Uma coisa é certa, nós não gostamos do Elton John. Acerca do cantor como pessoa, pouco ou nada temos a dizer, isto muito embora já tenhamos constatado, que as suas mais extravagantes vestes denotam um gosto muito peculiar, que classificaríamos como sendo Kitsch.
Todavia, o nosso real problema com o Elton não são as suas vestimentas, mas sim as suas as cançonetas. Coisas tão piegas e melosas como “Nikita” ou “Candle in the Wind”, para citar apenas duas, fazem-nos mal aos ouvidos e provocam-nos inclusivamente alguns problemas do foro digestivo, quando não intestinal.
Aceitemos que o Elton em termos não só de vestuário, mas também musicais, é imensamente Kitsch e quanto a isso não há nada a fazer. Mas dito isto, há uma qualidade que o homem tem, e essa é a de possuir uma excelentíssima coleção de fotografias.
Com efeito, o Elton tem mais de sete mil fotos, sendo que muitas delas são obras dos maiores mestres fotógrafos de sempre. Abaixo uma foto de Herb Ritts, que faz parte da coleção do Elton.
Uma verdadeira coleção de fotografias, não é tão-somente uma mera acumulação de imagens. Uma verdadeira coleção de fotografias revela uma sensibilidade, afinidades, obsessões e vínculos visuais e mostra o que os seus proprietários escolheram ter perto de si.
No início do presente ano, a coleção do Elton esteve exposta no Victoria and Albert Museum em Londres, de seguida veio para Paris, para o Jeu de Paume, onde ainda agora se encontra. À exposição foi dado o título “Fragile Beauty” em Inglaterra, e “Fragile Beauté” em França.
O(s) título(s) da mostra já nos diz muito sobre ela, diz-nos que a coleção do Elton não nos fala de uma beleza lisa, perfeita ou simplesmente sedutora, pelo contrário, todas as imagens preservam vestígios de qualquer coisa de desabrigado, de rugoso ou de indefeso, o que se revela num rosto, numa certa de luz, numa determinada postura ou no simples aparecer de um corpo na sua plena nudez.
As fotos imortalizam um momento ou um personagem, mas tais momentos e personagens trazem consigo algo de vulnerável e frágil.
Abaixo um retrato da autoria de Eve Arnold, onde se vê Marilyn Monroe diante do deserto do Nevada, a preparar uma cena daquele que viria a ser o seu derradeiro filme, “Os Inadaptados”.
O que transforma uma imagem fotográfica em obra de arte, é quando ela não se apresenta apenas como uma imagem, ou seja, é quando nela nasce e se origina uma maneira diferente de ver.
Ver o imprevisto e nunca visto, ou ver de forma diferente o quotidiano e habitual, resulta sempre de um encontro entre quem fotografa e quem ou o quê é fotografado.
Uma fotografia, quando é uma obra de arte, consegue ser elegante sem ser fria, directa sem ser crua, documental sem ser informativa e íntima sem ser corriqueira. Pode retratar um corpo, uma celebridade, uma cena de rua, um rosto, uma postura ou um fragmento da realidade, mas em todas essas situações, abre um espaço distinto no olhar de quem as observa, sendo precisamente isso, o que distingue uma obra de arte fotográfica de uma qualquer mera e banal imagem.
Por consequência de tudo isto, ver a exposição da coleção do Elton, não é apenas olhar para imagens, é fundamentalmente observar as diversas formas em que a realidade se transforma em fotografia e logo em obra de arte, para posteriormente tal constituir uma nova experiência para quem as observa.
Abaixo um retrato de Chet Baker da autoria de Herman Leonard, feito em Nova Iorque em 1956.
Visitar a exposição de fotografia da coleção do Elton, significa viver um encontro silencioso e frente-a-frente com uma imagem, exige-nos tempo e pouco nos é revelado num primeiro e rápido olhar.
Essas imagem inquietam-nos, questionam-nos e por isso resistem a uma leitura apressada. É essa a profundidade que distingue a fotografia de arte de uma imagem meramente decorativa.
Walter Pfeiffer em 1975 fez a foto abaixo. Olhando-a são muito mais as interrogações que se nos levantam, do que as certezas que temos. A fotografia artística começa muitas vezes nesse momento preciso, ou seja, quando uma imagem se torna uma forma de pensar com os olhos.
Certas fotos parecem olhar-nos, assim como nós as olhamos, perturbando desse modo o nosso conforto de espectadores passivos. Outras imagens abordam o corpo como uma escultura viva, numa mistura complexa de desejo, forma e composição. Há ainda aquelas, que são como um diário visual, um registro emocional, uma maneira de preservar relações, de lamber feridas, de eternizar celebrações, de atenuar fragilidades ou de constatar perdas definitivas.
Há fotografias, que inclusivamente nos fazem ver presenças-ausências, seres que nos aparecem como sendo uma espécie de fantasmas. Em síntese, na coleção do Elton há muitas fotos que visivelmente retratam a frágil beleza do invisível.
Para finalizarmos, a foto “Dakota Hair” de 2004, da autoria de Ryan McGinley. O que nessa imagem vemos é simplesmente uma rapariga transportada na carroceria de um qualquer veículo, “on the road”, de cabelos soltos ao vento a atravessar o deserto, em direção a lugar um incerto.
No entanto, olhando com mais atenção e se pensarmos com os olhos, vemos que essa rapariga somos nós, pois que tal como ela, somos todos seres que viajam no tempo a atravessar desertos sem termos verdadeira noção para onde efectivamente vamos.
Sabemos que não vamos ao volante, que não somos quem na realidade decide o destino para que nos dirigimos, todavia, talvez seja tudo isso, o que torna a vida simultaneamente frágil e bela.







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