Geografias com geometrias literárias-sentimentais é uma nova disciplina transdisciplinar que acabámos de inventar. Que tal disciplina possa alguma vez ou não existir na realidade, é coisa que tanto nos faz. O que na verdade nos importa é a ficção.
As geografias com geometrias literárias-sentimentais dedicam-se a lugares que existindo, não existem. Mas dito isto, esses lugares geográficos existem, mas só na medida em que os seus perímetros e áreas não se calculam geometricamente através de metros, de centímetros ou de quilómetros, as suas linhas não são rectas, paralelas ou perpendiculares, e nem tão-pouco o serão curvas ou diagonais.
Nesta disciplina que inventámos, tudo é medido por palavras, frases e sentimentos e, mais do que isso, o que interessa não é o raciocínio lógico-abstracto, mas sim a imaginação. São portanto lugares geográficos próprios para improváveis acontecimentos.
Há muitas formas de passearmos pela geografia de uma cidade. De carro, não tem grande graça, a pé, será deveras muito melhor, mas o que de facto é uma maravilha, é irmos e sentirmos as longas ruas e as extensas avenidas de uma urbe sem sairmos do mesmo lugar, sendo que isso só se faz, lendo obras literárias.
Ernest Hemingway inicia um romance com a seguinte frase: “If you are lucky enough to have lived in Paris as a young man, then wherever you go for the rest of your life, it stays with you, for Paris is a moveable feast”.
Nós, os que lemos esse livro de Hemingway, logo e só com essa frase inicial, somos imediatamente transportados para a lendária cidade de Paris e para os cafés do Quartier Latin. Ficamos assim envoltos nessa atmosfera citadina, intensa e boémia, onde escritores e artistas que mais tarde haveriam de ficar na história, viviam ao deus-dará, sem eira nem beira e indo em frente de modo incerto e nada recto.
Andavam todos pela vida à toa, indo ao acaso pelas ruas e avenidas de Paris, sendo que, isso em nada os impedia de criarem obra, de conviverem, de se divertirem e de serem felizes.
Nós sabemos que a Paris descrita por Hemingway nunca existiu a não ser na sua escrita. Foi através dela, da escrita de Hemingway, que essa cidade de Paris nasceu, cresceu e se reproduziu na imaginação de milhões de leitores.
Os lugares que Hemingway retrata estão lá, existem e são concretos e visitáveis, todavia, a cidade traçada pelo escritor só pode ser calcorreada lendo as páginas dos seus livros.
Miguel Cervantes inicia o seu D. Quixote como esta simples frase “En un lugar de la Mancha, de cuyo nombre no quiero acordarme...", e só com essas poucas palavras instantaneamente traça sem régua e esquadro um largo mundo de campos, vilas e cidades.
É certo que nos vastos campos de Castilla-La Mancha há imensos e tremendos moinhos, não sendo portanto de espantar, que D. Quixote os tenha confundido com ameaçadores gigantes. No entanto, onde nós mais gostamos de passear conjuntamente com o cavaleiro da triste figura não é propriamente pelos campos, mas sim pelas cidades imaginadas e, muito especialmente, pela de Toledo.
Toledo, urbe a que Cervantes chamou “rocha orgulhosa, glória da Espanha e luz das suas cidades”.
Abaixo Toledo tal como foi pintada por El Grego em 1596. O pintor manipulou a geografia e a geometria real da cidade, para criar uma imagem imaginada na qual se vê o Tejo que perto daí nasce, a atravessar a Puente de Alcántara sob um céu tempestuoso. Esta obra encontra-se actualmente no Metropolitan Museum of Art em Nova Iorque.
A cidade de Toledo existe, só que não exactamente como El Grego a pintou. Precisamente pelas ruas de Toledo, passou um dia passeando D. Quixote, porém, tal passeio só aconteceu nas páginas escritas por Cervantes e na imaginação de quem as leu.
A arte literária de Cervantes é tão complexa e subtil, que ao narrar a passagem de D. Quixote por Toledo, o escritor faz com que o seu personagem encontre um livro antigo escrito em árabe, no qual se relatam as aventuras desse mesmo personagem, essas que Cervantes escreveu.
Cervantes escreve as aventuras de um personagem que encontra um livro no qual estão escritas as aventuras que ele próprio está a escrever. Em resumo, o personagem do livro de Cervantes descobre-se a si mesmo como personagem de um livro real que supostamente teria sido escrito por um tal Cide Hamete Benengeli, que na verdade é um escritor imaginário.
