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O nosso onze ideal para a final Espanha versus Argentina


É hoje a final do Mundial de Futebol, e ao contrário do que eventualmente se possa pensar, nós não nos vamos pôr adivinhar quem vai ganhar, nem vamos tão-pouco sugerir quais os jogadores que devem ser titulares, vamos sim dizer quem são as nossas onze figuras favoritas de Espanha e também da Argentina.

Em síntese, vamos fazer duas seleções com gente que não dá pontapés no esférico. Como somos Ibéricos estamos por Espanha, que ainda para mais é sítio de que muito gostamos e é já aqui ao lado. Por assim ser, não vamos ser equitativos, pois dedicaremos muito mais tempo aos selecionados espanhóis do que aos argentinos.

Com os espanhóis iremos um a um, com calma e tranquilidade, uma vez que são os nossos preferidos, com os argentinos despachamos o avio todo de uma penada.

Vamos lá então ao nosso onze ideal do país vizinho. 
O primeiro selecionado é Miguel Cervantes (1547–1616), o autor do imortal “Dom Quixote”. Não vamos hoje alongarmo-nos sobre os méritos de Cervantes e acerca da extrema importância do livro em que se relata as aventuras e desventuras do cavaleiro da triste figura, vamos só e apenas citar o poético e mítico início dessa genial obra:

“En un lugar de la Mancha, de cuyo nombre no quiero acordarme, no ha mucho tiempo que vivía un hidalgo…”


O nosso segundo selecionado é Diego Velázquez (1599–1660), o maior dos pintores espanhóis. Só por ter pintado “Las Meninas”, Velázquez tem direito a um lugar cimeiro no ranking da História da Arte.

“Las Meninas” é um quadro cheio de enigmas e mistérios, é uma pintura dentro da pintura, um jogo de reflexos e contra-reflexos e uma troca de olhares entre os personagens retratados e quem os observa. Em resumo, é uma daquelas pinturas que não são só para serem contempladas com os olhos, mas que também são para ser olhadas com o cérebro.


Miguel Unamuno (1864-1936), o nosso terceiro selecionado, foi um dos mais influentes filósofos espanhóis de sempre, sendo que escreveu um muito fascinante livro intitulado “Por Tierras de Portugal y España”.

Foi nessa obra que Unamuno manifestou a sua profunda impressão pelo constante pessimismo lusitano e pela melancolia tão própria dos portugueses. Ao acompanhar as tragédias de intelectuais portugueses de quem era próximo ou admirador, ou seja, de gente como Antero de Quental, Camilo Castelo Branco, Soares dos Reis e o seu amigo próximo, o filósofo português Manuel Laranjeira, Unamuno concebeu a sua célebre e dura tese de que Portugal é um povo de suicidas.


O nosso quarto selecionado é o arquitecto Josep Lluís Sert (1902-1983), homem que nasceu e viveu em Barcelona. Admitimos que haja quem conteste esta nossa escolha e advogue que o arquitecto selecionado deveria ser Antoni Gaudí, que por acaso também era de Barcelona.

A nós tanto nos faz que concordem ou discordem da nossa opção, o facto é que Josep Lluís Sert concebeu e desenhou um dos mais belos edifício de sempre. A Fundação Maeght é amplamente reconhecida como uma obra-prima que funde harmoniosamente arquitetura, arte e natureza.

Inaugurada em 1964 no sul de França, com vista para o translúcido mar Mediterrâneo, foi criada em estreita colaboração com grandes artistas do século XX, como Joan Miró, Alberto Giacometti, Marc Chagall e Alexander Calder.

A Fundação Maeght é constituída por um conjunto de edifícios, pátios e jardins, rodeados de árvores por todos os lados. Grandes janelas inundam as galerias com luz natural, permitindo que a luminosidade do sol do sul de França ilumine todo o interior de uma forma absolutamente harmoniosa.


O quinto selecionado é um poeta, Antonio Machado (1875-1939). Acerca deste poeta nada mais vos vamos dizer, a não ser que era andaluz. Aqui ficam os primeiros e últimos versos do seu longo poema “Retrato”:

Minha infância são memórias de um pátio sevilhano,
e um horto claro onde madura o limoeiro;
juventude, vinte anos em solo castelhano;
minha história, alguns casos que relembrar não quero.

Trabalho e com meu dinheiro pago
o fato que me veste e a casa que habito,
o pão que me alimenta e a cama onde me deito.
E quando o dia vier da última viagem,
estando pronta a partir a nave que não volta,
a bordo me achareis ligeiro de bagagem,
nu ou pouco menos, como os filhos do mar.

