Fora dos circuitos dados à cultura e mais especificamente à dança, o nome de Anne Teresa de Keersmaeker não é lá muito conhecido. Não tem por cá, pela nossa amada pátria, a celebridade de que desfrutam figuras como o Toy, o Quim Barreiros ou a Ruth Marlene.
No entanto, Anne Teresa de Keersmaeker é uma autêntica lenda viva da dança moderna e, hoje em dia, já com uma certa idade, continua a ser notícia de jornal e a fazer capas de revistas tanto em Nova Iorque, como em Paris ou em Bruxelas.
Aqui a vemos na imagem abaixo na capital belga, acompanhada por um rapaz, que não por acaso, tal como ela, também é coreógrafo e dançarino.
É pena que, fora dos circuitos habituais culturais, Anne Teresa de Keersmaeker não seja mais conhecida e apreciada por cá, pois que a coreógrafa-bailarina tem uma profunda relação com Portugal, e com Lisboa em particular.
Vejamos a esse propósito, o que ela disse numa entrevista que deu há uns quantos anos: “É difícil não cair nos lugares comuns quando se fala de Portugal. Quando penso em Portugal, penso sempre no oceano. É inevitável. Acho que Portugal é uma Espanha muito melhor. A verdade é que, em Portugal, tenho sempre a sensação de que há um olhar para o outro lado. Como se os portugueses pudessem ver algo mais do que aquilo que é apenas visível. Talvez tenha que ver com a situação geográfica. Fico sempre extremamente impressionada quando vou a Sagres. Tem que ver com essa ideia de estar num lugar de onde partiram pessoas em caravelas sem saber para onde iam.”
Vejamos agora como fala de Lisboa em específico: “Em Lisboa sente-se uma mistura entre tradição e um certo sentido de anarquia. É uma cidade de misturas e de fronteiras. Talvez por essa noção do que está distante estar tão presente.”
Na verdade, em 2012 Anne Teresa de Keersmaeker recebeu a Medalha de Ouro da Cidade de Lisboa e foi nomeada cidadã honorária da capital de Portugal, tendo inclusivamente concebido uma coreografia cujo título é “Lisbon Piece”.
Para reforçar este ponto, ou seja, o da ligação a Portugal, refira-se que Anne Teresa de Keersmaeker já dançou um fado de Gisela João, e que a fadista considera a coreógrafa uma grande fonte inspiração, tendo com ela uma profunda amizade e uma relação de admiração mútua.
Quem também tem grande admiração por Anne Teresa de Keersmaeker, mas neste caso o sentimento não é mútuo, é a pop-star norte-americana Beyoncé. Corria o ano de 2011, quando a cantora gravou o teledisco do seu grande êxito “Countdown”. Uma vez tornado público, logo se viu que o dito teledisco era uma cópia das coreografias de Anne Teresa de Keersmaeker para os seus espetáculos "Rosas danst Rosas" e "Achterland".
“Não estou irritada, mas isto é plágio”, afirmou Anne Teresa de Keersmaeker, “o mais rude em tudo isto é que nem sequer se deram ao trabalho de tentar escondê-lo.”
Confrontada com as evidentes semelhanças, Beyoncé admitiu que os trabalhos de Keersmaeker lhe serviram de “influência”. O caso não chegou aos tribunais e Keersmaeker encerrou o assunto considerando que Beyoncé transformou a sua coreografia numa coisa leve e consumista.
Deixemos Beyoncé, mas não uma das coreografias em que supostamente a pop-star se inspirou, “Rosas danst Rosas". Até agora falámos da notoriedade e da relação com Portugal de Anne Teresa de Keersmaeker, a partir deste momento vamos falar das suas danças.
“Rosas danst Rosas” estreou em 1983 e logo aí se percebeu que estávamos perante uma coreógrafa fora do comum. A peça foi imediatamente considerada uma obra-prima da dança.
Entre outras coisas, o que “Rosas danst Rosas” mostrou ao mundo, foi que para se dançar, não há necessidade alguma de se estar de pé, pode-se muito bem dançar, estando-se sentado numa cadeira.
A verdade é que os corpos podem perfeitamente dançar, movimentarem-se e expressarem-se em toda a sua amplitude e intensidade, estando sentados numa cadeira, basta olhar para ela de maneira diferente da comum.
Anos mais tarde, em 1997, o realizador Thierry De Mey filmou uma versão cinematográfica do bailado “Rosas danst Rosas”, o filme tornou-se icónico, sendo considerado um dos melhores de sempre no que respeita à dança moderna e contemporânea.
Thierry De Mey escolheu para cenário do seu filme uma escola, aproveitando ao máximo a geometria, as escadarias, os corredores, as grandes janelas e as qualidades espaciais da arquitectura, e claro que aproveitou igualmente as suas cadeiras.
