Ai que lindo e tranquilo é o nosso Portugal...
Está bem de ver que ultimamente tem havido chatices com os exames de acesso ao ensino superior e não só, todavia, isso para nós é uma ocorrência menor, um mero incómodo, pois o que na verdade nos importa é que haja saúde e o tempo esteja de feição.
Por ora há muito barulho nos telejornais e cenas que tais por causa dos exames, mas em breve tudo se dissipará na espuma dos dias e um qualquer outro escarcéu ocupará as notícias e as conversas, depois disso, e como sempre, mal ou bem, cá iremos andando c’o a cabeça entre as orelhas.
Veja-se como as coisas são piores na Índia, onde os exames de acesso ao ensino superior são extremamente competitivos e envolvem anualmente cerca de 30 milhões de estudantes, havendo anos lectivos em que esse número atinge os 60 milhões, coisa pouca portanto. Imagine-se se na lusitana nação houvesse milhões a fazer exame, o que tal não seria? Era bem capaz do nosso querido país ir desta para melhor.
Os exames mais apetecidos na Índia são o National Eligibility cum Entrance Test (NEET), que permite o acesso aos cursos de medicina e da área da saúde, o Union Public Service Commission (UPSC), que é altamente concorrido pois dá acesso a uma carreira na função pública, e o Joint Entrance Examination (JEE), que é fundamental para o ingresso em instituições de ensino de engenharia e institutos de tecnologia.
Em 2026, grande parte dos exames foram anulados depois de surgirem suspeitas de fuga de informação sobre as perguntas constantes nas provas. Pouco antes dos dias marcados para os exames, começaram a circular por todo lado os chamados “guess papers”, uns papéis onde se procura adivinhar as perguntas que sairão nos exames.
Por coincidência, ou provavelmente não, um grande número dessas perguntas coincidiam com as dos exames. As suspeitas de fraude levaram à abertura de investigações e houve testes anulados e repetidos por aproximadamente 20 milhões de alunos. O drama foi tanto e tão intenso, que pelo menos duas dezenas de estudantes se suicidaram após a anulação das provas.
Por cá, pela nossa lusa pátria, não temos “guess papers”, mas ainda assim, e à nossa miúda escala, houve um caso semelhante no exame nacional de Português do 12.º ano. Com efeito, uma imagem e um exercício que apareceram no referido exame eram iguais às de um livro de preparação para os exames da editora Leya, no entanto, chegou-se à conclusão que tal terá sido uma mera coincidência, por consequência disso não houve dramas e tudo findou em enorme paz e harmonia.
Abaixo uma imagem de uma paisagem da Índia, onde podemos contemplar umas quantas flores de lótus, milenar símbolo budista de espiritualidade, paz e harmonia.
Na Índia redes criminosas têm utilizado plataformas de mensagens, com especial destaque para o Telegram, para comercializar ilegalmente o acesso antecipado às perguntas oficiais dos exames. Dadas estas circunstâncias, milhares de jovens estudantes têm saído às ruas da capital, Nova Deli, e em outras cidades, em vigorosos protestos contra as falcatruas.
Numa medida inédita, o governo chegou a bloquear temporariamente o acesso ao Telegram em várias regiões do país durante o período de exames para tentar assim travar a partilha de documentos e a fuga de dados. O escândalo resultou na demissão de altos responsáveis ligados ao Ministério da Educação indiano e na prisão de dezenas de suspeitos de integrar tais fraudulentos esquemas.
As manifestações dos jovens estudantes em direção ao parlamento têm resultado em confrontos, com as autoridades indianas a recorrerem a gás lacrimogéneo e a cassetetes para dispersar as multidões.
O movimento de estudantes em protesto adoptou um nome satírico, o Partido das Baratas. Tal designação deve-se ao facto de o presidente do Supremo Tribunal da Índia, Surya Kant, ter comparado os jovens desempregados e activistas a baratas e parasitas. Mais tarde, o ministro da Educação da Índia reagiu aos protestos designando os estudantes que pediam a sua demissão como “Equipa B de terroristas”.
