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Nós é que somos wabi-sabi!


Uma das coisas de que mais gostamos é de pegar em premissas estabelecidas, em frases feitas, em ideias pré-concebidas, em dogmas e certezas e depois dar-lhes a volta, ou seja, transtorná-las, abaná-las, desgastá-las e sujá-las.

O mesmo é dizer que não apreciamos verdades indubitáveis, dessas escritas na dura pedra, preferimos antes verdades irregulares, tais quais como essas pedras incertas que atravessam o tempo no jardim do templo de Ryoanji em Quioto, no Japão.

Há muito quem adore ter rectas crenças, limpas, puras e duras, seja lá qual for o assunto em questão, mas gostando nós de achavascar, fazer oscilar e tremer certezas, hoje em dia deparamo-nos não raras vezes com a quase impossibilidade de o conseguirmos efectuar.

O problema resume-se do seguinte modo: quem é dado a infalíveis certezas, mesmo que as veja sujas, abaladas e abanadas, ainda assim, refugia-se em certos clichés contemporâneos, que lhe permitem não sair do mesmo exacto sítio.

Ponhamos um exemplo, quando alguém após uma conversa ou uma troca de ideias conclui o assunto com a frase “Vamos concordar que discordamos”, aí temos o caldo entornado, e de igual modo o temos com a expressão “Cada um tem a sua opinião”.

Quer “Vamos concordar que discordamos”, quer “Cada um tem a sua opinião”, são enunciados que aparentam sabedoria e apelar à concordância, à tolerância e ao respeito por distintos pontos de vista, mas que todavia não são nada disso, são o seu exacto contrário. Esta é uma habilidade retórica, muito comum dos dias de hoje.

O que essas aparentes tolerantes alocuções querem de facto dizer, para além da sua fachada suave e complacente, é o seguinte: “Já compreendi que não tenho razão, mas daqui não saio daqui ninguém me tira, e portanto fala para aí, diz o que bem te aprouver, que a mim não me convences, eu cá mantenho a minha dê lá por onde der”.


Frases como “Eu, sinceramente, acho que…” e “ Na minha modesta opinião…” também não são um bom prenúncio para uma boa conversa ou troca de ideias.

Com efeito, a primeira frase, “Eu, sinceramente, acho que…”, põe imediatamente em cima da mesa a questão da sinceridade, o que desde logo nos indica que a possibilidade de insinceridade é algo a ter em conta, uma vez que o próprio falante sente necessidade de afirmar a sua grande franqueza.

Na segunda frase, “Na minha modesta opinião…”, o falante afirma imodestamente a modéstia do que vai de seguida ser dito, o que nos faz desconfiar, que se irá alongar em sentenças pouco ou nada simples e singelas, mas sim numas grandiloquentes, afirmativas e pretensiosas.

Aqui chegados, temos a imagem de um jarro japonês do século XVI, tosco e imperfeito.


As crenças e certezas para quem as tem, querem-se perfeitas, inabaláveis e totais, a estética wabi-sabi (侘寂) é um conceito filosófico japonês que se centra na aceitação da imperfeição, da impermanência e da incompletude.

Enraizada no budismo-zen, a estética wabi-sabi é descrita como a arte da imperfeição, celebra a imprevisível e descuidada beleza da natureza, o desgaste do tempo e a autenticidade, tudo isto em oposição à busca pelo puro, pelo imutável e pelo certo e simétrico.

É só irmos à internet para percebermos como no ocidente a estética wabi-sabi está na moda e é uma coisa fina e de categoria. As lojas de mobílias, de design e de decoração arranjaram um filão comercial, e vai daí toca a vender móveis, jarras, cortinados, cadeiras e demais acessórios ao estilo do Japão.

É tudo muito bonitinho e arranjadinho e com um ar elegante e austero. Os felizes comparadores de tudo isso, com certeza que adquirem imediatamente uma aura mística e não haverá quem não lhes gabe o bom gosto, a elegância e a discrição.

A esse propósito, veja-se por exemplo, a perfeita e pura imperfeição desta sala de estar na imagem abaixo. É certo que o seu proprietário aceita os princípios da estética wabi-sabi, a imperfeição, a impermanência e a incompletude, mas isto desde que a sala esteja impecavelmente limpa e arrumada, nada se parta ou estrague, e a empregada doméstica ou alguma visita não se lembrem de roubar algo que faça falta e cuja ausência desarranje esta tão permanente e perfeita composição decorativa.


A estética wabi-sabi não é feita de certezas e pressupõe uma filosofia de vida, contudo, as lojas de mobiliário, os decoradores e não só, conseguiram simplificá-la e transformá-la em sofisticados produtos vendáveis.

Os clientes ficam satisfeitos, pois para além dos móveis, adquirem simultaneamente e instantaneamente uma aura mística e, se quiserem levar a coisa mesmo a sério, podem daí para a frente, modestamente iniciar todas as suas conversas com a expressão “Eu, sinceramente, acho que…” e terminá-las com a tolerante frase “Vamos concordar que discordamos”.

Em síntese, o que queremos dizer com tudo isto, é que actualmente é uma coisa bem vista em meios mais elegantes, ser-se super-tolerante, demonstrar ser-se flexível e não alardear firmes crenças, ideias pré-concebidas e certezas absolutas, ou seja, ser-se assim mesmo tipo estilo wabi-sabi.

Exibir aos sete ventos inabaláveis convicções fica mal, é coisa de gente radical, de políticos ordinários, de bandos de ultra-religiosos, de malta grosseira e do povaréu que frequenta as redes sociais. Em resumo, tudo pessoas nada refinadas nem requintadas, nada wabi-sabi.