Em síntese, é um momento ficcional em espiral. Vejamos esse excerto em que Cervantes descreveu D. Quixote espantado por descobrir que na realidade era um personagem de ficção, coisa que deveras era.
«Estando eu um dia na Rua Alcaná em Toledo, chegou um rapaz a vender uns catrapázios e papéis velhos por uma moeda; e como sou um aficcionado da leitura, mesmo que sejam os papéis rasgados das ruas, levado por esta minha natural inclinação, agarrei num dos catrapázios que o rapaz vendia, e percebi-lhe caracteres que reconheci serem árabes. E como, apesar de os conhecer, não os sabia ler, andei vendo se aparecia por ali algum mourisco que os lesse, e não me foi muito difícil topar semelhante intérprete, pois mesmo que procurasse um de outra melhor e mais antiga língua, o toparia. Por fim, a sorte fez-me deparar com um, que, dizendo-lhe eu qual era o meu desejo e pondo-lhe o livro nas mãos, o abriu a meio, e lendo um pouco nele, começou a rir-se.
«Perguntei-lhe de que se ria, e respondeu-me que de uma coisa que aquele livro tinha escrita na margem, como anotação. Disse-lhe que me a dissesse, e ele, sem deixar de rir, disse:
- Está, como disse, aqui na margem escrito isto: "Esta Dulcineia del Toboso, tantas vezes nesta história referida, dizem que teve melhor mão para salgar porcos do que outra mulher qualquer de toda a Mancha".
«Quando ouvi dizer Dulcineia del Toboso, quedei-me atónito e suspenso, porque logo se me representou que aqueles catrapázios continham a história de D. Quixote. Com esta imaginação, dei-lhe pressa de que lesse o princípio; assim o fazendo, mudando de improviso do árabe para castelhano, disse que dizia: História de Don Quixote de la Mancha, escrita por Cide Hamete Benengeli, historiador árabe.”
Abaixo uma imagem publicitária de “A Rota D. Quixote”, um circuito turístico muito popular no país vizinho. D. Quixote era um personagem de ficção, contudo, há toda uma série de actividades económicas concretas cuja sustentação efectiva assenta realmente na imaginação de Cervantes e também na de quem o lê.
O Tejo vem desde Toledo para desaguar em Lisboa, e quem também veio para essa mesma cidade foi Miguel Cervantes, o autor de D. Quixote. Segundo a lenda, terá por aqui tido um amor luso do qual nasceu uma filha chamada Isabel Saavedra.
Há também quem diga que Isabel Saavedra era filha de uma taberneira de Madrid, mas isso nada importa, pois às lendas pouco interessam os factos e os dados. O certo é que o escritor viveu em Lisboa entre 1581 e 1583 e foi aí que começou a escrever a sua primeira novela La Galatea, tendo nela incluído os aromas da cidade, as margens do Tejo e as especificidades das primaveras lisboetas.
Lisboa e a atmosfera faustosa dessa época deixaram marcas para sempre na escrita de Cervantes. Na sua última obra, Os Trabalhos de Persiles e Sigismunda, o autor descreve longamente as gentes da capital portuguesa, colocando os protagonistas do seu livro a peregrinarem pela cidade, após terem desembarcado num dos seus múltiplos cais.
Se a Paris de Hemingway, tal como a Toledo de Cervantes, são cidades imaginadas, não o é menos Lisboa. Sim, a cidade concreta existe e nela pode passear-se de carro ou a pé pelas suas longas ruas e extensas avenidas, no entanto, o que aqui nos interessa são aquelas passeatas que sucedem sem que saíamos do mesmo lugar, ou seja, essas em que vamos caminhando não pelas calçadas, mas sim pelas palavras e frases de um livro.
Pensemos em Lisboa e mais especificamente no bairro do Chiado. Na verdade, o Chiado nunca seria o que é, não se tivesse dado o caso de Eça de Queiroz o ter imaginado em “Os Maias” e noutros livros mais.
Em “Os Maias”, é num café do Chiado onde se dá o reencontro entre Carlos, recentemente regressado de Paris após lá ter estado uma longa temporada, e Ega, o seu amigo de sempre. Carlos apresenta-se em óptima forma, Ega nem tanto, está mais para o arrasado. Vejamos:
“Ega, já curado, radiante, numa excitação que não se calmava, alagando-se de café, entalava a cada instante o monóculo para admirar Carlos e a sua imutabilidade.
- Nem uma branca, nem uma ruga, nem uma sombra de fadiga!... Tudo isso é Paris, menino!... Lisboa arrasa. Olha para mim, olha para isto!”