Abaixo uma jovem estudante indiana, que num canto de sua casa medita profundamente se deverá porventura juntar-se aos protestos, ou se deverá antes ir estudar para a segunda fase dos exames.
Perante o caos instalado, o primeiro-ministro Narendra Modi tentou conter os protestos gravando um vídeo, onde faz promessas aos estudantes, contudo, não anunciou a demissão do ministro da educação, Dharmendra Pradhan, que era algo exigido por todos os manifestantes.
No vídeo, Modi, que governa o país há mais de uma década, anuncia que o julgamento dos responsáveis pelas fraudes seria rápido e que as punições seriam severas. Porém, tal não foi suficiente para conter os protestos, tendo os líderes estudantis assegurado que vão continuar com os ditos até à demissão do ministro da educação.
Feitas as contas, há que concluir que os estudantes indianos ficaram aborrecidos, e quiçá até mesmo irritados, com todos os problemas que existiram com os exames de acesso ao ensino superior. Facto curioso é verificar, que perante os problemas existentes em Portugal com os exames, os jovens estudantes nacionais não ficaram lá muito irritados ou sequer aborrecidos, dizem sim ter ficado cheios de ansiedade.
Numa qualquer reportagem televisiva da presente semana, quatro ou cinco estudantes de diferentes escolas deste país, questionados acerca dos exames, afirmaram perante as câmeras que se sentiam com muita ansiedade.
Mais do que isso, posteriormente a essas juvenis declarações, um comentador encartado referiu também os problemas de ansiedade dos jovens, assim como o fez igualmente um sindicalista, um político da oposição e o próprio ministro da educação.
Para o ramalhete ficar completo, pais, mães e demais encarregados de educação também encheram a boca com os múltiplos problemas de ansiedade dos seus educandos, uma perturbação psíquica que lhes foi causada pelos problemas com os exames.
Sendo este o contexto, é natural que o semanário Expresso levantasse a seguinte questão: “Estes estudantes já não saem à rua?”. Pelos vistos, lá se decidiram ontem a sair, contudo, segundo os relatos jornalísticos, mais não eram que uma mera centena, os restantes continuaram prostrados em casa com tanta ansiedade.
Abaixo uma imagem de uma jovem estudante indiana sem pinga visível de ansiedade, apesar de na Índia os exames de acesso ao ensino superior serem todos eles de uma enorme complexidade.
Deixemos a Índia e pensemos agora na Finlândia, país apontado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), como um dos exemplos mais avançados na digitalização dos exames nacionais.
A reforma na Finlândia começou em 2012. Depois de quatro anos de preparação, os primeiros exames digitais realizaram-se em 2016 nas disciplinas de Geografia, Filosofia e Alemão. O processo foi sendo alargado progressivamente até 2019, quando todos os exames nacionais passaram a decorrer em formato digital. Pelos vistos, os finlandeses sabem que depressa e bem há pouco quem.
Um outro exemplo, a Nova Zelândia está a avançar de forma gradual neste processo, sendo que as escolas aderem progressivamente ao modelo digital, ou seja, à medida que reúnem as condições técnicas necessárias. A transição não é feita em simultâneo para todas as disciplinas ou estabelecimentos de ensino, procurando-se assim reduzir os riscos inerentes a esta transição. Quer nos cá parecer, que os neozelandeses sabem que cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém.
Já a experiência da Suécia mostra-nos que a transição para os exames digitais pode enfrentar obstáculos. Em 2017, a Suécia começou paulatinamente a introduzir os exames nacionais digitais. Durante esse desenvolvimento, foram identificados problemas técnicos na plataforma e uma falha relacionada com a proteção dos dados pessoais dos alunos.
