Talvez não haja uma maior declaração de amor a Nova Iorque, que a do início do filme “Manhattan” de Woody Allen.
Nesse excerto introdutório podemos ouvir frases tão interessantes como por exemplo, “He adored New York City, although to him it was a metaphor for the decay of contemporary culture” ou “To him, New York meant beautiful women and street-smart guys who seemed to know all the angles”.
Todd Webb (1905-2000) é um dos heróis da fotografia nova-iorquina, as suas imagens moldaram e ajudaram a criar a nossa memória colectiva da cidade que nunca dorme.
Mesmo quem nunca tenha estado em Nova Iorque, tem na mente imagens dessa cidade, sendo que, grande parte dessa paisagem mental urbana, terá certamente tido origem nalgumas fotografias de Todd Webb.
As fotos de Todd Webb captam a imponência dos edifícios nova-iorquinos, mas também esses pequenos momentos quotidianos, que fazem de Nova York aquilo que ela é.
Talvez haja quem pense que Nova Iorque seja uma urbe glamourosa, opulenta e luxuosa, no entanto, ela é essencialmente uma cidade de “beautiful women” de todos os credos, nacionalidades e idades, e de “street-smart guys”.
Podemos nada saber dos rapazes da imagem mais abaixo, todavia, ao olharmos, sabemos de imediato que são de Nova Iorque. Há algo nas suas posturas, nas vestes, nos penteados e nos modos de olhar, que nos diz explicitamente isto é rapaziada característica de Nova Iorque.
Rapaziada essa que ao crescer, serão os tais “street-smart guys”, ou seja, gente “who seemed to know all the angles”, que nunca se deixa ficar e que tem sempre resposta pronta na ponta da língua.
Diz o título deste texto “E se antes a mocidade portuguesa já tivesse sido, tipo assim, estilo Nova Iorque?”. O certo é que ao dia de hoje, será muito difícil encontrar pelo território nacional rapaziada que ao crescer venha a saber “all the angles”, que nunca se deixe ficar e tenha sempre resposta pronta na ponta da língua.
Com efeito, os meninos actuais são excessivamente protegidos e o mais provável é que muitos deles quando crescerem fiquem deprimidos ao enfrentarem as primeiras contrariedades adultas, não saibam resolver problemas, necessitem de auxílios vários para seguirem em frente e se sintam continuamente perseguidos pelo mundo, pela família, pelos amigos, pelos vizinhos, pelos colegas, pelos chefes, pelos políticos, pelos imigrantes, pela ladroagem e por quem mais existir.
Mas e se a rapaziada portuguesa em tempos não muito distantes, já tivesse sido diferente do que hoje é? E se dantes os moços fossem assim mais previstos e despachados, tipo estilo Nova Iorque?
Na Fundação Calouste Gulbenkian expõe-se neste momento, fotografias de Todd Webb tiradas em Portugal, https://gulbenkian.pt/agenda/o-portugal-de-todd-webb/ , mas para ilustramos a nossa questão, vamos antes recorrer ao casal de fotógrafos alemães Ute Mahler e Werner Mahler, que andaram por Lisboa em finais da década de 80, e cujas fotos estão actualmente expostas na Praça dos Restauradores, https://www.agendalx.pt/events/event/ute-e-werner-mahler/
Atente-se por exemplo na imagem abaixo, publicada no livro de Ute Mahler e Werner Mahler intitulado “Lissabon 87/88”.
Na verdade, a foto retrata uma situação comum naquela década e em anteriores, em que a mocidade de então, plena de iniciativa e criatividade, decidiu arranjar uma forma de antecipar em muitos anos, a existência do actual Passe Navegante gratuito para estudantes até aos 23 anos.
Disse Todd Webb numa entrevista acerca das suas fotografias nova-iorquinas, que as tirava ao passear ao acaso pela cidade. “I see wondrous things”, foi o que declarou acontecer nesses passeios por longas avenidas, estreitas ruas, becos sem saídas e bairros mais escondidos.
O cruzamento da Rua LaSalle com a Amsterdam Avenue situa-se no Harlem, em Nova Iorque, e foi precisamente nesse sítio que Todd Webb captou a imagem abaixo, onde se vê um conjunto de raparigas de diversas idades a dançar em roda.
Um escaldante dia de verão. Um extintor de incêndio dispara e, subitamente, um grupo de moças de múltiplas origens raciais une-se em círculo, em harmonia e em alegria, para receber a dádiva da água.
Todd Webb passeava ao acaso pela cidade, olhava e via “wondrous things”, e foi assim que obteve uma das mais icónicas fotos de Nova York, onde contemplamos aquelas que, quando cresceram, formaram uma nova fornada de “beautiful women” nova-iorquinas.
Também os alemães Ute Mahler e Werner Mahler passearam por uma cidade, só que no seu caso pela Lisboa de finais da década de 80. Coincidentemente, encontraram igualmente quem em ruas esconsas, e por entre os becos e as vielas, dançasse livremente na rua, coisa que actualmente as crianças portuguesas quase já só fazem em ateliers de expressão corporal.
