Ontem escrevemos acerca de geografias com geometrias literárias-sentimentais, hoje vamos escrever acerca de uma poeta que vivia a mais de três mil quilómetros de distância de nós, mas que desafiando todas as leis da geografia e da geometria, como que vivia aqui mesmo ao lado.
Nunca aqui antes falámos de Wislawa Szymborsk, que foi uma das mais amadas poetas polacas. Viveu quase toda a sua vida na bela cidade de Cracóvia e em 1996 foi muito justamente distinguida com o Prémio Nobel da Literatura.
Era conhecida como a “Mozart da poesia", sendo que a sua obra se caracteriza por uma fina precisão irónica, e por falar de assuntos filosóficos e existenciais mas através de simples factos do dia a dia.
Sim, nós gostamos de Wislawa Szymborsk muito embora não saibamos sequer uma única palavra de polaco, todavia, o facto é que a sua poesia se lê muito bem em português.
É espantoso pensarmos em Wislawa Szymborsk a passear pelas ruas da ancestral, gótica e nostálgica Cracóvia, cidade que fica lá do outro lado da Europa, e percebermos que os seus poemas atravessaram um continente inteiro para aqui chegar e ainda assim não perderam o seu sentido e profundidade.
Em boa verdade, Wislawa Szymborsk é nossa vizinha e a sua querida cidade fica bem perto de nós.
Há muita coisa que não sabemos dos outros, até mesmo dos que nos são mais próximos. Podemos conhecer exaustivamente todos os dados e factos relativos a alguém, porém, nem mesmo nesse caso é possível dizer que se tem um pleno conhecimento desse mesmo alguém.
Efectivamente nunca saberemos com total exactidão quem é quem. Temos vislumbres, convivemos, conversamos, vamos adivinhando, descobrindo, contudo, e em última instância, só sabemos o que é possível saber-se, o fundo misterioso que se alberga em cada alma humana não se encontra ao nosso alcance.
É disso que nos fala Wislawa Szymborsk num poema que quase parece uma lengalenga:
Jamais saberei
o que A. pensava de mim.
Se B. acabou por me perdoar.
Por que razão fingia C. que tudo estava bem.
Qual a quota-parte de D. no silêncio de E.
O que esperava F. se acaso algo esperava.
Por que fingia G. sabendo de tudo.
O que tinha H. a esconder.
O que queria I. acrescentar.
Se o facto de eu estar por perto,
teve algum significado
para J. e K. e para o resto do alfabeto.
Na verdade, não é apenas o profundo mistério que se alberga nos outros, que não nos é acessível, a bem dizer há também muita coisa que não sabemos de nós próprios. Há dados e factos da nossa biografia cujo sentido e significado nos escapa, mas há também um abismo dentro de cada um de nós, que só em raros instantes se deixa vislumbrar.
Perante a imensidão do nosso ser, é na realidade muito pouco o que podemos dizer de nós mesmos. Talvez o mais que possamos fazer, é dizer como Wislawa Szymborsk fez num poema, o que preferimos:
Prefiro o cinema.
Prefiro os gatos.
Prefiro os carvalhos sobre o Warta.
Prefiro Dickens a Dostoievski.
Prefiro-me a gostar das pessoas
que a amar a humanidade.
Prefiro para uma emergência ter agulha e linhas.
Prefiro a cor verde.
Prefiro não afirmar
que a razão é a culpada de tudo.
Prefiro as exceções.
Prefiro sair mais cedo.
Prefiro falar de outras coisas com os médicos.
Prefiro as velhas ilustrações listradas.
Prefiro o ridículo de escrever poemas
ao ridículo de não os escrever.
Prefiro no amor os pequenos aniversários
para festejar todos os dias.
Prefiro os moralistas que nada me prometem.
Prefiro uma bondade algo prudente
a outra confiante em demasia.
Prefiro a terra à civil.
Prefiro os países conquistados
aos conquistadores.
Prefiro guardar as minhas reservas.
Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.
Prefiro as fábulas de Grimm às primeiras páginas dos jornais.
Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.
Prefiro os cães sem a cauda cortada.
Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros.
Prefiro gavetas.
Prefiro muitas coisas que não menciono aqui
a outras também aqui não mencionadas.
Prefiro os zeros soltos
aos dispostos em bicha para o número.
Prefiro o tempo de insectos ao de estrelas.
Prefiro fazer figas.
Prefiro não perguntar se ainda demora e quando é.
Prefiro tomar em consideração a própria possibilidade
de ter a existência o seu sentido.
Abaixo uma foto da velha Cracóvia, a cidade preferida da poeta Wislawa Szymborsk.
Wislawa Szymborsk diz no poema acima que prefere “o ridículo de escrever poemas ao ridículo de não os escrever”, no entanto ela sabia que a poesia não era coisa querida por toda a gente, apenas de alguns, “talvez uns dois em mil”.
alguns -
ou seja nem todos.
nem mesmo a maioria de todos, mas a minoria.
sem contar com a escola onde é obrigatória
e os próprios poetas
seriam talvez uns dois em mil.
gostam -
mas também se gosta de canja de galinha,
gosta-se de galanteios e da cor azul,
gosta-se de um xaile velho,
gosta-se de fazer o que se tem vontade
gosta-se de afagar um cão.
de poesia -
mas o que é isso, poesia.
muita resposta vaga
já foi dada a essa pergunta.
mas eu não sei e não sei e agarro-me a ela
como a uma tábua de salvação.
Há para quem a poesia seja uma tábua de salvação, mas mesmo ao seu lado pode estar outro quem completamente distinto, para o qual a poesia nada signifique. No entanto, tal não tem mal algum, pois mesmo sendo diferentes, podem andar “abraçados e sorridentes”.
Como diz o poema abaixo, quem é diferente de um outro, traz a esse outro a “incerteza”, porém o poema também diz “e eis a beleza”. O que importa perceber é que não há nada igual no universo, “nenhum inverno nem verão” e nem sequer “duas gotas d’água”.
Nada acontece duas vezes
nem acontecerá. Eis a nossa sina.
Nascemos sem prática
e morremos sem rotina.
Mesmo sendo os piores alunos
na escola deste imenso mundo,
nunca vamos repetir
nenhum inverno nem verão.
Nem um dia se repete,
não há duas noites iguais,
dois beijos não são idênticos,
nem dois olhares tal e qual.
Ontem quando alguém disse
o teu nome junto a mim
foi como se pela janela aberta
caísse uma rosa do jardim.
Hoje que estamos juntos,
o nosso caso não medra.
Rosa? Como é uma rosa?
É uma flor ou é uma pedra?
Por que tens tu em má hora,
de trazer contigo a incerteza?
Vens – mas vais passar.
Passas – e eis a beleza.
Sorridentes, abraçados
tentaremos viver sem mágoa,
mesmo sendo diferentes
como duas gotas d’água.
Vemos a foto abaixo de Cracóvia e constatamos imediatamente que apesar dos eléctricos serem diferentes dos de Lisboa, entre ambos há uma imensa afinidade.
Lemos a poesia de Wislawa Szymborsk e apesar de ela ser da longínqua Polónia, verificamos instantaneamente o quanto nos é próxima, são assim as geografias com geometrias literárias-sentimentais.




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