão em ritmo de salsa da balada "Die With a Smile".
Aqui fica:







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