O Chiado queirosiano é um sítio em que os habitués dos cafés não se conformam por Lisboa não ser Paris, bem tentam ser janotas e tudo o mais, mas de facto não é bem a mesma coisa Lisboa e Paris.
O Chiado queirosiano é um lugar onde os mais finos andam ociosamente deprimidos, sem saber o que fazer e que rumo dar à sua vida. Vejamos como Ega matuta para si mesmo, acerca de que carreira seguir:
“De resto, que podia ele fazer neste país?... Quando voltara de França, ultimamente, pensara em entrar na diplomacia. Para isso sempre tivera a blague: e agora que a mamã, coitada, lá estava no seu grande jazigo em Celorico, tinha a massa. Mas depois reflectira. Por fim, em que consistia a diplomacia portuguesa? Numa outra forma da ociosidade, passada no estrangeiro, com o sentimento constante da própria insignificância. Antes o Chiado!”
Mas o que dizer de um outro local da capital, dessa discreta via da baixa lisboeta chamada Rua dos Douradores? O que seria da Rua dos Douradores, se porventura Bernardo Soares, semi-heterónimo de Fernando Pessoa em “O Livro do Desassossego”, lá não estivesse estado empregado como ajudante de guarda-livros num modesto escritório?
“Penso às vezes que nunca sairei da Rua dos Douradores. E isto escrito, então, parece-me a eternidade”, assim escreveu Pessoa, ou melhor, Bernardo Soares, pessoa que na realidade nunca existiu, mas que existiu sim poeticamente.
E a Rua dos Douradores existe? Existiu? Está lá para quem a quiser atravessar, mas o que vale realmente a pena, é percorrer e viajar pela Rua dos Douradores que existe nas páginas de “O Livro do Desassossego”.
Na verdade, é mais frutífera uma viagem, sendo esta ficcionada. Atentemos no que acerca disso nos disse, o guarda-livros Bernardo Soares: “Que é viajar, e para que serve viajar? Qualquer poente é o poente; não é mister ir vê-lo a Constantinopla. A sensação de libertação, que nasce das viagens? Posso tê-la saindo de Lisboa até Benfica, e tê-la mais intensamente do que quem vá de Lisboa à China, porque se a libertação não está em mim, não está, para mim, em parte alguma.”
“O comboio abranda, é o Cais do Sodré. Cheguei a Lisboa, mas não a uma conclusão”, é um dito escrito por Bernardo Soares, após ter ido até Cascais. O que quereria ele dizer com isso, é coisa que desconhecemos, no entanto sabemos, que tão-somente com essa curta frase, podemos perfeitamente imaginar toda a longa e melancólica viagem de ida e volta entre Lisboa e Cascais.
Há frases assim, curtas mas que nos fazem passear longamente pela cidade envoltos numa espécie de densa nostalgia, toda ela composta de enfado e tédio, como por exemplo esta outra, um excerto de um poema de Cesário Verde:
Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.
Há um atlas de Lisboas imaginadas por escritores, mas no qual se pode pesquisar também todos os outros restantes sítios literários de Portugal, sejam eles aldeias vilas ou cidades.
Seja que localidade for do território nacional, se porventura tiver aparecido numa qualquer passagem de uma ficção escrita, esse excerto onde tal sucedeu pode ser consultado no “Atlas das Paisagens Literárias” em https://litescape.ielt.fcsh.unl.pt/concelhos
Continuaremos nos próximos tempos a falar desses lugares que existem de um modo muito próprio e que não são compreensíveis pela sua geografia, nem pela sua sua geometria, mas apenas e sim por Geografias com geometrias literárias-sentimentais.
Nesse entretanto, deixamos-vos um poema de Manuel Alegre que nos descreve uma Lisboa por ele imaginada:
Em cada esquina te vejo
Em cada esquina te vais
Esta é a cidade que tem
Teu nome escrito no cais
A cidade onde desenho
Teu rosto com sol e Tejo
Em cada esquina te vais
Em cada esquina te vejo
Esta é a cidade onde chegas
Nas manhãs da tua ausência
Tão perto de mim, tão longe
Tão fora de seres presente
Teu rosto de sol e Tejo
Tão doente da viagem
Esta é a cidade onde moras
Como quem está de passagem
Esta é a cidade onde estás
Como quem nunca mais vem
Tão longe de mim, tão perto
Ninguém assim por ninguém
Em cada dia regressas
Em cada dia te vais
Esta é a cidade onde estás
Como quem não volta mais.
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