No entanto, a digitalização dos exames continuou a ser uma prioridade para o governo sueco. Em abril de 2025, foi anunciado um reforço de 82 milhões de euros ao investimento inicial já realizado, que rondava os 700 milhões de euros. Só para termos um termo de comparação, de acordo com os dados oficiais, o investimento português na digitalização dos exames foi de cerca de 7,1 milhões de euros, sensivelmente cem vezes menos portanto. Segundo nos parece, os suecos estão conscientes que bom e barato é raro.
Abaixo mais uma jovem estudante indiana, que enquanto faz tempo para ir à manifestação, vai fazendo também contas de cabeça sobre os gastos e o modo como a digitalização dos exames foi implementada na Finlândia, na Nova Zelândia e na Suécia, e o modo como a mesma foi feita em Portugal. É uma rapariga muita atenta ao que passa noutros países.
Todos sabemos que o nome do nosso ministro da educação é Fernando Alexandre, sabemos também que ele forma uma coesa parelha de trabalho com o seu secretário de estado Alexandre Homem Cristo.
Em 2018, Alexandre Homem Cristo, então colunista especialista em educação do jornal Observador, escrevia o seguinte num artigo por si intitulado A OCDE tem razão: os exames não devem contar: “Na sexta-feira passada, a OCDE recomendou que Portugal deixasse cair o actual modelo de exames nacionais ligados ao acesso ao ensino superior, que o director para a Educação da OCDE identifica como um dos principais problemas do sistema educativo português. A recomendação é certeira e, aliás, o problema não é novo – nos últimos anos, escrevi sobre o tema em artigos de opinião (em 2014 e em 2017) ou em reflexões mais alargadas.”
Mais à frente, nesse mesmíssimo artigo, Alexandre Homem Cristo continuava assim: “Para além de esgotado, o modelo português de acesso ao ensino superior constitui ainda uma raridade na paisagem da UE: existente em Portugal, a relação directa entre exames nacionais do secundário e acesso ao ensino superior é excepcional nos sistemas europeus. Note-se que, em vários países europeus (Dinamarca, Holanda, Irlanda, Reino Unido), os critérios de acesso aos cursos do ensino superior são definidos pelas próprias universidades e diferenciados por curso – e, quando as características das formações assim o exigem, aplicam-se restrições no número de vagas (numerus clausus). Noutros países (Bélgica, França), o acesso ao ensino superior é considerado livre – isto é, basta ter o diploma do ensino secundário para entrar, sendo a selecção dos alunos feita posteriormente, na passagem do 1.º para o 2.º ano dos cursos…”
Ora bem, dados os problemas deste ano, parece-nos que está aqui uma excelente oportunidade, e citando novamente o colunista Alexandre Homem Cristo, para sugerir ao ministro “cortar a ligação (dos exames) com o acesso a cursos superiores, tornando autónomos o ensino secundário e o ensino superior. Assim, os exames manter-se-iam para validar a conclusão da escolaridade obrigatória, e para aceder à universidade um outro modelo de acesso seria implementado.”
Abaixo mais uma jovem estudante indiana, uma que pondera deveras se na Índia também não deveriam considerar “cortar a ligação (dos exames) com o acesso a cursos superior”.
Aqui chegados, por nós, temos tudo dito. Na verdade não dissemos pouco, uma vez que falámos da Índia, de Portugal, da Finlândia, da Nova Zelândia e da Suécia, e falámos ainda de manifestações políticas, de ansiedades, de secretários de estados e de articulistas de jornal. Acrescente-se a tudo isto, que ainda tivemos provérbios e ditos tipicamente portugueses.
Em síntese, temos aqui um texto pluridisciplinar, que para além do mais tem imagens de jovens estudantes que por causa dos problemas com os exames, contam com toda a nossa solidariedade didáctica e pedagógica.
Quanto aos rapazes e às raparigas portuguesas, dados os problemas de ansiedade que têm, o mais que podemos fazer é aconselhar-lhes um chá quentinho. Diz que acalma...






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