Decidimos intitular este nosso texto de hoje, “Ai, ai, ai…”. Se porventura alguém nos perguntar porquê, a única resposta decente e sincera que teremos para dar, é a de que não fazemos a menor a ideia.
Em qualquer dos casos, nem sequer gostamos particularmente deste título, foi simplesmente uma coisa que nos veio de repente à mente, enfim, nada mais do que isso. Já agora, a fotografia que encima o texto é de Alexandre O’ Neill.
Como título, Ai, ai, ai…, nem fica mal de todo, mesmo não sendo particularmente brilhante, porém, ao termos de o citar por escrito, esse mesmo título fica pura e simplesmente horrível. Situação que já sucedeu no primeiro parágrafo deste texto, ou seja, o anterior ao anterior a este, o mesmo é dizer, o do início.
Se bem repararam, citámos aí, no dito parágrafo inicial, o título entre aspas, todavia, antes das aspas finais da direita, existem umas extensas reticências e logo de seguida, ainda um derradeiro ponto final. Confirmem lá, como de facto o título ficou mal, do modo como o citámos no primeiro parágrafo: “Ai, ai, ai…”.
Sim, é uma autêntica amálgama de pontos, vírgulas e aspas. Olhem bem para cima, há aspas, vírgulas, depois três pontos (tecnicamente reticências), mais aspas, e após tudo isso, para mais, há igualmente um ponto final. Em síntese, estamos perante um execrável excesso de pontuação.
Veio-nos agora à memória, assim como se viesse do nada, os poemas gráficos com sinais de pontuação do poeta Alexandre O’ Neill, como o aqui abaixo com três pontos, já mesmo a seguir a estes dois pontos:
Ah, O’Neill, que eras fino, coisa que se comprova plenamente pela tua primeira estrofe, daquele poema a que deste o título “Hah!”:
Na verdade o título do poema é Hah, e não “Hah!”:
Há a mulher que me ama e eu não amo.
Há as mulheres que me acamam e eu acamo.
Há a mulher que eu amo e não me ama nem acama.
Repare-se que nesta estrofe, O’Neill faz umas finas e subtis rimas e umas quantas reviravoltas com ama e cama e amo e acamo. Todavia, não foi por isso que citámos o poema, fizemo-lo sim porque achamos o seu título belo e genial: Hah.
Quem nos dera a nós conseguir inventar títulos tão belos e geniais como Hah, ao invés de nos termos de contentar com títulos pouco inspirados como o deste texto: Ai, ai, ai…
Se bem repararam, no fim da frase anterior, após o Ai, ai, ai… seguem-se depois dois pontos. Concentremo-nos agora então nos dois pontos, que indicam sempre algo mais que se lhes acrescente:
Bem sabemos que os dois pontos introduzem o que de seguida virá, contudo, e posto isto, há mais para deles dizer. Em síntese, estando os dois pontos na vertical, eles servem para abrir o apetite para o que se segue, no entanto, se esse mesmos dois pontos estiverem na horizontal, a situação muda logo de figura, pois os dois pontos deixam de ser dois pontos.
Dois pontos na horizontal não o são, são sim um trema, sinal de pontuação que se usa em palavras como Über, Fünft, Mütter ou Glücklich, sendo que esta última quer dizer felicidade, a penúltima mãe, a antepenúltima cinco e a anterior, acima ou superior.
Não há que confundir a Uber com über, são coisas diferentes, e isto por consequência do trema. A palavra über aparece no verso “Deutschland, Deutschland über alles" (Alemanha, Alemanha acima de todos), a linha de abertura de um célebre poema escrito por August Heinrich Hoffmann von Fallersleben em 1841, que décadas depois haveria de ficar na história mas não exactamente por razões poéticas.
Para quem eventualmente não saiba, o trema foi abolido da língua portuguesa pelas reformas ortográficas de 1945, isto em Portugal. No Brasil a abolição veio pelo ainda recente mas já completamente fracassado corrente Acordo Ortográfico, que entrou em vigor no ano de 2013.
Nós só podemos dizer mal do actual Acordo Ortográfico, e damos graças a Deus pelo Alexandre O”Neill ter sido poupado a esse autêntico vexame que uns quantos fizeram à língua portuguesa. Fosse este país um sítio decente, nunca os diversos graus de ensino e as múltiplas disciplinas curriculares teriam adoptado o acordo, mas como esta terra é o que é, ele encontra-se em vigor.