Posto isto, vejam lá o nosso problema, que na verdade é bastante intrincado. Por um lado, e como dissemos no início, gostamos de pegar em premissas estabelecidas, em frases feitas, em ideias pré-concebidas, em dogmas e certezas e dar-lhes a volta, mas por outro, não queremos ser confundidos com tolerantes elegantes e com sábios sofisticados, esses perfeitos e permanentes respeitadores de todos os credos e opiniões.

Queremos antes ser radicalmente contra todas as opiniões, incluindo as nossas, defender convictamente incertezas e sermos intolerantes relativamente a quaisquer crenças, sobretudo no que concerne às próprias. No fundo, aceitamos a imperfeição, a impermanência e a incompletude, ou seja, a bem dizer, nós é que somos wabi-sabi.

No Japão quando uma peça valiosa se quebra, ele é restaurada mas não de forma a disfarçar ou eliminar as marcas dessa reparação. As rachas e fendas ficam visíveis, como se fossem um sinal de que nada é perfeito, eterno e absolutamente uno.


Na nossa modesta opinião, cremos muito sinceramente que a tolerância e o respeito que muitos anunciam presentemente ter, é tão-somente uma pose resultante de se ter a certeza absoluta, que é esse o actual estilo em voga para gente com estudos e bem educada.

Acreditamos muito modestamente e com toda a sinceridade, que muita da tolerância e respeito que por ainda andam, são só uma moda, uma coisa que fica bem, um equivalente ético e moral das lojas de móveis wabi-sabi.

Abaixo a imagem de um tabuleiro de madeira japonês do século XV. Esta peça originalmente revestida com uma laca negra, sobre a qual foi depois aplicada uma camada de laca vermelha, degradou-se com o uso.

A camada vermelha desgastou-se, revelando então a base negra e criando assim padrões abstractos, que são um sintoma revelador do tempo que passa e dos seus efeitos.


Como já todos os que nos lêem terão adivinhado, o que nós não apreciamos são verdades puras e limpas, e muito menos disfarçadas em estilo wabi-sabi.

Os clientes de valores éticos e morais de estilo mobiliário wabi-sabi, ou seja, aqueles que ostentam uma elegante e sofisticada tolerância por tudo e por todos, ficariam admirados se lhes disséssemos que são demasiado asseados.

Com efeito, a estética wabi-sabi, e não somente o estilo, só se começa a compreender quando tudo se desarruma e se suja. Vejamos, os decoradores e vendedores de móveis e acessórios, adoram dizer que nos seus produtos se nota os efeitos do tempo, no entanto, o que significará na realidade essa elegante expressão, quando aplicada a objectos?

Quem melhor nos pode responder a tal questão, é o romancista e ensaísta Junichiro Tanizaki (1886-1965). Diz-nos o mestre o seguinte: “Efeitos do tempo é o que de certo soa bem, mas, para dizer a verdade, é o brilho produzido pela sujidade das mãos. Os chineses têm uma expressão para isso, o lustro da mão, os japoneses dizem a usura: o contacto das mãos no decorrer de um longo uso, o roçar, sempre aplicado nos mesmos locais, produz com o tempo uma impregnação gordurosa; noutros termos, esse lustro é, pois, a sujidade das mãos.”

Significa isto, que nada há de autêntico que seja puro e limpo, cada um pode muito bem ter a sua opinião, mas isso não significa que cada fique com a sua, pois há algumas que são mesmo parvas e abstrusas e, assim sendo, para as combater e eliminar temos que nos sujar, e não apenas exibir uma esterilizada tolerância e um desinfectado respeito por tudo e por todos.

Jamais aceitaremos concluir uma discussão ou troca de ideias limpinhos e arrumados com o dito “Vamos concordar que discordamos”. Não senhor, jamais, preferimos antes chafurdarmo-nos de ideias opostas, besuntarmo-nos com crenças diferentes e contaminarmo-nos com conceitos distintos, e assim sim, seremos wabi-sabi.

Seremos respeitadores e tolerantes, mas só o seremos após nos emporcalharmos e atascarmos na sujidade resultante de certas premissas estabelecidas, de umas quantas frases feitas, de muitas ideias pré-concebidas, de fartos dogmas e de certezas intensas.

Vamos terminar com Junichiro Tanizaki e o seu célebre ensaio “O Elogio da Sombra”, no qual ele fala não especificamente na estética wabi-sabi, mas sim em algo mais vasto e que a inclui, ou seja, num dos principais fundamentos da cultura japonesa, a saber, a sombra.

Na sombra não há transparência nem brilho, é uma zona de incerteza onde a visão não é perfeita e nada há que seja completamente visível. A sombra é também o lugar da imperfeição, da impermanência e da incompletude e por isso mesmo, não é um sítio próprio para claras verdades e transparentes certezas, mas sim para a vacilante, dúbia e suja luz que aconchega a beleza e a poesia.

Aqui ficam então essas quantas frases de Junichiro Tanizaki, que não estão gravadas em nenhuma dura pedra e nada de assertivo, certo ou completo nos dizem:

A sombra é a mãe da poesia

A sombra recorda-nos que há coisas que não podem simplesmente ser vistas

A sombra ajuda-nos a recordar que há coisas que não podemos controlar

A sombra torna-nos conscientes da impermanência das coisas

A sombra mostra-nos o lado obscuro de nós próprios

A sombra aproxima-nos um pouco mais da realidade que está para lá do tangível

A sombra permite-nos ver o que há por detrás da aparência

A sombra mostra-nos a verdadeira essência das coisas

A sombra desafia-nos a aceitar o que não podemos mudar

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