Aqui fica um excerto, em que se percebe perfeitamente, como é possível expressar as mais profundas emoções, dançando sentado:
Poder-se-ia dizer que Anne Teresa de Keersmaeker é uma arquitecta do movimento, e mais precisamente alguém que desenha geometricamente os gestos, as deslocações e as ações dos corpos humanos no espaço e no tempo.
É certo que quotidianamente todos nós agimos, nos movimentamos e nos deslocamos no espaço, contudo, quando o fazemos temos quase sempre um objectivo a cumprir. Vamos de um sítio para o outro para irmos trabalhar, ir às compras ou para tratar de um qualquer outro afazer.
Se nos baixamos é porque provavelmente deixámos cair algo ao chão. Se gesticulamos intensamente é porque queremos transmitir uma ideia ou fazer vencer um certo argumento. Se subimos ao cimo de um escadote, será talvez porque guardámos algo na prateleira mais alta ou porventura quereremos colher maçãs. Se corremos é porque já vamos atrasados, se saltamos é porque nos deparamos com uma qualquer barreira e se nos deitamos é na maior parte das vezes para dormirmos.
Em resumo, usamos o corpo, os seus gestos e os seus movimentos no espaço, para concretizarmos um qualquer desígnio, o mesmo é dizer, os nossos corpos são-nos úteis para mil e uma coisas, para trabalhar, para comunicar, para andarmos de um lado para o outro, para apanharmos maçãs e para o mais que nos aprouver ou tivermos de fazer.
Na verdade, no nosso quotidiano não necessitamos de uma arquitecta do movimento para nada. Em princípio sabemos bem para onde ir, como nos movimentarmos e como nos mexermos. Não é portanto preciso que nos façam um desenho de como irmos dali para acolá ou com que gestos devemos fazer conversa.
Abaixo um desenho da coreógrafa Anne Teresa de Keersmaeker.
Mas se a larguíssima maioria dos nossos gestos e movimentos estão relacionados com um qualquer objectivo a cumprir ou com algo de útil a fazer, quando dançamos, normalmente fazêmo-lo por puro deleite ou para simplesmente nos expressarmos. A dança, enquanto tal, e em si mesma, não é uma actividade produtiva.
Dançar é "ter uma experiência ao vivo", diz-nos Anne Teresa de Keersmaeker, “Não é como a música, que pode ficar inscrita numa partitura, não é como um quadro, que pode ser pendurado. Se não for dançada, a dança não existe."
A dança é qualquer coisa que existe nos corpos, e que os exalta e festeja. Ao dançarmos como que comemoramos o nosso lugar no espaço, mas não apenas naquele em que momentaneamente estamos, e sim no espaço total, esse que se prolonga pela terra adentro e se estende pelo universo. No fundo, a dança é como os nossos corpos comemoram o facto de existirem.
Citemos a esse propósito Anne Teresa de Keersmaeker: “O meu corpo é construído verticalmente. A minha coluna é construída para criar uma ligação com o que está acima de mim literalmente, mas também com aquilo que está para lá de mim. E só posso criar essa ligação se tiver os pés na terra. Se eu for esse eixo, que liga a terra ao que está acima, então também consigo ligar-me a ti, que estás à minha frente. Acho que é algo essencialmente humano. Quando danço, o que estou a fazer é, basicamente, celebrar essa ligação.”
Veja-se por exemplo como Anne Teresa de Keersmaeker, dançando ao som de Bach, celebra a tranquila alegria de um corpo vivo, que existe num dado momento e num dado espaço, mas que se regala e expressa nos seus movimentos e gestos, como se se movesse pelo universo:
E que tal se celebrássemos cada novo dia, cada amanhecer, dançando? De facto não seria assim tão extraordinário, isto porque ao despertarmos a cada chegada da alvorada, sentimos que existimos, que estamos vivos, que nos podemos continuar a mexer e a movimentar, que ainda temos os pés na terra e o céu permanece acima de nós.
“Cesena” é uma peça coreográfica concebida por Anne Teresa de Keersmaeker para ser dançada ao ar livre, e com início marcado para as últimas horas da madrugada. A dança começa quando ainda é escuro e prolonga-se até ao romper da aurora, até ao momento em que se dá o nascimento da luz.
São dezanove bailarinos e cantores que a interpretam e a música provém de complexas melodias polifónicas medievais. Em “Cesena”, corpos, vozes e luz fundem-se num todo, no qual se celebra o céu, a terra, os gestos, os movimentos, a vida e o universo.
Em conclusão, dança é movimento e quando verdadeiramente nos movimentamos e não andamos simplesmente de um lado para o outro, vemos coisas diferentes, não nos atemos a certezas e deixamos que também bailem as nossas mentes.
Finalizamos como uma citação de Anne Teresa de Keersmaeker, que nos dá conta disso mesmo: “Podes olhar para esta chávena desta maneira (afasta a chávena para perto de si). Também podes olhar para ela desta maneira (coloca a chávena no extremo oposto da mesa e depois fá-la girar). Também podes olhar desta maneira. E desta. E desta. É diferente quando está aqui ou quando está ali.”




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