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Só havia uma cidade e a cidade era Havana


Vemos as notícias que vêm de Cuba e percebemos que a bela La Habana se encontra num estado lastimável. É pena, dá dó. Há muitos anos estivemos em Cuba e quase nem pusemos os pés na praia, e isto porque Havana tinha tudo e, assim sendo, para quê afastarmo-nos dela?

Ninguém lê este blog em La Habana, nem este nem nenhum. Por estes dias, nem sequer electricidade por lá há, sendo que a comida escasseia e o combustível acabou-se. Na Havana de hoje, o mais que há a fazer é esperar.


Só havia uma cidade e a cidade era Havana, é possível que esta frase esteja incluída no célebre livro de Guilhermo Cabrera Infante “Três Tristes Tigres”. 
Em boa verdade, já desfolhámos o livro de trás para a frente e de frente para trás e não a encontrámos. Ao procurarmos na internet, também não descobrimos nenhum sítio que dissesse que a dita frase aparece no referido livro.

A conclusão óbvia é que a frase “Só havia uma cidade e a cidade era Havana” não se encontra no livro “Três Tristes Tigres”. Sendo essa a conclusão inquestionável, nós não a aceitamos como tal, pois contra todos os factos e evidências, cremos que é possível que essa frase esteja no livro, mas que por alguma misteriosa razão, simplesmente não seja visível.

Em finais do século XVII nasceu lá para a Irlanda alguém que ficaria para a história da filosofia, o seu nome era George Berkeley. Uma das mais prestigiadas universidades do mundo, a de Berkeley na Califórnia, foi assim baptizada em honra do George.

A teoria que deu fama e glória imortal a George Berkeley resume-se facilmente: Esse est percipi. O que George advogou é que as coisas existem quando as nossas mentes as percebem. Objectos familiares como mesas e cadeiras são apenas ideias na mente daqueles que os percebem e, como resultado disso, os objetos não podem existir sem serem percebidos.

“Se uma árvore cai numa floresta e ninguém está por perto para a ouvir, será que ela fez barulho?" é uma pergunta que ao longo dos séculos tem sido levantada a propósito da teoria de George Berkeley. A verdade é que até Albert Einstein se debateu com esta questão, não tendo efectivamente chegado a nenhuma conclusão definitiva.


Vem George Berkeley a propósito da frase “Só havia uma cidade e a cidade era Havana” parecer não constar do livro “Três Tristes Tigres” de Guilhermo Cabrera Infante, mas nós estarmos convencidos que sim.

Se readoptarmos a perspectiva filosófica de George Berkeley segundo a qual Esse est percipi, podemos muito bem partir do princípio que se nós percebemos que a frase “Só havia uma cidade e a cidade era Havana” consta do livro “Três Tristes Tigres”, então sim, é porque consta, mesmo que não.

Uma vez chegados a esta conclusão, a pergunta que se impõe é o que tinha a cidade de Havana, que outras não tinham? Tinha bares decrépitos onde pela noite afora, madrugada adentro, se ouviam boleros.

Boleros onde mais não havia do que uma melodia e uma voz triste acompanhada por guitarras. Houve um tempo em que La Habana era uma espécie de jardim zoológico onde se podia ir visitar as mais diversas espécies de amores, de melancolias e de nostalgias completamente à solta. As jaulas estavam abertas desde as zero a.m. até às zero p.m., sendo que, é dessa Havana vibrante e insone de que se fala no livro “Três Tristes Tigres”.


“La Habana era una fiesta”, porém, como em todas as festas, há sempre quem esteja mais introspectivo, mais metido consigo próprio e a pensar noutra coisa qualquer. Em “Três Tristes Tigres”, a cidade é a verdadeira protagonista da narrativa através dos seus cabarés, bares, boleros, jazz e cinemas, todavia, por lá deambulam outros personagens, vejamos quais.

Temos Bustrófedon, um poeta falecido que assombra o livro através do seu génio linguístico e da sua obsessão com trocadilhos. Depois temos Silvestre, um escritor profundamente apaixonado por cinema, que é uma espécie alter ego do próprio autor, o Cabrera Infante. Temos ainda Arsenio Cué, um actor de televisão e amigo íntimo de Silvestre que partilha com ele longos e absuros passeios de automóvel pela cidade. E acrescente-se a esses, Códac, um fotógrafo que documenta tanto a vida das celebridades nos cabarés, como a crescente violência urbana.

