A Câmara Municipal de Lisboa, através da EGEAC-Lisboa Cultura, vai apoiar com 250 mil euros um espectáculo organizado pelo Festival Tribeca, que acontece no próximo dia 10 de junho no Cinema São Jorge. Trata-se de um show do comediante norte-americano Chazz Palminteri (não sabemos quem é).
Recentemente, a mesma Câmara Municipal de Lisboa patrocinou um evento de luxo realizado no Parque Eduardo VII com um apoio financeiro de 75 mil euros. Falamos do Chic Nic, um piquenique chique a valer, cujos bilhetes de entrada custavam 150 ou 300 euros.
Dito isto, nós também queremos ser patrocinados pela autarquia e já temos uma ideia para um evento que certamente agradará à EGEAC-Lisboa Cultura. Mas já lá iremos, primeiro vamos falar de um outro assunto, de motas e de carros velhos.
Motas e carros velhos são dois temas cativantes, pois ambos se relacionam com o espírito aventureiro, destemido e audaz, daqueles que vão pela estrada fora sem destino marcado, simplesmente ao acaso, ao deus dará e de cabelos soltos ao vento.
Sim, para quem não sabe, também em Portugal se pode ser ousado e ir assim tipo “on the road”, à descoberta de lugares incomuns, de diferentes gentes e de paisagens quase-virgens.
Há por aí muitos portugueses proprietários de uma moto ou de um carro velho com fome de infinito. Uma fome que só se satisfaz ao rolarem velozmente no asfalto sem eira nem beira nem fim à vista, ou então, e em alternativa, talvez se satisfaça com um pão com ou sem chouriço.
Uma coisa muito engraçada a esse propósito, são os encontros e festivais de gente dona de carros velhos ou de motas. Por exemplo, decorre neste preciso fim de semana em Lisboa, o Lisbon Motorcycle Film Fest. O evento reúne motociclistas no coração da capital portuguesa, e contempla actividades como a LxMFF Skytop Show, a Night Ride e a transmissão ao vivo da WorldSBK.
Escusado será dizer que nós, os aqui escrevemos, não fazemos a mais pequena ideia do que é a LxMFF Skytop Show, nem também do que será a WorldSBK. Quanto à Night Ride, estamos cá desconfiados que consistirá em andar para aí de mota de um lado para o outro a fazer barulho durante o período nocturno, só que dito em inglês.
Sendo um Film Fest, há também sessões de cinema com a passagem de curtas e longas-metragens nacionais e internacionais, todas elas dedicadas às motas. Por fim, há também Talks, ou seja, gente que fala para um auditório, neste caso em específico debita acerca das suas experiências com veículos motorizados de duas rodas.
Lendo o programa, constata-se que há muito quem tenha tido experiências emocionais e místicas com motociclos, coisa que a nós nos causa estranheza, mas igualmente curiosidade e até um certo fascínio.
Claro está que a Câmara Municipal de Lisboa (ou será de Lisbon?) não podia deixar de apoiar tão relevante evento cultural e por isso decidiu ceder gratuitamente à organização espaços icónicos da cidade, como o Teatro Capitólio e o Cinema São Jorge.
Ontem, a partir da meia-noite, ou seja, tecnicamente já era hoje, ouvia-se por toda a cidade de Lisboa os motores das motas em grande aceleração, devia ser a Night Ride. Por assim ter sido, conclui-se que a polícia também acarinhou o evento, pois suspendeu as leis que regulam a velocidade e o ruído nocturno. Não importa, é tudo a bem da cultura e da rebeldia motociclista.
Pesquisando, verifica-se que não são apenas os veículos motorizados de duas rodas que têm direito a grandes eventos. Com efeito, é verdadeiramente impressionante a quantidade de encontros que existem por esse Portugal afora, em que as gentes se juntam para contemplar carros velhos.
Os encontros de donos de Citroen’s dois cavalos são um “must”, só para os próximos tempos está previsto um em Fátima para benção dos carros no início de Julho, um passeio nocturno em Lisboa no final do mesmo mês, mais ainda o Encontro Nacional em Leiria, e em Setembro, em São João da Ribeira, o Encontro Internacional 2CV - Vindimas 2026.
Por outro lado, há também os encontros dos proprietários dos chamados Volkswagens carochas. Existe em Cascais o Encontro de VW Clássicos que se realiza mensalmente no primeiro domingo de cada mês. Existe no Porto um encontro periódico organizado pela Associação VW Ar Clube que se foca nos modelos refrigerados a ar. Existe ainda em Leiria o Carocha Fest organizado em parceria com a câmara municipal local. E por fim, temos também o Fanáticos do Carocha na Costa da Caparica.
Em boa verdade, são literalmente centenas, os encontros de carros velhos que há por esta nossa amada pátria. Claro que não vamos falar de todos eles, pois se assim fosse ficávamos aqui todo o santo dia, no entanto, referimos ainda o prestigiado Salão Motor Clássico, que se realiza anualmente em Lisboa.
Como seria expectável, o Salão Motor Clássico conta com o apoio institucional da autarquia lisboeta, coisa que bem se compreende, pois há que apadrinhar e proteger actividades tão interessantes e educativas como as que constam do programa da próxima edição, a saber, as Motor Talks, a celebração dos 120 anos da Lancia, a comemoração dos 50 anos do Mercedes-Benz W123 e os 40 anos do Citroën AX.
Nós, os que aqui escrevemos, não estamos a fazer contas de visitar o Salão Motor Clássico, mas se porventura viermos a saber que as Motor Talks consistem em alguém se pôr a falar com o motor do seu velho automóvel, aí sim, já queremos ver.
Imagine-se as conversas:
-Lembras-te meu velho motor, quando em 1977 fomos ao Caramulo e tu gripaste pelo caminho?