Veja-se o caso de certos conservadores gramaticais, que a propósito dos romances do José Saramago, se queixaram amargamente e intensamente da inexistência nos seus textos de pontos finais, todos esses defensores da língua e puristas da gramática, não tiveram relativamente ao Acordo Ortográfico igual verve, ficaram-se por uns tímidos protestos.
Em boa verdade, ao contrário do que diz a vox populi, Saramago usa pontos finais nas suas obras, mas utiliza-os de forma muito reduzida. A sua escrita restringe-se quase exclusivamente ao uso de virgulas e pontos finais, eliminando a esmagadora maioria dos outros sinais. Não se encontram nos seus livros pontos de interrogação ou de exclamação, travessões ou dois pontos e nem sequer parágrafos.
Saramago não foi o único iconoclasta da pontuação, também António Lobo Antunes efectuou uma subversão radical das regras gramaticais tradicionais. O autor recorria frequentemente a vírgulas, travessões e parêntesis para sobrepor vozes, memórias e discursos de diferentes personagens na mesma página, sendo os habituais pontos finais diluídos para criar uma sensação de continuidade emocional ininterrupta.
Feitas as contas, e ao contrário do mito popular, quem não usava pontos finais era o Antunes e não o Saramago. Os pontos finais, excepto para as rigorosas professoras primárias de outrora, terão ou não relevância, dependendo de quem escreve e de como o faz. Seja como for, aqui fica mais um poema gráfico do grande O’Neill, este abaixo dedicado ao ponto final.
Como já todos terão percebido, nós gostamos do O`Neill, o homem era rebelde, irreverente e provocador, e recusava o conformismo e a sisudez da sociedade portuguesa.
Na sua poesia usava o humor cáustico, a ironia fina e o absurdo para parodiar os "brandos costumes", a "patriazinha" e a moral tradicional. Mas dito isto, era igualmente alguém com profundos sentimentos, a título de exemplo transcrevemos a primeira e a última estrofe do seu poema “Um Adeus Português”:
Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz de ombros puros e a sombra
de uma angústia já purificada
Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.
Quando escreveu “Um Adeus Português”, O’Neill, homem casado, estava a sofrer fortes pressões da sua família para não “ir atrás da francesa”, a sua querida amante e poetisa Nora Mitrani, que depois de uma temporada em Lisboa estava de partida para Paris.
A pressão chegou ao ponto de ter sido metida uma cunha à polícia política para que o passaporte lhe fosse denegado, o que aconteceu, mas não sem que primeiro O’Neill tivesse sido convocado e interrogado por um tal subinspector Seixas.
Vejamos o relato que o próprio O’ Neill fez desse interrogatório: “Seixas usou comigo de uma linguagem descomedida. Perguntou-me que ia eu fazer a Paris. Respondi: ‑ Turismo. Quis saber se eu conhecia a senhora Nora Mitrani. Eu disse que sim. Então Seixas retorquiu: ‑ Se calhar V. quer ir porque essa gaja lhe meteu alguma coisa na cachola. Com a serenidade que me foi possível, fiz-lhe saber que se enganava, que Nora Mitrani não era uma gaja e que eu não tinha cachola. Pareceu surpreendido. Depois, irritado, mandou-me sair. E assim estive anos sem conseguir passaporte.”
Alexandre O’Neill ficou por Lisboa, Nora Mitrani partiu, e ele nunca mais a viu. Em resumo, o homem não pôde ser aquilo que queria ser, não lhe permitiram viver o que almejava viver. Ficou por um Portugal que ele equiparava a uma feira cabisbaixa, ficou por cá tão abatido como uma vírgula reduzida à condição de cedilha.
O´Neill era um poeta de Lisboa. Boémio assíduo, deambulava pelas ruas e tomava nota no seu caderno dos “pequenos absurdos do quotidiano”. Queria observar de perto a “patriazinha iletrada”, apanhar-lhe os ridículos e parodiar-lhe os costumes.
O’Neill sentia-se herdeiro de um outro poeta português, um mais antigo, cujo nome era Manuel Maria Barbosa l’Hedois du Bocage (1765-1805). O'Neill partilhava com Bocage o espírito satírico e o uso do humor corrosivo para criticar as convenções sociais e a hipocrisia do quotidiano português. Ambos viveram à margem das correntes académicas do seu tempo, adoptando os dois posturas irreverentes que desafiaram os valores morais das suas respectivas épocas.