Vamos então ao sexto selecionado, o cineasta Pedro Almodóvar, homem nascido em 1949 numa pequena localidade de Castilla-La Mancha. Almodóvar veio cedo para a capital de Espanha, sendo que essa sua vinda coincidiu com o período mais criativo e intenso dessa buliçosa cidade, a década de 80 do século XX, a época de “La Movida” cujo mote era “Madrid me mata”.

O mais feliz filme de Pedro Almodóvar intitula-se “Mulheres à beira de um ataque de nervos”. É uma comédia e simultaneamente um drama, a história segue Pepa, uma mulher madura e actriz, que é abandonada pelo seu amante, Iván. A caótica vida de Pepa cruza-se com a da ex-mulher e com a do filho de Iván, e também com a sua melhor amiga, a neurótica Candela, que se esconde em sua casa após descobrir que o seu namorado é um terrorista xiita.

A estética é retro, mistura os visuais vibrantes dos anos 80, com os tons fortes e garridos dos anos 50. Tudo começa logo no genérico com a clássica balada “Soy un infeliz”:


O nosso sétimo selecionado é Pablo Picasso (1881-1973). O homem foi um gigante, um autêntico vulcão, a sua existência demonstra-nos que possuía um apetite insaciável pela vida.
Criou mais de treze mil obras e revolucionou por diversas vezes a arte, teve apenas duas esposas, mas ao longo da sua vida manteve inúmeras relações amorosas, incluindo com as suas sete conhecidas musas e com mais umas outras quantas mulheres que ele designava como sendo as amantes principais. Viveu em Málaga, La Coruña, Barcelona e Madrid, em Montmartre e noutros bairros de Paris, e depois em várias pequenas localidades do sul de França como Vallauris, Antibes e Mougins.

É certo que Picasso era omnívoro, coisa que hoje em dia não é lá muito bem vista, sobretudo pelo sectores mais ligados ao feminismo, que veem no pintor uma figura misógina e desafiam a sua canonização como "génio". Seja com for, nós mantemos Picasso como um dos selecionados.


O nosso oitavo selecionado chama-se Calderón de la Barca (1600-1681) e foi o maior dramaturgo do barroco espanhol e o expoente máximo do chamado Século de Ouro.

A sua mais famosa peça teatral intitula-se “A vida é um sonho”, sendo que nela conta-se a história do príncipe Segismundo, que foi trancado numa torre pelo seu pai, o Rei Basílio, devido a um funesto presságio.

O Rei Basílio, um astrólogo, prevê através dos astros que o seu filho, Segismundo, será um monarca cruel e um tirano. Para evitar o cumprimento desta profecia, decide encarcerá-lo desde o nascimento numa torre isolada, onde ele cresce acorrentado e privado de liberdade, e sendo essa a única realidade que conhece. Segismundo nem sabe que é um príncipe.

Anos depois, o rei decide realizar uma experiência para testar a veracidade da sua previsão. Narcotiza Segismundo e leva-o, adormecido, para o palácio real. Ao acordar, dizem-lhe que as suas memórias do tempo em que esteve preso na torre, mais não são que um sonho, pois na realidade ele é um príncipe.

Sabendo-se um príncipe e rodeado de luxo, Segismundo comporta-se de forma crescentemente violenta, arrogante e impulsiva, o que acaba por levar o rei a narcotizá-lo novamente e a devolvê-lo à torre. Quando o príncipe acorda na prisão, dizem-lhe que tudo não passou de um sonho, nem ele é príncipe, nem alguma vez esteve num palácio, nem nada mais existe do que aquela torre onde vive.

No fundo, o significado da peça é a de que a existência terrena é efémera, ilusória e passageira, ou seja, é comparável a um sonho.


O nosso nono selecionado é Luis Buñuel (1900-1983), o realizador de cinema. Buñuel foi um grande iconoclasta, e com os seus filmes não deixou pedra sob pedra. Em 1925, foi viver para Paris e foi aí, que juntamente com Salvador Dali provocou um primeiro grande escândalo com a curta-metragem “Un Chien Andalou”.

No filme há formigas a saírem de um buraco na mão, uma navalha a cortar um olho, a sequência inicial começa com “era uma vez" para logo em seguida dizer "oito anos depois", e posteriormente há muitas outras cenas sem qualquer lógica aparente.

Tempos mais tarde, Buñuel realizou uma outra curta-metragem, “L’ Âge d’Or” que era tão inusitada como a primeira. Apesar disso não ser nada evidente, disse-se à época que o filme atacava frontalmente a pátria, a alta sociedade e os dogmas católicos. Na estreia os tumultos foram mais que muitos e o cinema onde o filme foi exibido ficou completamente destruído.