-Como não meu fiel e legal proprietário. E naquele outro dia, talvez em 1981, em que numa noite tive falta de óleo…
-Bem me recordo disso, o Martins da oficina da esquina é que salvou a situação, pois nessa noite calhou estar a fazer serão. Belos tempos!
Em síntese, se as Motor Talks forem da do género acima, a coisa promete, queremos ver.
Feita toda esta digressão relativa a eventos com motas e carros velhos, vamos lá agora, como prometido, falar da nossa ideia, para a qual também queremos o patrocínio da câmara municipal.
A nossa ideia é na verdade de uma enorme originalidade, o que propomos é um evento no qual se encontrem as pessoas que andam de transporte público. Uma celebração à grande, para quem vai de autocarro, de barco, de comboio ou de metro. Em resumo, uma festa da cultura para os fanáticos da Carris, do Metropolitano, da Transtejo e da CP.
Imagine-se por exemplo uma Talk em que estivessem presentes quatro oradores, um que se delicia com a Linha Verde do metro, outro que prefere a Azul, mais um que se excita com a Vermelha e por fim, um que é completamente tarado pela Amarela.
-A Linha Verde para mim é tântrica, a espera dura e dura e dura, e depois já tendo nós penetrado na carruagem, há ainda longas paragens…
-Pois eu gosto é da Azul porque é a mais marota, vai-se por ali afora a rebolar e só se acaba a brincadeira na Reboleira.
-Eu cá prefiro a Vermelha, a que vai para o aeroporto. É a mais romântica, faz-me viajar por lugares exóticos, Chelas, Olivais, Cabo Ruivo…
-A Amarela é que é a minha donzela, é de todas a mais bela, pois é nela que se vai para Odivelas.
Pelo breve excerto acima, não há dúvida que este tema daria certamente para uma excelente Talk. Abaixo uma foto da entrada da Estação Saldanha em 1959.
Quanto a Talks estamos conversados, porém, o nosso evento para gente que anda de transporte público não se fica só por conversas, não somos menos que o Lisbon Motorcycle Film Fest e assim sendo, também teremos cinema.
Há muitos filmes com cenas passadas em transportes públicos, no entanto, nós gostamos particularmente de um cujo título original é “Meet Me in St. Louis”, o que em português veio a dar “Não há como a nossa casa”. A película é de 1944 e nessa época ainda não se faziam Talks em Portugal, daí a disparidade entre a designação original e a nacional.
A história passa-se na cidade de St. Louis no Missouri na qual há trolleys, ou seja, um transporte público semelhante àquilo a que nós por cá chamamos eléctrico. A personagem principal interpretada pela esplendorosa Judy Garland, vai de trolley num passseio de domingo acompanhada pela mocidade lá do bairro.
Todavia, ela estava na expectativa que o rapaz pelo qual se tinha enamorado também aparecesse. Vá lá saber-se porquê, o moço não veio, Judy amuou. No entanto, quando o trolley já ia em grande andamento, ele aparece subitamente a correr, afinal veio, tinha-se era atrasado.
Quando Judy vê o rapaz fica feliz e desata a cantar, “Clang, clang, clang went the trolley, ding, ding, ding went the bell, zing, zing, zing went my heartstrings, from the moment I saw him I fell…”
Ora bem, só com isto, o nosso evento para gente que anda de transporte público já tem Talks e Film Fest, mas há mais, podemos também ter poesia. Para esse efeito, requeremos a presença do grande poeta português Alexandre 0’Neill (1924-1986 ).
Quando em 1959 se inaugurou o metro, logo ficou conhecido por CentíMetro, isto após uma proposta poética de Alexandre O'Neill, que o via muito pequenino. Contudo, o poeta, que também trabalhava como publicitário, não se ficou por aí, propôs à administração do Metropolitano de Lisboa o slogan "Vá de Metro Satanás".
O poético slogan proposto por Alexandre O’ Neill baseava-se na ancestral expressão em latim para repelir o mal, afastar más influências ou afugentar uma tentação, “Vade retro Satana (Afasta-te Santanás)”.
A administração do metropolitano recusou o slogan, porém, o facto é que o metro está amaldiçoado. Desde escadas rolantes que misteriosamente não funcionam há uns bons anos, até atrasos inexplicáveis e suspensões do serviço por razões insondáveis, tudo acontece ao metro, o que nos leva a crer que tais acontecimentos só podem ser obra do demo.
Por assim ser, o nosso evento não só teria poesia, mas acumularia com um festival do oculto onde se fizessem exorcismos e coisas desse género, de forma a afastar o demónio não só do metro, mas também de comboios, de barcos e autocarros, transportes esses que também são constantemente afectados pelas malfeitorias do cão tinhoso, esse belzebu chifrudo, que só quer é transtornar a mobilidade urbana.
Aqui chegados, parece-nos a nós que já apresentámos uma proposta de evento suficientemente consistente para que a câmara municipal se decida patrocinar-nos, ainda assim, e para terminar, aqui fica também um momento musical.
A canção chama-se “Bus Stop” e fala-nos de um namorico nascido numa paragem de autocarro de Manchester. Estávamos ali pela década de sessenta e em Manchester chovia, coisa que aliás lá por aquelas bandas acontece quase todos dias, seja de Inverno, seja de Verão.
Neste caso era mesmo Verão, sendo que um moço e uma moça todos dias pela manhã se encontravam na mesma paragem de autocarro. Num dia de chuva, o moço disse à moça com o seu típico sotaque de Manchester “Please, share my umbrella". A partir de então foi todo um “Sweet romance, beginning in a queue.”
O vídeo é muito bonito, têm muitos autocarros, coisa que por cá não é assim muito comum.





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