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Ó Portugal, se fosses só três sílabas, linda vista para o mar, Minho verde, Algarve de cal…



Num destes dias, numa manhã igual a tantas mais, subíamos a Avenida dos Estados Unidos da América em Lisboa, vindos de Entrecampos, isto quando de repente, um pouco antes de chegarmos ao ponto em que essa avenida se cruza com a de Roma, decidimos seguir para a direita, em direção a uma pequena via cujo nome é Rua Flores do Lima.


É uma rua modesta e discreta, que quase se diria ser tão-somente as traseiras dos altos prédios da Avenida dos Estados Unidos da América. Decidimos então ir por essa rua, mas não pela sua beleza ou por nela existir algo de pitoresco ou peculiar, e sim e apenas por ela estar inscrita na nossa memória.


Com efeito, nessa rua corriqueira e banal, entre 1975 e 2007 esteve sediado o cinema Quarteto. Foi esse o primeiro complexo de salas de Lisboa, coisa que muito justamente o slogan realçava: “4 Salas / 4 Filmes”.


O Cinema Quarteto fez história, pois aí havia uma autêntica atmosfera cinéfila. Era um sítio onde se exibiam filmes europeus, e outros vindos de continentes distantes ou de improváveis países. O cinema americano era fundamentalmente o independente e de resto, viam-se igualmente os clássicos de sempre.


Mesmo com uma programação que não apostava nos grandes êxitos do momento, o Quarteto era sucesso. As salas enchiam-se para ver filmes antigos, para uma retrospectiva da obra do alemão Rainer Werner Fassbinder, ou para se saber o que de novo havia na cinematografia do Mali.



Eram outros os tempos nessa Lisboa de outrora de que agora só resta a memória. Fechado o Quarteto, o edifício onde o cinema funcionou albergou durante uns anos a Igreja Evangélica da Plenitude de Cristo e é actualmente um espaço de cowork com mais de 100 lugares e um rooftop, também lá há call rooms e uma esplanada com refeições temáticas em parceria com o Wood Sushi.  


O Cinema Quarteto foi um local onde vendo filmes, muito aprendemos do que sabemos sobre a vida, mas, como um dia disse o poeta francês Charles Baudelaire, “La forme d'une ville, change plus vite, hélas, que le cœur d'un mortel” (A forma de uma cidade, muda mais velozmente, ai, que o coração de um mortal).


A história do edifício onde existia o Quarteto é ela própria uma metáfora de Lisboa, para não dizer de Portugal inteiro. Nas décadas finais do século XX era um cinema, depois, até meados da segunda década do século XXI, nesse tempo em que ainda não tinha havido um boom turístico nem imobiliário, e em que o país vivia deprimido por sucessivas crises financeiras, foi um lugar onde se ia à procura de milagres, finalmente, no presente momento em que por cá abundam nómadas digitais, turistas e o dinheiro rola, é um espaço de cowork com rooftop e sushi pronto a servir.


Sim, num destes dias, numa manhã igual a tantas mais, subíamos a Avenida dos Estados Unidos da América e decidimos seguir para a direita, em direção à Rua Flores do Lima, sendo precisamente nessa via, o local onde nos deparámos com um largo mural no qual se inscreve uma frase da escritora Lídia Jorge: “A literatura lava com lágrimas ardentes os olhos frios da História.”



Curiosamente, a primeira vez que “lemos” Lídia Jorge não foi num livro, mas sim num filme, a saber, na adaptação cinematográfica do seu romance “A Costa dos Murmúrios”. O romance é de 1988, o filme 2004.


Terá sido numa daquelas tardes de domingo em que nada há para fazer, quando ligámos o aparelho de TV e por um mero acaso parámos num canal onde ouvimos os versos dessa antiga canção onde se diz: “Sonhos que sonhei, onde estão? Horas que vivi, quem as tem…


A história de “A Costa dos Murmúrios” passa-se na década de 60, Evita, uma moça de Lisboa, chega a Moçambique para casar com Luís, um estudante de matemática que ali cumpre o serviço militar.


Luís, em Lisboa, era um rapaz sensível, curioso e delicado, mas chegada a Moçambique, Evita rapidamente se apercebe que ele já não é o mesmo. A guerra, o clima extremo, a vasta paisagem africana e a militar camaradagem masculina transformaram Luís num outro homem.


Luís, o rapaz sensível que em Lisboa estudava matemática, é agora um homem que admira a violência, tendo-se tornado num triste discípulo do seu capitão, o Forza Leal. Perdida num mundo que não é o seu, Evita apercebe-se claramente que a longa história colonial portuguesa se encontra perto do fim.


É esta a narrativa de “A Costa dos Murmúrios”, um livro que faz jus à frase “A literatura lava com lágrimas ardentes os olhos frios da História.”


O filme está disponível na RTP Play para quem o quiser ver, neste entretanto, aqui fica o trailer:



Lídia Jorge surgiu na literatura portuguesa em 1979 com o romance “O Dia dos Prodígios”, nele se narra a história da aldeia algarvia de Vilamaninhos, que é uma alegoria do país fechado e parado que Portugal era sob a ditadura. Em síntese, um sítio permanentemente à espera de algo que o transformasse.


Vilamaninhos é apresentada como uma aldeia-ilha, onde os habitantes vivem o tempo numa escala diferente, resultado do seu lugar fora do mundo. Em Vilamaninhos, as coisas parecem acontecer muito raramente e as pessoas parecem não perceber que os dias passam.