“L’ Âge d’Or” foi proibido por razões de ordem pública em vários países, tendo sido essa uma das mais longas proibições da história do cinema, pois durou cerca de cinquenta anos.

Buñuel teve de se exilar no México, mas também arranjou lá problemas e acabou por regressar a uma Espanha que ainda vivia sob a ditadura de Francisco Franco. No país vizinho, em 1961, Buñuel dirigiu uma película que era uma sátira feroz à caridade cristã, “Virdiana”.

No auge do filme há mendigos encenando uma orgia que mimetiza visualmente a pintura "A Última Ceia de Cristo”. O jornal oficial do Vaticano classificou a obra como blasfema. O governo espanhol demitiu o responsável da censura por ter aprovado a exibição do filme e tentou destruir todos os negativos, coisa que não conseguiu.

Buñuel foi condenado ao exílio imediato e partiu para França, onde permaneceu durante longos anos. Aqui fica a célebre cena, em que um grupo de mendigos come e bebe à farta, e depois posam para um retrato, tirado como uma curiosa máquina:


O nosso décimo selecionado é Juan Muñoz (1953-2001), artista nascido em Madrid e prematuramente falecido em Ibiza. As suas obras apresentam frequentemente figuras escultóricas monocromáticas, sem pés ou suspensas, que parecem comunicar ou rir entre si sem que se perceba porquê, o que cria ambientes enigmáticos.

Nas obras de Muñoz, quem observa as esculturas sente-se também observado. As peças exigem que o público participe e circule pelo espaço, tornando a experiência narrativa e imersiva.

Há obras de Juan Muñoz espalhadas pelo nosso Portugal. “13 a rir uns dos outros" encontra-se no Jardim da Cordoaria no Porto, o Museu de Serralves possui várias obras do artista espanhol, o Centro Cultural de Belém em Lisboa também tem algumas e da coleção do recente Museu de Arte Contemporânea Armando Martins (MACAM) fazem igualmente parte um par de obras de Juan Muñoz .

A nossa obra favorita de Juan Muñoz é a da imagem abaixo, “Many Times” de 1999, que anda frequentemente de viagem e que nos últimos anos foi aparecendo por Londres, por Madrid, por Nova Iorque e pelo Porto.


Posto isto, vamos ao décimo primeiro e último selecionado para o nosso onze ideal de Espanha, o seu nome é Amalia Avia (1930-2011).

Amalia Avia esteve toda a vida casada com o célebre artista abstrato Lucio Muñoz e durante muito tempo a sua obra foi relegada para segundo plano, sendo ofuscada pela grande projecção pública e pelo sucesso internacional que o marido alcançou.

No entanto, a pouco e pouco a sua obra tem vindo a ser descoberta, sendo que em 2022 foi homenageada em Madrid com uma grande exposição antológica e a partir daí são cada vez mais os que a admiram.

Amalia Avia retrata os edifícios e locais dos bairros mais emblemáticos da capital espanhola, como por exemplo a Puerta de Alcalá, a Puerta del Sol, o Palácio de Cristal no parque do Retiro e o Paseo de Recoletos. As suas obras não procuram mostrar os grandiosos monumentos da cidade, mas sim representar triviais portas, discretas fachadas e simples janelas, que evocam a Madrid na qual a artista viveu.

Os seus quadros não querem ser majestosos, centram-se antes no modesto quotidiano, ou seja, no que acontece em lugares como pequenas lojas, humildes salões de beleza, singelos cafés ou as escadas do metro.


Aqui chegados, concluímos o nosso onze de Espanha, vamos portanto ao da Argentina que vai ser bastante mais rápido. Em primeiro lugar temos o fantástico escritor Jorge Luis Borges (1889-1986), autor de irreais e espantosos contos, que não deixam de nos deixar perplexos de cada vez que os lemos.

O segundo selecionado argentino é o fabuloso Julio Cortázar (1914-1984), que escreveu “Rayuela”, palavra que significa uma espécie de jogo da macaca. Em português o livro intitula-se “O Jogo do Mundo”.

A história pode ser lida pela ordem dos capítulos, do primeiro até ao último, mas também pode ser lida exactamente ao contrário, do fim para o princípio, pode ainda ser lida na ordem proposta pelo autor, começar no capítulo 73 e seguir a sequência específica indicada no final de cada capítulo (ex: 73 → 1 → 2 → 116 → 3...), há também capítulos prescindíveis, do 57 ao 155, e por fim pode-se ir lendo saltando de capitulo em capítulo, de lá para cá e de cá para lá, sem seguir qualquer regra.

