Uma memória fotográfica é a suposta capacidade de recordar imagens, textos, rostos ou acontecimentos com alta precisão e grande riqueza de detalhes. Sheila morreu subitamente aos 42 anos de idade de um aneurisma cerebral. A sua filha, Rachel, tinha à data apenas dezoito meses. Tudo isso sucedeu no já distante ano de 1979.
Rachel disse depois, já em adulta, que da sua mãe tinha tão-somente uma vaga ideia e uma imprecisa imagem baseada nas histórias que o seu pai lhe ia contando. Abaixo uma foto de Sheila, a mãe, com Rachel, a filha.
Sheila era jornalista e fotógrafa. Rachel cresceu e tornou-se também ela própria fotógrafa. No entanto, ansiava por saber mais acerca da mãe que nunca conheceu. A mãe havia deixado abandonado muito trabalho, mas foi apenas perto dos seus 30 anos de idade, que Rachel descobriu a imensa extensão do acervo deixado por Sheila: cerca de 300 mil fotografias, centenas de páginas de anotações em diários e mais de cinquenta horas de gravações com entrevistas a grandes fotógrafos do século XX.
Tudo esse material maternal revelava uma personalidade, desvendava uma voz, mostrava uma maneira de ver o mundo. Em resumo, dava a ver uma vida, a da mãe de Rachel, ou seja, Sheila.
É este o ponto de partida do filme “A Photographic Memory” de Rachel Elizabeth Seed.
Sheila, a mãe, viajou pelo mundo inteiro para se encontrar e entrevistar alguns dos maiores fotógrafos de sempre, esteve por exemplo com Henri Cartier-Bresson em Paris e com Bruce Davidson em Nova York.
Quando Sheila entrevistou Cartier-Bresson, a filha dele entrou na sala, e de repente Bresson pôs-se a falar com voz de bebé: “Oh, Mélanie. Oh!”, conta-nos Rachel, que acrescenta ainda, “E a minha mãe acariciou a criança.”
Esta observação, sobre a carícia de Sheila à pequena menina, nascida um pouco antes de sua própria filha, foi uma das muitas cenas que Rachel recolheu para o seu filme e para si mesma. Cenas como essa ajudaram-na a formar uma imagem da personalidade da sua mãe.
Henri Cartier-Bresson era um fotógrafo que tinha uma maneira muito própria de olhar para as crianças. Abaixo a sua célebre foto, em que um rapaz transportando duas garrafas de vinho deambula por uma rua de Paris.
A cena passa-se na Rue Mouffetard, um arruamento popular e tipicamente parisiense, que milagrosamente continua até à actualidade a não atrair hordas de turistas. Por assim ser, a rua mantém intacta a sua autenticidade.
Todavia, a magna questão que a nós se nos coloca ao observarmos esta imagem de Bresson, é efectivamente a de sabermos que tipo de vinho haveria nas garrafas? Seria tinto ou branco? Jovem ou envelhecido?
Nunca o saberemos, no entanto, há muito que o vinho mais consumido entre os parisienses vem do sul de França, consequentemente, é estatisticamente provável que seja um tinto do Languedoc ou da Provence.
Mas deixemos o vinho e a Rue Mouffetard e voltemos a Rachel e à sua mãe. Um relacionamento é, por definição, uma rua com dois sentidos, uma via dupla, um ir e vir, mas como pode isso ser assim, quando uma das pessoas não está viva?
Parte da resposta está no inusual método que Rachel usou para concretizar o seu filme. “Em dado momento, talvez a meio do projecto, comecei a conversar com a minha mãe. Se encontrava alguma dificuldade, ia para um lugar tranquilo e fazia-lhe uma pergunta. Depois esperava, e ela respondia.”
Os conselhos que Rachel recebeu da sua mãe, diz ela, foram mais sábios do que quaisquer outros que lhe pudessem ser dados por gente viva. Rachel captou a essência dessas conversas no filme.
Para tal, isolou o som das perguntas das entrevistas de Sheila e respondeu-lhes com sua própria voz. Construiu assim uma narrativa em que as duas vozes, a de mãe e filha, se vão intercalando ao longo de todo o filme. Vejamos o trailer.
Rachel diz-nos que em determinado momento, teve uma espécie de epifania, isto ao observar uma imagem de Lewis Hine, famoso fotógrafo norte-americano que extensamente documentou o trabalho infantil no início do século XX.
“Eu não estava a olhar tanto para a criança. Eu estava a olhar para o olhar de Lewis Hine. Naquele momento, senti toda a sua força e energia e quem ele era como fotógrafo”.
Rachel tem também uma visão equivalente olhando para as fotografias da sua mãe. “Toda a boa arte contém em si o espectador e o criador. Quando observei as 300.000 fotografias feitas pela minha mãe, eu estava à procura quem ela era através dos seus olhos, vendo o que era para ela interessante fotografar.”
Sheila também entrevistou o grande fotógrafo Gordon Parks. A sua foto mais conhecida é esta abaixo de 1956, na qual se vê uma menina com a sua tia à porta de um cinema no Alabama. O letreiro diz “Colored Entrance”, sendo que a entrada para brancos é do lado oposto.
Esta foto de Gordon Parks haveria de ser decisiva na luta pelos direitos civis das comunidades negras nos Estados Unidos da América. À época, certos lugares dos Estados Unidos não tinham memória de quem eram e donde vinham, não compreendiam o que se diz logo no início do seu hino, “The land of the free and the home of the brave", e desconheciam o que está escrito na sua Declaração de Independência, “All men are created equal”.
No fundo, nesses tempos, esses lugares dos Estados Unidos, tal como Rachel relativamente à sua mãe, possuíam tão-somente uma vaga ideia e uma imprecisa imagem da sua matriz. Eram sítios afastados da sua essência, que ansiavam por se reencontrarem com os seus primórdios, com a sua origem e identidade.
No filme “A Photographic Memory” aparece-nos um outro imenso fotógrafo ao vivo e a cores, Bruce Davidson, homem que já ultrapassou os noventa anos de idade, mas que permanece ainda e sempre a trabalhar e em pleno vigor.
São da autoria de Bruce Davidson, algumas das melhores fotos de adolescentes e jovens nova-iorquinos, de entre finais da década de 50 e inícios da de 60.
As suas séries fotográficas “Brooklyn Gang” e “East 100th Street”, não são apenas um conjunto de imagens icónicas da cidade que nunca dorme, mas são também retratos únicos daqueles que eram ao tempo “rebels without a cause”, e que tudo o que queriam eram não ser iguais aos seus pais, e não viver a vida acomodada que eles viviam.
Dito isto, “A Photographic Memory” venceu o prémio de Melhor Filme no Festival Internacional de Cinema de Chicago em 2024, venceu igualmente o prestigiado Truer Than Fiction Award, prémio anualmente atribuído em Los Angeles a filmes independentes na semana prévia aos óscares que premeiam as grandes produções de Hollywood, e foi uma das escolhas dos críticos do New York Times (Critic's Pick) como sendo uma das melhores películas do ano.
Recentemente, o filme foi exibido em Nova Iorque no International Center of Photography, em Boston no Museum of Fine Arts e no Jewish Film Festival, e na Califórnia no Berkeley Art Museum.
Até ao presente momento, para o continente europeu está prevista uma exibição em Paris na Fondation Cartier lá para o Verão, e uma outra que é já amanhã, dia 2 de Maio às 21 horas, em Lisboa, na Escola Teixeira de Pascoais, exibição integrada no Ciclo Narrativa 2026. É ver.







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