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Em Londres, Nova Iorque e Toledo é um luxo, em Lisboa é lixo!

 


Cristina Iglesias nasceu em 1956 na cidade basca de San Sebastián, em Espanha, sendo uma das escultoras actuais com o maior renome internacional. Durante anos criou labirintos, pavilhões suspensos, treliças e passagens que desafiam a percepção do espectador.

Dir-se-ia que essas suas obras são imersivas, não tivesse esse termo ganho uma estranha conotação nos últimos anos, estando agora associado a muitas luzes, a imagens artificiais, a cenas digitais e a outras coisas que tais.

Seja como for, as obras de Cristina Iglesias nada têm que ver com isso, são antes espaços místicos, tecidos manualmente e permeados por luzes e sombras, em síntese, tratam-se de labirintos cuja travessia nos lembra coisas muito antigas e nos faz vislumbrar algo de invisível ou de já quase esquecido.


Nos últimos anos, Cristina Iglesias tem trabalhado em espaços públicos. Estuda a geologia de um local, para tentar saber que correntes subterrâneas aí existem, que nascentes, covas, e rios escondidos e antigos atravessam as ocultas entranhas da terra.

Abaixo da superfície das mais modernas cidades, há ancestrais percursos fluviais, grutas, fossas, ribeiros e riachos há muito olvidados. No fundo, as cidades são como nós, assentam e crescem sob camadas sucessivamente sobrepostas, o tempo passa e o adulto que hoje somos encobre caudais e cavidades da criança de outrora.

A propósito de tudo isto, um poema de Luísa Freire:

O selvático betão
atola as cidades e encurrala as gentes.

Por baixo de luxuosos arranha-céus
ressumbra, invisível, o musgo e o bafio
das milenares cavernas primitivas

Bem no centro de Londres, Cristina Iglesias removeu simbolicamente o pavimento urbano para permitir que um muito antigo rio "volte a respirar". A intervenção convida os transeuntes a imaginar a paisagem selvagem da capital britânica antes da ocupação romana.

Vital para a colónia romana e medieval, o Rio Walbrook foi sendo progressivamente enterrado ao longo dos séculos, especialmente na era vitoriana, corria apenas através do sistema subterrâneo de esgotos da cidade, agora voltou a ser visível e audível na luxuosa City, o bairro financeiro de Londres.

A obra de Cristina Iglesias funciona como uma evocação poética e arqueológica da própria história natural de Londres. A água nunca está estática, ela enche, esvazia, corre e desaparece, criando uma experiência contemplativa para todos aqueles que diariamente atravessam a cidade.

A água é como o tempo, nunca se detém, nunca sossega. Aqui fica um vídeo de “Forgotten Streams”, em Londres, no Reino Unido:


Em Nova Iorque, e mais concretamente no Madison Square Park, Cristina Iglesias concebeu uma escultura para desenterrar a história geológica e os terrenos esquecidos de Manhattan antes da sua industrialização.

A obra evoca o antigo Cedar Creek, um riacho natural que corria originalmente no local onde hoje se encontra o relvado do parque e que foi enterrado no século XIX. Iglesias instalou cinco poços escultóricos de bronze embutidos diretamente no solo. O fundo de cada uma dessas estruturas foi esculpido de modo a replicar um relevo intrincado de rochas, raízes entrelaçadas, ramos e lodo. O título da obra é “Landscape and Memory”.


No coração da ancestral cidade de Toledo, entre a Câmara Municipal e a Catedral, há uma grande escultura embutida na calçada da sua principal praça. Sob o nível do solo, um leito esculpido em bronze imita raízes e formas vegetais orgânicas entrelaçadas.

A água corre ciclicamente sobre este relevo, enchendo e esvaziando a cavidade, criando um espelho de água mutável que reflete a arquitectura histórica em seu redor.

As águas convivem com o ruído e o fluxo dos transeuntes, e com a imagem imponente da Catedral nelas refletida, assim como a das pessoas que as contemplam. Mais do que uma mera memória, as águas funcionam como um espelho, uma superfície cintilante ou serena onde vislumbramos vestígios da passagem do tempo, e vislumbres, que como que refletem o desenrolar das nossas próprias vidas.


O rio que nasce em Toledo é o Tejo, ao qual os espanhóis chamam Tajo, sendo as suas águas as que aparecem, reaparecem e desaparecem na principal praça dessa cidade.

Como todos sabem, o Tejo vem desaguar a Lisboa, e é na capital de Portugal, que vamos encontrar uma outra obra de Cristina Iglesias, mais especificamente no Parque Gonçalo Ribeiro Telles, junto à Praça de Espanha.

A obra escultórica tem como título “Quatro Poços de Água no Parque” e explora a noção de subterrâneo e de invisível. Através de um sistema hidráulico, a água corre e recua em ciclos ritmados, simulando uma profundidade indefinida, que faz a peça parecer "respirar" sob a superfície. Foi uma oferta da Fundação Calouste Gulbenkian à cidade.

Em Londres, Nova Iorque ou Toledo as autoridades e os habitantes acarinham as esculturas de Cristina Iglesias, já em Lisboa, a peça "Quatro Poços de Água no Parque", da artista Cristina Iglesias, sofre com o desmazelo e a falta de manutenção. O sistema hidráulico há anos que não funciona, e as quatro estruturas acumulam frequentemente lodo, detritos e lixo.

Terminamos com uma imagem de como deveria ser a obra de Cristina Iglesias em Lisboa, caso alguém cuidasse dela.



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