O nosso terceiro selecionado é o excelente músico e compositor Astor Piazzolla (1921- 1992), que incorporou no tango elementos do jazz e da música clássica. Não é preciso falarmos dele, basta ouvi-lo:


De quem também não é preciso falarmos muito, é do nosso quarto selecionado, Quino (1932-2020). Para além de ter criado a célebre Mafalda, Quino foi também um ilustre ilustrador. As suas geniais ilustrações não necessitam de mais palavras, aqui fica uma das nossas favoritas, com o “Guernica” de Picasso todo arrumadinho:


O quinto selecionado é uma arquitecta, Ítala Fulvia Villa (1913-1991). Um dos lugares mais belos e inquietantes do mundo, e também muito pouco conhecido, fica em Buenos Aires, é um cemitério.

É um espaço que esconde uma jornada plena de luz e de emoção. Na década de 50 do século XX, Ítala Fulvia desenhou um cemitério funcional e sóbrio, mas o que ela verdadeiramente criou foi algo de ousado e radical, para aquela época e para qualquer época. Este cemitério de Buenos Aires não é um edifício, mas sim uma paisagem e, embora subterrâneo, é repleto de luminosidade.


O sexto selecionado é Clorindo Testa (1923-2013). Foi arquitecto e deixou marca na cidade de Buenos Aires, por ter concebido a Biblioteca Nacional do seu país, um dos mais belos edifícios brutalistas do mundo.


O sétimo selecionado é a cineasta Lucrecia Martel, mulher nascida em 1966. A sua melhor película é de 2001 e intitula-se “La Ciénaga”, o que em português veio a dar “O Pântano”.

Fevereiro no Nordeste da Argentina. Sol abrasador e abundantes chuvas tropicais. Há terras que se transformam em pântanos. Duas famílias da média burguesia à beira de um colapso. Mecha tem 50 anos, um marido que pinta o cabelo e quatro filhos. Nada que dois ou três copos não possam curar. É Verão e a casa de férias tem uma piscina decrépita.

À família de Mecha, reúne-se a família da sua prima, que tem igualmente quatro filhos. Todos deambulam pelas redondezas num ambiente de abandono, a rotina é sufocante e centrada na gestão caótica de crianças e adolescentes. É um óptimo filme para abrir apetite para as férias:


O nosso oitavo selecionado é o pintor Antonio Berni (1905-1981). Ficou mundialmente conhecido por liderar o movimento Nuevo Realismo. Usava a arte como uma ferramenta de denúncia política e social para dar voz às populações marginalizadas, nós gostamos particularmente deste seu quadro abaixo, “Desocupados”.


O nono selecionado é Mariano Pensotti, nascido em 1973 em Buenos Aires. Pensotti é dramaturgo e encenador, é portanto um homem do teatro.

A sua melhor peça chama-se “Cineastas”. Entrevistado disse o seguinte: “A primeira ideia que tive foi entrevistar um grupo de jovens cineastas de Buenos Aires para aquilo que eu julgava que ia ser uma instalação numa galeria, onde pudesse projectar simultaneamente os filmes reais que eles realizaram e uma série de documentários sobre as suas vidas. Mas não funcionou e achei que podia trabalhar esse material em teatro. O projecto de um palco dividido ao meio, em split screen – a vida real em baixo, os filmes em cima , apareceu aí”.

As histórias dos filmes são influenciadas pela vida dos personagens e também o contrário, os filmes transformam as suas vidas. Mariano Pensott teve a genial ideia de dividir o palco em duas metades e dar-nos a ver ao mesmo tempo a vida real dos personagens e as suas ficções.


O nosso penúltimo selecionado, o décimo, é Jose Muñoz, desenhador de BD’s. Nascido em 1942, o renomado autor de banda desenhada argentino é conhecido pelo seu traço expressionista a preto e branco, condimentado com cinzentos de grande impacto dramático.

Os seus traços não procuram a perfeição, pelo contrário, as figuras humanas e os cenários são distorcidos de forma a amplificar as emoções e o sofrimento psicológico das personagens. O seu estilo tem uma forte cadência rítmica ligada ao Jazz e ao Blues.

Os rostos cansados, o fumo dos cigarros e os bares suburbanos ganham uma melancolia única através do seu traço, como se vê na vinheta abaixo.


Por fim, o nosso décimo primeiro selecionado, o maior símbolo da Argentina e do tango, Carlos Gardel (1890-1935). O homem é uma lenda que atravessa gerações e é parte integrante da identidade argentina.

Em “Volver” a letra evoca memórias ao afirmar que "vinte anos não é nada" e retrata a angústia de enfrentar um passado que regressa após um longo período de ausência: “Tengo miedo del encuentro con el pasado que vuelve".

E pronto finalizamos esta nossa seleção de onze mais onze com Gardel, “Sentir que es un soplo la vida, que veinte años no es nada….”

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