Só para dar um tom da irreverência do poeta Bocage, eis o que ele próprio sugeriu que fosse escrito no seu epitáfio:
Aqui dorme Bocage, o putanheir(_);
Passou a vida folgada, e milagrosa;
Comeu, bebeu, fod(_ _) sem ter dinheiro.
Um aparte, como hão de ter verificado, não transcrevemos as palavras de Bocage na totalidade, pois substituímos as letras finais de duas delas mais escabrosas, por uns parêntesis, ainda que separados, por uns inocentes tracinhos.
Bocage escreveu um poema intitulado “Autorretrato”, imortalizou assim o modelo do autorretrato físico e psicológico em Portugal. O'Neill utilizou precisamente este conceito para escrever o seu próprio “Autorretrato”, adaptando-o ao século XX.
Ambos os poetas enumeram os seus mais marcantes traços físicos e psicológicos. Destacam pormenores como as dimensões do nariz (Bocage descrevia o seu como “Nariz alto no meio, e não pequeno”, O’Neill dizia do seu “nariguete que sobrepuja de través a ferida desdenhosa e não cicatrizada”) e a tez morena da face (Bocage descrevia a sua como “de olhos azuis, carão moreno”, O’Neill dizia da sua “moreno português, cabelo asa de corvo”).
Enquanto Bocage se apresenta de forma impetuosa e inconstante no amor, “Devoto incensador de mil deidades, Digo, de moças mil, num só momento”, O'Neill adopta uma postura mais afectuosa ainda que levemente irónica, “No amor? No amor crê (ou não fosse ele O’Neill!) e tem a veleidade de o saber fazer (pois amor não há feito) das maneiras mil que são a semovente estátua do prazer.”
Os dois terminam os respectivos autorretratos de forma muito característica, o primeiro diz de si “Eis Bocage, em quem luz algum talento; Saíram dele mesmo estas verdades, Num dia em que se achou mais pachorrento”, e o segundo afirma da sua própria pessoa que “bebe de mais e ri-se do que neste soneto sobre si mesmo disse…”
E agora, mais um poema gráfico de Alexandre O’ Neill, este dedicado ao acento circunflexo e um tanto ou quanto romântico e galanteador.
Bocage faz parte dos currículos escolares portugueses, mais concretamente dos da disciplina de Português, e isto tanto no Ensino Básico como no Secundário, sucedendo exactamente o mesmo com Alexandre O’ Neill.
Assim sendo, e tendo nós uma grande costela didáctica e pedagógica, vamos de seguida apresentar um exercício para todos aqueles que se quiserem ir preparando para a época especial de exames em Setembro.
Apresentaremos um poema de cada um destes dois autores, um de O’Neill e o outro de Bocage, mas isto sem dizer qual é qual, compete pois a quem nos lê tal descobrir. No entanto, damos-vos uma pista, o poema de Bocage faz uma crítica crua e irónica à idealização excessiva da beleza feminina, contrapondo-a com elementos corporais e escatológicos. O poema de O’Neill celebra o poder salvífico e consolador da linguagem face à finitude da existência humana.
Vamos lá então descobrir qual é qual. Este é o primeiro:
Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.
Será o poema de Bocage? De O’Neill? Vamos lá então agora ao segundo poema:
Piolhos cria o cabelo mais dourado;
Branca remela o olho mais vistoso;
Pelo nariz do rosto mais formoso
O monco se divisa pendurado:
Pela boca do rosto mais corado
Hálito sai, às vezes bem ascoroso;
A mais nevada mão sempre é forçoso
Que de sua dona o c(_) tenha tocado:
Ao pé dele a melhor natura mora,
Que deitando no mês podre gordura,
Fétido mij(_)lança a qualquer hora.
Cag(_) o c(_) mais alvo merd(_) pura:
Pois se é isto o que tanto se namora,
Em ti, mij(_), em ti cag(_), oh formosura!
Já descobriram? Acertaram? Não têm dúvidas? Ora muito bem, assim é que é, caso ainda andem na escola, estão agora mais do que preparados para a época especial de exames, pois vejo que sereis capazes de responder a todas as questões, por mais complexas que estas possam ser.
E com isto terminamos, não com um ponto final como é habitual, mas sim com dois pontos seguidos de um de interrogação:









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