“Os homens olharam as nuvens e julgaram que o presente ainda não tinha começado”, diz-se numa frase de “O Dia dos Prodígios”. O dia dos prodígios do título é na verdade o 25 de Abril de 1974 e os acontecimentos que lhe sucederam.


A revolução dá-se na capital, na longínqua Lisboa, mas vista da ancestral e estática aldeia de Vilamaninhos, todos esses acontecimentos parecem irreais, distantes e fantasiosos.


O velho Portugal rural e fechado sobre si próprio, é uma sociedade disciplinada, habituada à obediência e à submissão e pouco ou nada crente em novidades. De cada vez que surge algo de novo, vem logo ao de cima o carácter inerte do povo, que prefere o que conhece desde sempre, ainda que arcaico e obsoleto, a algo de inédito, inovador ou diferente.


A aldeia de Vilamaninhos desconfia das novidades e insiste em a elas não se adaptar. Tendo após a revolução sido estabelecida uma carreira de autocarros entre Vilamaninhos e Faro, o povo não se conforma por esta se regular por horários fixos e prefere antes deslocar-se na carroça de sempre:


“E assim. A gente olhava para aquelas coisas novas da nova era, e pensava que afinal, mesmo os instrumentos filhos dos séculos do futuro acabavam por murchar ainda mais depressa do que as nossas alfaias de ferro e pau. Então a gente, em vez de apanhar a camioneta que passava quase sempre à mesma hora, e nunca esperava por ninguém, começámos de novo a albardar os burros para ir a Faro.”



Será este exacto Portugal, disciplinado, habituado à obediência e à submissão, que anos mais tarde, na década de 80 e subsequente, com a chegada à lusitana nação da era do consumo massificado, correrá entusiasmado com essa mesma obediência cega e sem capacidade crítica para hipermercados e centros comerciais para comprar a felicidade imediata, e irá também esperançoso e alvoraçado a correr para agências bancárias em busca de créditos rápidos e fáceis.


No romance “O Jardim sem limites” de 1995, Lídia Jorge faz novamente jus à frase “A literatura lava com lágrimas ardentes os olhos frios da História.” É um romance sobre a geração dos que cresceram já no Portugal pós-revolução de Abril, esses que se foram tornando adultos num presente cada vez mais americanizado, sendo o mesmo dizer, mais materialista e consumista.


A acção do romance decorre numa Lisboa em transformação entre finais dos anos 80 e princípios dos 90. Muito se passa numa antiga hospedaria que serve de microcosmo para o país. No primeiro andar habitam os moradores mais velhos, figuras que carregam as memórias da resistência ao salazarismo, a dor da ditadura e o peso da história.


No modesto segundo andar vive um grupo de jovens filhos de boas famílias, mas que são idealistas e rebeldes. Procuram através desse modo de viver construir uma identidade própria, que seja diferente da dos seus pais, e assim atingirem a plena liberdade e consequente felicidade.


Leonardo é a figura central desse grupo de jovens. Trabalha como "homem-estátua" na Rua Augusta em Lisboa e sonha bater o recorde mundial de imobilidade de forma a entrar para o Guiness.


Esse grupo de jovens personifica uma juventude que recusa o percurso tradicional e normal delineado pelas suas famílias, decidem arriscar uma outra vida, muito embora acabem inevitavelmente moldados pela cultura pop, tendo como únicas referências a gente da moda e da música anglo-saxónica.



Há um contraste evidente entre a geração anterior e a nova geração pós-revolução, que vive imersa num presente efémero, individualista e desorientado. “O Jardim sem limites” critica a transformação do Portugal de então numa sociedade de consumo imediato, onde a verdadeira cultura e a memória histórica se vão dissolvendo numa espécie de pop-modernidade.


Após décadas de estagnação, de fechamento e de imobilismo, muitos dos que cresceram nos pós-25 de Abril, acreditaram que era fácil ser moderno e viver em liberdade, tendo confundido o poderem consumir, vestir à moda e bailar aos sons da música pop, como sendo isso um novo e moderno Portugal e a real felicidade.


Citamos mais abaixo, uma passagem de “O Jardim sem limites”, na qual se fala do destino desse grupo de jovens, que sem verdadeira cultura ou memória histórica, acabaram desiludidos por o país nunca chegar a ter sido o paraíso no qual eles iriam viver em plena liberdade e atingir a felicidade.


Sim, apesar dos hipermercados, dos centros comerciais e dos créditos bancários fáceis, Portugal não se transformou num país desenvolvido, com gente feliz, como alguns desenvolvidos que há lá fora no estrangeiro:


“Devido à globalização, todos eles, Paulina, Leonardo, Falcão, César, Osvaldo e Gamito, sonham em viver na Big Apple, identificando-se, de algum modo mais com a cultura americana ou com outros países estrangeiros do que com a cultura portuguesa. Não esqueçamos que Portugal parecia ter perdido o comboio do progresso.”



Em boa verdade, o melhor que a geração que cresceu no pós-25 de Abril conseguiu fazer foi isto, este país que presentemente temos. Podia ser pior, disso não há dúvidas, porém, a realidade é que também podia ser melhor. Dito isto, hoje ficamos por aqui, mas em breve voltaremos à escrita de Lídia Jorge e ao modo como ela é um belo reflexo da História de Portugal.


P.S. - A imagem inicial é de João Abel Manta, excelente arquitecto e genial ilustrador, que faleceu ao dia de ontem. Foi sem dúvida um enorme português.


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