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Não somos o Zandinga, mas fomos à China ver o futuro


 
Donald Trump e Vladimir Putin visitaram recentemente a China, nós não somos menos que os ditos, e hoje também o vamos fazer. É uma viagem ao futuro.

Com efeito, neste blog não nos dedicamos apenas ao passado e ao presente, queremos também preparar o futuro. Nós sabemos que serão poucos, os que estarão prontos para o que aí vem e, assim sendo, vamos dar uma ajudinha indo à China.

A primeira coisa a saber, é que agora o futuro já não é definido nos Estados Unidos da América, na Europa há muito que tinha deixado de o ser, mas sim na China. O século americano, esse período de inegável domínio político, económico e cultural dos bons USA, caminha para o seu fim e neste momento o futuro vem do oriente.


Mas mesmo sabendo nós que o futuro vem actualmente do lado de lá do mundo, pouco falamos da China, esse imenso e antigo país que está prestes a tornar-se a primeira potência económica e militar do planeta.

Como bons europeus, fomos crescendo e vivendo rodeados de filmes, de séries televisivas, de tecnologias, de canções e de modas vindas dos Estados Unidos, e por assim ter sido, não estamos lá muito preparados para que as nossas referências se alterem e passem a vir da China.

Não estamos mas temos de estar, já quase tudo o que compramos vem da China, e portanto é bastante provável que em breve também as nossas referências de lá passem a vir. Para prepararmos esse futuro, vamos ver o que por lá se faz, para além de aparelhos eléctricos, telemóveis e microchips.

Falemos por exemplo da longínqua cidade de Harbin, que fica a mais de mil quilómetros da capital Pequim. Harbin tem temperaturas notavelmente baixas no inverno, -17 °C em média, com mínimas de até -38 °C, sendo que é frequentemente fustigada por ventos gelados provenientes da Sibéria. Foi nesse sítio improvável, distante e frio, que se ergueu uma ópera.

A Ópera de Harbin ergueu-se por entre pântanos gelados como se tivesse sido esculpida pelo vento. Integra-se perfeitamente na paisagem, a sua forma evoca a das montanhas cobertas de neve e dá-nos uma imagem da futurista China.


Mas vejamos um outro exemplo, o Ordos Art & City Museum. A cidade de Ordos foi fundada em 26 de Fevereiro de 2001, tendo sido projectada e construída de raiz para abrigar uma população de mais de 1,3 milhão de habitantes, todavia, até ao dia de hoje, apenas 2% das casas estão habitadas. Ordos é assim a maior cidade-fantasma de toda a China.

Ordos foi concebida para ser um símbolo de modernidade e progresso, no entanto, as largas ruas, os arranha-céus e os bairros luxuosos ficaram quase completamente vazios.


Foi nesta cidade da Mongólia que foi erguido um museu que se assemelha a uma enorme nave espacial, que contrasta enormemente com a uniformizada e pouco imaginativa paisagem urbana envolvente.

O interior do museu está estruturado como se fosse um desfiladeiro ou uma gruta futurista que é inundada pela luz natural, as exposições distribuem-se por seis níveis distintos.


É sempre interessante ver o que os artistas contemporâneos de um país andam a fazer, pois isso dá-nos o tom do sítio e qual é o seu quadro mental. Na imagem mais abaixo, temos uma pintura de Chen Danqing.

A pintura faz parte de uma série, na qual o artista retrata jovens modelos chinesas vestidas com vestidos caros e maquilhadas com esmero, ou então desarranjadas e com calças de ganga rasgadas.

As modelos são retratadas em intervalos de desfiles, em momentos de pausa ou de tédio. Os seus rostos lisos, pintados e sem rugas não refletem as dificuldades da vida diária do cidadão comum.

Estas figuras fazem parte do capitalismo global, despreocupadas, obcecadas por luxo e pela beleza. Estão distraídas pelos seus telemóveis, entediadas e desconectadas do que as circunda. Sentam-se quase de costas uma para a outra, olhando fixamente para um ecrã e não prestando a menor atenção uma à outra ou ao cão sentado entre elas.


Um outro muito interessante artista chinês contemporâneo é Zhang Xiaogang. Nas obras de Zhang aparecem frequentemente membros de uma mesma família, que se agrupam contra um fundo predominantemente cinzento, pontuado por um fio condutor de laços sanguíneos.

Na pintura de Zhang, os diversos membros das famílias representadas, apesar de se apresentarem juntos, parecem separados por uma qualquer distância e terem claras dificuldades em se relacionarem uns com os outros.


A diferença entre um cordão umbilical e um fio de electricidade é óbvia, no entanto, ambos estabelecem ligações, um cria laços familiares e o outro liga-nos à civilização moderna.

Lâmpadas e fios de electricidade são motivos recorrentes nas obras de Zhang. Esses são objectos que o artista observou durante os períodos de solidão da sua vida, sugerem um sentimento de abandono e uma tentativa de encontrar uma ligação.

Quando a Revolução Cultural maoista eclodiu em 1966, Zhang tinha oito anos e os seus pais foram considerados burgueses e enviados para um "campo de estudos" para trabalharem arduamente e assim serem reeducados na doutrina comunista.

A sua mãe sofria de esquizofrenia, doença que se agravou devido às dificuldades que passou no campo de reeducação. Como terão esses anos de separação mudado as relações entre os membros da família? Como terão os pais de Zhang contado aos filhos as histórias sobre a sua experiência no campo?

Um rapaz de óculos observa a sua mãe, estoica e vestida com um uniforme maoista. Uma lâmpada pende do tecto, um fio eléctrico serpenteia até se ligar a uma extensão.

O interior da casa é um cenário típico da era Mao. O silêncio entre mãe e filho é ainda mais acentuado pela distância aparentemente intransponível entre eles, estão sentados distantes um do outro, em extremidades opostas do sofá.

A maneira elaborada como o fio elétrico serpenteia pelo ar acentua o efeito visual da sua presença. É como se o rapaz procurasse na mãe uma fonte de luz e de conexão, mas esse seu desejo lhe fosse negado.


Wang Guangyi é um dos artistas contemporâneos mais influentes da China, amplamente reconhecido como a principal figura do movimento “Political-Pop”. A sua obra é internacionalmente famosa por fundir a estética da propaganda comunista da época da Revolução Cultural chinesa com os logótipos de grandes marcas de consumo ocidentais.

Nas suas mais célebres pinturas, Wang Guangyi justapõe trabalhadores, camponeses e soldados em poses heróicas de propaganda maoísta com marcas globais como a Coca-Cola, Chanel, Disney ou a Porsche.


O artista utiliza esta linguagem para ironizar e analisar como dois sistemas teoricamente opostos, o comunismo estatal e o capitalismo de consumo, utilizam os mesmos mecanismos visuais e de propaganda para controlar a sociedade e moldar as ideias.

Curiosamente Wang Guangyi tem sido uma figura central no diálogo artístico entre a China e Portugal, sendo que obras suas fazem parte da coleção do MAC/CCB em Lisboa.

Vamos terminar esta nossa viagem ao futuro e à China com Yue Minjun, um dos artistas contemporâneos mais reconhecidos da China, famoso mundialmente pelas suas pinturas e esculturas que retratam rostos padronizados a gargalhar histericamente.

Os risos com olhos semicerrados e bocas escancaradas não transmitem uma sensação de felicidade ou alegria, pelo contrário, evocam antes um sentimento de impotência e de alienação.


E pronto, visto da China, o futuro será isto que aqui vimos, ou seja, nada de particularmente interessante. A bem dizer, as previsões do Zandinga eram mais engraçadas.

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