Destaque-se por fim, La Estrella, uma cantora negra de boleros com uma voz extraordinária e uma presença física monumental. La Estrella cantava boleros de forma mágica, visceral e estritamente a capella pelos muitos clubes nocturnos de Havana.

La Estrella é uma personagem do livro “Três Tristes Tigres”, mas por conselho do escritor e seu amigo Mario Vargas Llosa, Cabrera Infante decidiu mais tarde separar os capítulos centrados na sua história e dar-lhes uma vida independente, tendo assim nascido o livro “Ela Cantava Boleros”.



Os textos dos boleros falam-nos de ausências, de tristeza, de desgostos, de solidão, de choros, de telefonemas e de declarações de amor. São textos repletos de arrebatadas perguntas (a dónde vas, dime si), de românticas expressões imperativas (dile que la quiero, dile que me muero, dile que vuelva ya, quiéreme hasta la locura, bésame con un beso enamorado) e de outras frases mais que denotam a urgência exaltada das paixões devastadoras.

Transcrevamos um excerto da prosa de Cabrera Infante, e mais concretamente uma cena na qual uns amantes se esquecem do tempo beijando-se, sentados num bar onde La Estrella cantava boleros:

“…y así estuvimos allí un rato tocándonos, apretados, allí sumergidos en la oscuridad besándonos, olvidados de todo, de que el show se había acabado, de que la orquesta estaba tocando para bailar, de que la gente bailaba y bailaba y se cansaba de bailar y de que los músicos empaquetaban sus instrumentos y se iban y de que nosotros nos quedábamos solos allí, ahora profundamente en la oscuridad, no ya en la penumbra vaga, sino en la penumbra profunda, en la oscuridad cincuenta, cien, ciento cincuenta metros por debajo de la superficie de la luz nadando en la oscuridad, mojados, besándonos, olvidados, besos y besos y besos, olvidándonos...”

A voz de La Estrella era uma forma de êxtase, ela era capaz de reinterpretar canções sem qualquer acompanhamento musical. Cantava canções doces, com sentimento, do coração aos lábios e da boca ao ouvido, com uma voz clara que fazia com que as gentes se enamorassem.

Abaixo uma foto de Los Panchos com Eydie Gorme.


Guilherme Cabrera Infante inventou La Habana, sim a cidade existe há séculos, mas antes do escritor a escrever, era como se não existisse, recordemos George Berkeley: Esse est percipi.

La habanalândia de Guillermo Cabrera Infante é um caso único na literatura universal, mas é comparável com outras invenções semelhantes, como por exemplo a localidade de Yoknapatawpha do escritor norte-americano William Faulkner, a Dublin de James Joyce ou com o Macondo de Gabriel García Márquez em “Cem anos de solidão”.

As obras de Cabrera Infante foram totalmente proibidas pelo regime de Fidel Castro, incluindo o seu mais famoso romance “Três Tristes Tigres”, sendo que, a simples posse dos seus livros chegou a ser considerada um acto criminoso.

Exilado em Londres desde 1965, as suas publicações foram banidas de Cuba, o que transformou o escritor num autor proscrito no seu próprio país. Faleceria na capital britânica em 2005 sem jamais regressar à La Habana que, feitas as contas, só existe nos seus livros.

É possível que a frase “Só havia uma cidade e a cidade era Havana” não exista em nenhum dos seus livros, nem sequer em “Três Tristes Tigres”, ainda assim, para nós existe.

Em resumo e para findar, como se diz numa salsa a propósito da incertitude do futuro, também o amanhã de Cuba e da bela La Habana é incerto, ficam excertos da letra dessa canção:

“Yo no sé mañana, Quién va a estar aquí, si se acaba el mundo. No sé donde vamos a parar, Esta vida es una ruleta, Que gira sin parar (yo no sé mañana). Como será el final (yo no sé mañana), Puede ser peor, O puede ser mejor (yo no sé mañana). Esta vida es igual que a un libro, Cada página es un día vivido…”

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