Acrescente-se a isso, que as crianças lusitanas, quando têm sensivelmente nove anos de idade, são até sujeitas a uma Prova de Monitorização da Aprendizagem em que, entre outras coisas, e passamos a citar a documentação oficial, se avalia a área de consciência e domínio do corpo na qual se enquadra a expressão corporal, a perceção física e a motricidade.
Apreciemos a imagem abaixo, captada em Lisboa por Ute Mahler e Werner Mahler na década de 80, e admiremos o perfeito domínio do corpo que o rapaz demonstra, assim como a excelência da sua perceção física e ainda a sua fina motricidade.
Uma das coisas mais irritantes que nos pode suceder ao andarmos actualmente pelas cidades portuguesas, e por Lisboa muito em particular, é a forma lenta como agora quase toda a gente se mexe ao caminhar. Digamos que a velocidade da motricidade locomotora está em declínio no centro da cidade.
Sim, se for ao domingo, e vá lá ao sábado à tarde, está tudo muito correcto, pois esses não são dias para se estar com pressas nem para grande locomoções. Como diria o poeta Alexandre O’Neill:
Os domingos de Lisboa são domingos
Terríveis de passar – e eu que o diga!
De manhã vais à missa a S. Domingos
E à tarde apanhamos alguns pingos
De chuva ou coçamos a barriga.
Dito isto, o problema da lentidão põe-se pois durante o resto da semana. Uma cidade é por definição um sítio intenso onde se está sempre com pressa, temos de ir aqui e ali, de fazer isto e e aquilo, e o que importa é andar para a frente, resolver os problemas e despachar o serviço.
Uma cidade não é isto, é sim agitação e movimento, intensidade e stress. Quem quer tranquilidade, paz e sossego, que compre uma casa de campo.
Experimentem lá atravessar a Rua Augusta em Lisboa num dia de semana, o facto é que vai tudo em passo de turista, o mesmo é dizer, de caracol. Dá-se cinco passos e estanca-se, mais uns quantos e para-se, e isto já para não falar daqueles que ficam demoradamente a conversar no meio da rua, como se estivessem na sua sala de estar.
Em contraponto a esta quase paralisia da interação entre o sistema musculoesquelético e o sistema nervoso central de quem caminha pela Rua Augusta, vejamos mais uma vez a Nova Iorque Todd Webb.
Todd Webb compôs um tríptico fotográfico com imagens captadas na Sixth Avenue e, como quem estiver atento reparará, não há ninguém parado de olhar embasbacado como se estivesse a pensar na morte da bezerra, nem ninguém a caminhar tão pachorrentamente como se tivesse ido pastar. Aqui fica a sequência com as três fotos:
Vista Nova Iorque e o movimento da Sixth Avenue, regressemos à Rua Augusta da década de 80 e às imagens de Lisboa dos alemães Ute Mahler e Werner Mahler. O que através das suas fotos podemos verificar, é que na Rua Augusta desses tempos as pessoas mexiam-se e iam com pressa aos seus afazeres.
Por consequência, a Rua Augusta era uma verdadeira via citadina e não uma mera passarela para turistas e outras gentes que caminham sonolentamente, por de facto não terem na realidade de ir a lado nenhum em concreto.
Repare-se na foto abaixo de Ute Mahler e Werner Mahler, em que em sentido oposto ao acima dito, toda a gente vai decididamente a algum lado, isto com excepção do cão, que efectivamente está de sesta a dormir uma soneca.
Nesta outra foto abaixo, da mesma época, da mesma rua e dos mesmos fotógrafos, comprova-se outra vez mais o movimento e a intensidade de outrora. Como se pode verificar toda a gente se mexe e vai à sua vida e ninguém anda por ali a pastar.
Em síntese, a Rua Augusta nesse tempo parecia-se mais com Nova Iorque do que se parece agora. O ambiente assemelha-se no presente momento ao de umas termas terapêuticas, um sítio para onde jovens e já não tão jovens vão por aconselhamento médico, de modo a fazerem lentos passseios e assim se tratarem dos nefastos efeitos que a agitação e o stress dos seus quotidianos lhes provocam.
Aqui chegados, estamos perto do fim, mas antes de terminarmos, nem Lisboa, nem Nova Iorque, e sim Paris.
A imagem abaixo é de Todd Webb, que passou largos anos na capital francesa. Ainda assim, e sendo essa uma outra cidade, conseguimos perceber perfeitamente que o empregado de café fotografado pensa como nós.
Com efeito, o empregado está a olhar para a senhora que vai apressada, e com certeza estará a pensar de si para consigo, isto sim é uma mulher citadina, uma verdadeira mulher de Paris, uma que não anda pelas ruas desta urbe a arrastar-se em passo lento, como se fosse turista ou andasse a pastar ovelhas por verdejantes paisagens campestres.












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